
por João Martins1
O óbvio precisa, muitas vezes, ser dito: os artistas são trabalhadores. Trabalhadores do simbólico, do sensível e da criatividade.
É precisamente esse tema que a Companhia Antropofágica coloca em pauta no Teatro de Feira Zoomakia que está acontecendo no assentamento do MST Território Cultural Okaracy Comuna da Terra Irmã Alberta.
Tal como em outras trupes teatrais, os trabalhadores do grupo superam a dicotomia entre trabalho manual e intelectual. Este exemplo deveria ser um paradigma para os profissionais da criatividade que se declaram críticos ao capital, pois tal divisão, longe de ser natural, é uma construção histórica que funciona como peça fundamental para a acumulação capitalista e na alienação do trabalho.
Com o aprofundamento do neoliberalismo enquanto razão de mundo (DARDOT; LAVAL, 2016) o mundo do trabalho ganha uma nova morfologia, aponta Ricardo Antunes (2018). A inteligência artificial, a renovação do toyotismo, o trabalho por projeto ou on demand, a indústria 4.0 acompanhada da plataformização do trabalho dão o tom das relações de trabalho nesses novos tempos.
A criatividade é aí um ponto chave, divulgado pelos neoliberais, às vezes inclusive pelos progressistas, como solução frente à desindustrialização. A criatividade é a aposta de setores do capital para gerar desenvolvimento, reproduzir e acumular riqueza. A criatividade é fonte de extração de mais valor no capitalismo de conhecimento ou cognitivo (NEGRI; LAZZARATO, 2001).
Nesse contexto uma pergunta desponta: o trabalho dos grupos teatrais gera mais valor? A resposta é paradoxal, pois comporta um “não” e um “sim”. Para compreendê-la, é necessário analisar as diferentes lógicas de valor em jogo.
Os grupos com seus trabalhos territorializados e voltados a públicos específicos, que buscam construir uma contra-hegemonia nas relações de trabalho e criação teatral, distanciando-se da indústria ou gestão cultural, são improdutivos. Não há política pública de cultura, financiamento privado ou empresariado que subsidie/financie/contrate os grupos em seus processos de pesquisa, experimentação e criação de maneira contínua e regular. Os recursos são sempre esporádicos, pontuais e mesmo quando recebidos não bancam todo o projeto (cachês, materiais, logística,etc).
Esta improdutividade, contudo, deve ser entendida a partir da concepção marxista do termo, isto é, não produzem mais valor e não permitem acumulação de capital a seus financiadores, sejam estes as políticas públicas de cultura de subsídio direto ou os financiamentos privados de instituições como Sesc e Itaú Cultural.
No entanto, há uma produtividade de ordem simbólica. O grupo trabalha com a criatividade, que se tornou uma das principais apostas do capitalismo contemporâneo. É precisamente da criatividade que se acumula capital simbólico, como nos mostra Bourdieu (1989). É através disso que o capital se reproduz e domina o nível mais íntimo do desejo, da vontade e da subjetividade. Isso não quer dizer que indiretamente não haja extração de mais valia em outras cadeias produtivas, dado que os artistas são constantemente convocados para resolver problemas de violência, conflitos sociais, degradação e revitalização urbana, basta ver o papel de grupos teatrais em processo de gentrificação.
É precisamente nessa ferida que a Companhia Antropofágica põe o dedo, ao expor como a indústria cultural atua em um nível molecular, estimulando subjetivações e éticas criativas alinhadas ao espírito do capitalismo (WEBER, 2004), frequentemente por meio de um discurso que se apresenta como progressista e diverso. Essa estratégia, no fundo, é vital para o capital, dado a necessidade constante de se oxigenar e, assim, ocultar a sua verdadeira exploração por meio de contratos de parceria, acordos de cooperação, prestação de serviços e outras figuras jurídicas que fazem parte do expediente florido do neoliberalismo.
Ao trazer isso nas cenas, que acontecem de forma itinerante no território okaracy, a companhia faz uma crítica acertada à criatividade neoliberal e mostra como a produção do sensível pode ser fortemente contrahegemônica, isto é, pode estar ligada, por exemplo, à luta pela reforma agrária.
Portanto, a criatividade tem papel significativo e deve aliar-se à luta pela superação da propriedade privada dos meios de produção, entre os quais a terra se inclui. É fundamental, no entanto, ir além de uma visão que concebe a terra apenas como um meio de produção, e a peça consegue apontar isso. Para os assentados e outros segmentos sociais, a terra é também uma relação cosmopolítica. Esta perspectiva se manifesta em práticas que rejeitam um uso meramente instrumental da terra para cultivar e defende-se uma relação de simbiose entre o humano e a natureza. Uma simbiose que abrange, nas palavras de Nego Bispo, “todos os seus compartilhantes” (2023). Nesse sentido, há uma cena onde um trabalhador e militante do MST abre caminho para as crianças plantarem na terra ocupada, explicitando que a luta atravessa gerações. Pautar a reforma agrária num país que criou leis (como a Lei de Terras de 1850) para perpetuar a concentração fundiária é encarar uma batalha longa e que precisa engajar novas gerações. O gesto da cena vai além de romper com a lógica da monocultura, pois também é um convite a conhecer e a sentir a terra como fonte viva de conhecimento, de identidade e de relações interespécies
Há pelo menos uma década a Companhia Antropofágica vem realizando um trabalho na Comuna Irmã Alberta e nessa obra teatral traz sobre a subjetividade, o sensível, a criatividade e a necessidade de que os trabalhadores da cultura se vejam como despossuídos dos meios de produção, assim como os assentados. A arte tem um papel significativo na luta por reforma agrária, na luta por soberania alimentar, pela união campo e cidade, em resistência ao modelo de agronegócio que, apenas em 2025, recebeu mais de 500 bilhões de reais do Plano Safra. É um recurso que não se destina para alimentação o povo brasileiro, mas para manter o país enclausurado em um modelo primário-exportador, ou seja, na condição de um grande “fazendão” exportador de matéria-prima barata.
A Companhia efetua uma crítica e uma análise radical, no sentido de ir à raiz, da estrutura da sociedade capitalista. Sua encenação traz à tona temas centrais como a crítica ao fetichismo da mercadoria, à exploração e à apropriação da mais-valia, bem como à acumulação de capital e suas consequências. Toda essa investigação, em constante crítica à indústria cultural e aos modelos de subjetividade que ela produz.
A Comuna foi fortemente impactada pelas fortes chuvas do dia 22/09 e estão com uma campanha de solidariedade aberta. Apoie:
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Para conhecer mais sobre a Companhia, o assentamento e a próximas apresentações: https://www.instagram.com/antropofagicateatro/
Referências bibliográficas
ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
BISPO, Antônio dos Santos. . 2023. A terra dá, a terra quer . São Paulo: Ubu Editora / Piseagrama. 112p.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Editora Boitempo, 402 p, 2016.
LAZZARATO, Maurizio; NEGRI, Antonio; JESUS, Mônica. Trabalho imaterial: formas de vida e produção de subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. 108 p. (Coleção Espaços do desenvolvimento) ISBN: 8574900826.
WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo e coordenação de Antônio Flávio Pierucci. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.
