
Desde há décadas acompanho a conjuntura latino-americana. Trabalho sistemático de observação e análise. Sempre falo que a sensação é a de um eterno-retorno. Algo assim como deixar um texto pronto, um modelito, e apenas ir trocando o nome do governante ou do país. É um golpe de estado, é a violência contra a população, é a subserviência diante do imperialismo estadunidense, é invasão militar dos EUA, é arrocho econômico, invasão cultural e por aí vai.
No minúsculo espaço-tempo de minha ordinária vida, experimentei pouquíssimos momentos históricos estelares. Um deles foi no começo dos anos 1980, a volta da democracia no Brasil depois de 21 anos de ditadura militar. Lutamos demasiado, cheios de esperanças de que viria a liberdade e um Brasil melhor. Batalhas nas ruas pela anistia, contra a ditadura, pelas eleições diretas. Foi um tempo grandioso, a utopia brilhando lá na frente, seria conquistada pelos trabalhadores em marcha.
Mas, ao final, a decepção. O primeiro presidente civil pós-golpe nem foi eleito diretamente. Foi escolhido pelo Congresso Nacional. Tancredo Neves, o mineiro conciliador. Sequer assumiu o cargo. Morreu antes, e no seu lugar subiu a rampa o José Sarney. Um imenso balde de água fria. Depois, na primeira eleição direta, enfim, o povo brasileiro escolhe Fernando Collor, um protótipo de coronel, filho da oligarquia. Todas as esperanças no chão. Nem mesmo o impedimento de Collor pouco tempo depois pode ser verdadeiramente celebrado. O Brasil sonhado seguia longe, longe…
O segundo momento, latino-americano, em 1998, foi a chegada de Hugo Chávez. Primeiro na Venezuela, abrindo janelas imensas para a utopia. Um país bolivariano, caminhando para o socialismo, com um presidente que garantia poder ao povo, no mandar obedecendo. Hugo Chávez foi crescendo e estendendo sua ousadia para toda a América Latina. No seu rastro vieram vários outros líderes, com um perfil mais progressista. E a força extraordinária de Chávez funcionava assim como um redemoinho, puxando os colegas para sua órbita. Ele, de certa forma, forçava os demais presidentes – de cor rosada – para propostas mais radicais, apontando a necessidade de mudanças estruturais. Acabava que ficava meio feio se manter só ”progressista” diante da postura do venezuelano. Chávez foi o primeiro a alterar a Constituição, mudando de maneira decisiva o modelito burguês. Além dos tradicionais três poderes da república – executivo, legislativo e judiciário – criou o poder popular, com este ficando acima dos outros três. Ou seja: qualquer decisão pode ser alterada pelo povo.
Hoje, olhando para a história, vejo o quanto foi extraordinário viver esse tempo, compartilhar o mesmo espaço que Hugo Chávez, vê-lo falar com aquela paixão bolivariana. Que privilégio tivemos! Nossa América baixa recuperada na sua autoestima, a soberania dos povos sendo priorizada, a cultura respeitada, nossa cara mestiça resplandecendo em beleza. Que momento único. Parecia que tudo podia ser possível, que nos tornaríamos mesmo a pátria grande tão sonhada.
Mas, não deu! Chávez morreu em 2013 e aquele vulcão que explodia em lavas libertárias emudeceu. Os governantes progressistas voltaram a assumir sua cor rosada, fugindo de mudanças na raiz das coisas. E quem ficou com sua herança, Maduro, acabou sozinho, entregue às garras da águia imperialista.
Hoje, em 2025, uma mirada para os governantes da América Latina só evoca tristeza. Mesmo aqueles que se elegeram com propostas mais à esquerda, vão se abaixando, se ajoelhando, esquecendo as promessas. Nada de poder ao povo, “vamos fazer o que é possível”. Só que esse possível nunca é apontar uma saída radical. No universo do nosso continente e do Caribe, apenas a ilha de Cuba resiste. Venezuela tenta, mas está acossada demais vivendo guerras cotidianas, sequestro de riquezas e sanções. E, por ter petróleo, fica numa espécie de balança. Ora pende para as concessões capitalistas, ora busca garantir o poder popular, um arranjo difícil.
Já Cuba, mesmo sem a presença física de Fidel, segue sendo essa pedra no sapato do capital. Mantém seus princípios socialistas, ainda que tenha de rebolar para conseguir manter seu povo num universo de criminosas sanções. Não tem sido fácil. Agora mesmo vive uma crise energética gravíssima, que afeta toda sua estrutura. Também faltam alimentos e outros produtos básicos. O que para um país qualquer é coisa fácil, como importar qualquer produto, para Cuba se converte numa dispendiosa operação. O bloqueio dos Estados Unidos impede que empresas de todo o mundo negociem com Cuba. Resta à ilha fazer negócios com países não alinhados como a Rússia ou a China, tão distantes dali.
São tempos sombrios agora. A inteligência artificial aparece como guia do mundo, as grandes empresas de tecnologia comandam o planeta e conformam as cabeças das gentes, o medo é disseminado como um poderoso vírus levando os povos à servidão voluntária, a universidade perde sentido, a extrema-direita cresce como opção de governo, a opção é por lutas bem particulares, o império do eu apagando o ser social: “minha vida, minhas regras”, o coletivo se esboroando. Nesse universo, onde está a utopia, essa que nos move?
A resposta para essa pergunta me deu o amigo Maicon Cláudio da Silva: “se a utopia estivesse na ordem do dia, não seria utopia”. E assim é. A utopia é esse lá-na-frente sonhado, esperado. O impossível que se converte em possível pelo caminhar histórico das gentes. Ainda que estejamos como fantasmas nesse universo de algoritmos e de pessoas em casulos, os gritos que fogem dos livros, Hatuey, Sepé, Martí, Sandino, Artigas, Manuela Saenz, Marx e tantos outros, nos apontam caminhos comunitários. E assim as lutas travadas nos mais diversos cantões desse mundo, lutas coletivas, radicais, tais como as que se vê na África ocidental, com países como o Mali, Burkina Faso, enfrentando o colonialismo, ou mesmo o heroico povo palestino resistindo ao genocídio imposto por Israel.
Que pode ser mais utópico do que ver grupos de palestinos cantando sob as ruínas, certos de que reconstruirão Gaza? Ou aquele médico – Hussam Abu Safiya – que se postou diante dos tanques depois que os assassinos de Israel destruíram o hospital? Se estas pessoas em escombros são capazes de se erguer e apontar o futuro, que dirá gente como nós na nossa ordinária vida?
Assim que não é tempo de tristeza ou desânimo. Há gigantes para vencer. É sempre hora de vestir a armadura, a lança, e sair – tal qual os heróis dos livros e do presente – disposto a rasgar o véu do amanhã. Porque só existe de fato aquilo que acreditamos. A Pátria Grande será porque já é!
P’alante!
Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.