por Marcio Lauria Monteiro1

Perto de completar sete décadas desde o triunfo revolucionário de 1959 e mais de sessenta anos do chamado “giro ao socialismo” de 1961, Cuba atravessa uma das mais profundas crises de sua história. O recrudescimento do bloqueio imperialista imposto pelo Governo Trump tem impedido o acesso da ilha à importação de petróleo, da qual seu sistema energético depende, levando-a a um colapso econômico. Com os apagões cada vez mais frequentes e longos, o turismo internacional despencou, sendo que este tem sido a principal fonte de receitas de Cuba desde meados dos anos 1990.
A esse quadro somam-se ainda as reformas econômicas baseadas no “socialismo de mercado”, que Raúl Castro e Miguel Díaz-Canel tem implementado desde 2021 (Tarea Ordenamiento). Elas envolvem a expansão de mecanismos de mercado e da propriedade privada e o desmonte dos subsídios de itens básicos de consumo para a população, o que tem provocado inflação, desigualdade social e crescente insatisfação popular.
O livro recém-publicado na Argentina pela Editorial Marea, “Cuba: uma história crítica (1959-2025)”2 (em tradução livre), é uma contribuição fundamental para compreendermos essa situação. Uma tradução ao português está em negociação e deve ser lançada ainda este ano.
Seu autor é Frank García Hernández, sociólogo e historiador cubano, graduado na Universidad de La Habana, onde também desenvolveu sua pesquisa de mestrado sobre a história do trotskismo na ilha entre os anos 1930-603. Hernández teve papel central em reintroduzir o pensamento de Leon Trotsky em Cuba, ao organizar, em maio de 2019, a primeira edição do Encontro Internacional Leon Trotsky, que já teve outras edições em São Paulo/2023, Buenos Aires/2024, Assunção/2025, e realizará sua V Edição em 2026, no Rio de Janeiro4. Ademais, o autor integra a plataforma Comunistas, grupo cubano formado em 2021, em grande parte a partir do contato de jovens críticos ao regime com as ideias de Trotsky. Apresentando-se “contra a restauração capitalista em Cuba e pela revolução mundial”, nos últimos anos seu site tem sido uma importante fonte de informações e análises críticas sobre a situação na ilha.5
A obra está dividida em três partes e cobre desde o triunfo revolucionário até o primeiro semestre de 2025. Em sua Primeira Parte, dedicada ao período 1959-1971, Hernández se destaca por confrontar diversos aspectos da narrativa “oficial” da Revolução Cubana. Contra a ideia amplamente difundida de uma revolução conduzida por uma guerrilha camponesa com apoio popular difuso, o autor menciona o papel decisivo do proletariado urbano e rural, cuja ação – especialmente através de greves e ocupações – foi central tanto para a queda da ditadura de Fulgencio Batista quanto para a radicalização do processo revolucionário em chave anticapitalista.6
Ao mesmo tempo, Hernández enfatiza uma contradição fundamental do regime surgido da revolução: a ausência de democracia proletária. Embora a burguesia tenha sido expropriada, o poder político não foi exercido diretamente pela classe trabalhadora, mas monopolizado por uma burocracia estatal-partidária. Nesse sentido, sua análise dialoga com o conceito trotskista de “Estado operário burocratizado”, destacando que, sem democracia proletária e sem romper o isolamento internacional, a transição ao socialismo permanece bloqueada, abrindo espaço para riscos contrarrevolucionários.
Outro mérito da obra está em demonstrar que o programa original do Movimento 26 de Julho não era socialista, mas democrático e nacionalista. Hernández sustenta, com base em extensa documentação, que o “giro ao socialismo” resultou menos de uma convicção ideológica prévia e mais de um processo contraditório: de um lado, a pressão da contrarrevolução e do imperialismo; de outro, a radicalização imposta pelas massas trabalhadoras. Tal constatação tem implicações profundas, pois ajuda a explicar a ausência de um compromisso orgânico com a autogestão proletária desde o início do novo regime.
Ainda nessa primeira parte, o autor analisa a formação do Partido Comunista de Cuba, sua relação conflituosa com o antigo Partido Socialista Popular (subordinado a Moscou) e o papel de figuras como Che Guevara, cujas críticas aos mecanismos de mercado nos anos 1960 ganham especial atualidade diante das reformas atuais.
A Segunda Parte (1971-1991), embora mais breve, examina o período de maior estabilidade econômica, sustentado pelo apoio soviético. Hernández mostra como esse apoio teve como contrapartida uma crescente submissão política e ideológica, consolidada na Constituição de 1976 e na adoção do modelo stalinista. A centralização do poder, o monopólio político do partido e o fortalecimento da censura são analisados como elementos estruturantes desse período. Ao mesmo tempo, o autor aborda criticamente a atuação internacional de Cuba, particularmente na África, destacando seu alinhamento com os interesses geopolíticos soviéticos e não tanto com o internacionalismo revolucionário.
Com o colapso da União Soviética inicia-se a Terceira Parte (1991-2024), a mais instigante da obra. Hernández descreve o impacto devastador do chamado “Período Especial” e identifica, desde então, uma orientação crescente em direção ao que denomina “modelo chinês”. Sob a liderança de Raúl Castro, expandiu-se o turismo como laboratório para a operação de empresas privadas e mecanismos de mercado, o que culminou, sob a nova Constituição cubana (2019) e a Tarea Ordenamiento (2021), na formação de uma nova burguesia, centrada nos setores de serviços (sobretudo turismo e gastronomia) e de comércio atacadista e varejista.
O autor analisa como essa nova classe se articula não apenas economicamente, mas também cultural e ideologicamente, ocupando espaços urbanos (como os bairros habaneros de El Vedado e Miramar), disputando os terrenos artístico e jornalístico para a promoção de valores liberais e buscando construir, assim, uma hegemonia favorável às reformas de mercado e a uma restauração plena das relações capitalistas. Hernández fornece um precioso mapeamento do surgimento de novos atores políticos e sociais associados às posições pró-capitalistas, incluindo aí os jornais on-line através dos quais se organizam e expressam.
Hernández também dedica espaço a mapear a existência de setores críticos ao regime que se reivindicam socialistas, sendo defensores de uma democracia proletária e opositores das reformas de “socialismo de mercado”, entre os quais está incluindo ele próprio e o mencionado portal online Comunistas.
As manifestações de 2021 e 2022 aparecem como expressão dessa crescente tensão social. O autor enfatiza seu caráter popular e espontâneo, no sentido de uma ausência de liderança, bem como seu conteúdo centrado em reivindicações imediatas: vacinas quando do contexto da pandemia, alimentos, energia elétrica, melhores condições de vida em geral. Aponta também a fragilidade das forças de oposição, sejam elas as pró-capitalistas ou as socialistas, destacando que, até o momento, nenhum dos dois lados foi capaz de dirigir essas manifestações (as forças contrarrevolucionárias até tentaram convocar manifestações próprias, mas fracassaram).
No plano teórico, o eixo central da Terceira Parte é a interpretação do “socialismo de mercado” e sua relação com a experiência chinesa. Hernández sustenta que esse modelo significa uma restauração capitalista realizada pela mesma burocracia que chegou ao poder com a revolução de 1949 e que transformou desde dentro o caráter de classe do Estado. Em suas palavras:
“Basicamente, o modelo do capitalismo chinês é um sistema econômico capitalista administrado por uma burocracia dirigente de um partido nominalmente comunista no poder, o qual, apesar de haver desmontado o Estado proletário fundado por ela, mantém um discurso vinculado à tradição marxista-leninista.” (p. 309)
Aqui temos uma divergência com a análise de Hernández. Essa análise pressupõe que foi possível uma restauração do Estado burguês sem a destruição prévia do Estado proletário criado pela revolução de 1949, tendo ocorrido algum tipo de transmutação do caráter de classe do Estado sob a coordenação da burocracia, pois o autor fala em “desmonte” do Estado proletário, porém sem apontar em que momento houve uma mudança qualitativa do caráter de classe do aparato estatal ou o surgimento de um novo aparato. Além de se tratar de uma subversão da compreensão marxista do Estado enquanto estrutura de dominação de classe, que não pode simplesmente ser trocada de mãos num processo de revolução ou contrarrevolução (Trotsky chamava essa interpretação de “rodar o filme do reformismo ao contrário”), essa análise também desconsidera aspectos importantes da economia chinesa. A saber, o controle que o Estado ainda exerce sobre setores-chave, como o sistema bancário e as áreas de infraestrutura e energia, através dos quais ainda é capaz de direcionar (via planejamento de tipo burocrático) para onde vão investimentos, sem necessariamente se guiar pela busca por lucro e, assim, muitas vezes contradizer os interesses da crescente burguesia chinesa e dos investidores imperialistas.
Em nossa avaliação, a China é ainda uma formação social com características de transição ao socialismo e com um aparato estatal criado pela revolução e ligado às formas de propriedade e produção por ela inauguradas, ainda que cada vez mais em um choque altamente contraditório com as relações de mercado e com a propriedade privada parcialmente reintroduzidas pela burocracia nos anos 1990 (como alternativa à sua incapacidade de gerir adequadamente uma economia cada vez mais complexa e de realizar o salto de uma economia extensiva para uma intensiva).
De forma análoga, a adoção do “modelo chinês” por Cuba não é sinônimo de restauração plena do capitalismo, menos ainda do Estado burguês. Não é possível que a burocracia realize uma transmutação do Estado proletário em Estado burguês. Tal qual ocorreu na União Soviética e no Bloco Soviético do Leste Europeu, será necessária uma contrarrevolução para que a nova burguesia surgida do “socialismo de mercado” retome o Estado e leve até o fim a restauração das relações capitalistas. Isso aindacausará necessariamente uma hecatombe social em razão da destruição da propriedade socializada, como ocorreu em todo o Leste Europeu nos anos 1990 – algo que não se deu na China nas últimas décadas, onde, ao contrário, quase 800 milhões de pessoas deixaram a linha da pobreza, mesmo com certo aumento da desigualdade social.
Essa contrarrevolução pode triunfar por diversas vias. Com o crescente estrangulamento imposto por Trump, é muito provável que Cuba siga um rumo semelhante ao caos que se instalou na União Soviética, com setores da burocracia assumindo a direção da contrarrevolução apoiados em setores de massa descontentes com a situação econômica e iludidos com a ideia de que o retorno ao capitalismo significaria liberdade política e prosperidade econômica. Ou seja, uma contrarrevolução na forma de “reação democrática”, que usa parte das massas como ponto de apoio para destruir o Estado operário burocratizado. As negociações em curso entre o governo Trump e o neto de Raúl Castro, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, reforçam essa possibilidade – ademais, “El Cangrejo”, como é conhecido, é dirigente informal da GAESA, maior conglomerado privado de Cuba, incubadora da conversão de setores da burocracia em burguesia.
Divergências à parte, Hernández acerta ao identificar o caráter profundamente contraditório do “socialismo de mercado”: ao mesmo tempo que dinamiza a economia, gera desigualdade, fortalece uma nova burguesia e intensifica conflitos com setores da própria burocracia dirigente, que começa a se dividir entre aqueles em condições de se converterem em burguesia e aqueles que têm mais a ganhar seguindo como administradores da propriedade socializada. Em Cuba, esse processo ainda não se resolveu, o que evidenciam tanto as tensões entre esses setores quanto os episódios recentes de repressão e expurgos mencionados na obra.
O livro de Hernández se destaca, por fim, por sua atenção aos aspectos ideológicos e culturais da história cubana. Seus capítulos revelam como o regime alternou entre diferentes matrizes discursivas – do anti-imperialismo crítico dos anos 1960 ao dogmatismo stalinista dos anos 1970 e ao nacionalismo dos anos 1990 – e como essas mudanças se relacionam com transformações mais amplas da sociedade, mapeando cada momento em seu devido contexto, além de apontar como a censura teve pesos diferentes ao longo das décadas. O autor também traz à tona intelectuais socialistas críticos ao regime pouco conhecidos fora de Cuba, que puderam emergir nos momentos de arrefecimento da censura, em especial Fernando Martínez Heredia, responsável por conduzir certa renovação do marxismo através de sua “Cátedra Antonio Gramsci”, no Instituto Cubano de Investigación Cultural Juan Marinello, em Havana.Em síntese, Cuba: una historia crítica é uma contribuição de grande relevância para o debate sobre a Revolução Cubana. Mais do que uma reconstrução histórica, trata-se de uma intervenção política que busca compreender a encruzilhada atual da ilha. Ao mesmo tempo que denuncia os perigos da restauração capitalista e da intervenção imperialista, o autor aponta para os limites do regime burocrático. Nesse sentido, reafirma uma perspectiva coerente com o marxismo revolucionário: a defesa das conquistas da revolução passa necessariamente pela ação independente do proletariado, capaz de enfrentar tanto o imperialismo quanto a burocracia e a nova burguesia emergente. Torcemos por sua rápida publicação no Brasil.
- Professor de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense
Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trotsky / Trotskismo e a Historiografia (GEPHT) e do Laboratório de História Contemporânea – Poder e luta de classes (LabCon UFF)
Contato: marciolauria@id.uff.br ↩︎ - HERNÁNDEZ, Frank García. Cuba: una historia crítica (1959-2025). 65 años de revolución y contrarrevolución. Buenos Aires: Marea Editorial, 2025. 336p. ↩︎
- HERNÁNDEZ, Frank García. Breve historia del trotskismo organizado en Cuba (1932-1965). Tesis de Maestría (Estudios Interdisciplinarios sobre América Latina, el Caribe y Cuba). La Habana, Facultad de Filosofía e Historia de la Universidad de La Habana, 2018. Em breve será publicado como livro. ↩︎
- Mais informações disponíveis em: https://encontrotrotski.noblogs.org/. No site há links para coletâneas com os trabalhos apresentados em alguns desses encontros, bem como para vídeos com gravação das atividades e a chamada de trabalhos para o V Encontro (Rio de Janeiro, 2026). ↩︎
- Ver https://www.comunistascuba.org/. ↩︎
- Sobre a narrativa oficial do regime e o papel do proletariado na revolução, ver MONTEIRO, Marcio Lauria. A “história oficial” da Revolução Cubana e o papel suprimido da classe trabalhadora. In: PRADO, Carlos; FERNÁNDEZ, Jorge Christian (Orgs.). Nuestra America II: ensaios históricos, políticos e culturais. Paranavaí: Editora EduFatecie, 2026. Disponível em: https://editora.unifatecie.edu.br/index.php/edufatecie/catalog/book/75. Acesso em: 10/04/2026. ↩︎
