Guyraroka: nova retomada expõe o uso de agrotóxicos como arma de guerra e as redes do latifúndio corporativo

10 de outubro de 2025

por Maria Ignácia Montero e Esteban del Cerro

Era de manhã cedo quando chegamos na kokue (roça tradicional) de Papito Vilharva, também conhecido como Seu Tito, nhanderu (rezador) de 107 anos que vive na retomada de Guyraroka, situada no município de Caarapó (MS). “Eu tô aqui brincando um pouquinho!”, disse o rezador, em referência aos seus cuidados com a roça repleta de milho e mandioca, onde carpia delicadamente com sua enxada. Partilhamos avati pará, como os Guarani e Kaiowá se referem a uma variedade de milho rajado. Seu Tito cultiva uma grande variedade de alimentos, constantemente ameaçados pelas fumigações de agrotóxico nas monoculturas de soja que cercam a retomada. Em diversas ocasiões, o veneno já foi utilizado como arma química contra Guyraroka, resultando na destruição de roças e adoecimento generalizado. Seu Tito nos levou, então, para sua casa. “Minha cesta básica vem da terra. Enquanto não vem a demarcação eu vou plantar mesmo!”, dizia, em meio às largas histórias de sua vida e o minucioso e afiado pensamento crítico sobre o contexto social e político que enfrentam os Guarani e Kaiowá.

As retomadas Guarani e Kaiowá, processos de luta pela recuperação das terras ancestrais desses povos, se intensificaram em julho de 2024 após avançarem coordenadamente em cinco tekoha, em especial, aqueles que foram retomados na região de Douradina, parte da Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica: Yvy Ajere, Kurupai’ty e Pikyxi’yn1. Nestes locais, atualmente, volta a ressurgir a vida: retorna a biodiversidade, as árvores nativas brotam espontaneamente, as roças tradicionais (kokue) produzem alimentos sem veneno e dividem espaço com roças comunitárias e áreas de regeneração florestal, em contraposição às antigas monoculturas de soja e milho que, ano após ano, esgotaram e intoxicaram a terra indígena. No dia 21 de outubro deste ano, foi retomado parte do território reivindicado da Terra Indígena (TI) Guyraroka e, em seguida, de Passo Piraju/Porto Cambira. Nesta matéria, iremos focar no caso de Guyraroka.

A TI Guyraroka é declarada como ocupação tradicional Guarani e Kaiowá pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) com 11.401 hectares, aguardando a conclusão do processo de homologação. Atualmente, Guyraroka ocupa apenas 44 hectares. Com a morosidade do Estado em cumprir seu papel na demarcação e com as constantes pulverizações de agrotóxico pelos fazendeiros, a comunidade decidiu retomar a Fazenda Ipuitã, sobreposta ao território originário e limítrofe ao local atualmente ocupado. Com essa decisão, os indígenas objetivam liberar a terra das contaminações por agrotóxicos que têm atingido as pessoas e as roças de Guyraroka – fatos recorrentes denunciados nacional e internacionalmente2 – e garantir a efetiva demarcação da terra. Os ataques químicos contra Guyraroka são feitos através de máquinas e aviões agrícolas, resultando na perda de toneladas de alimentos produzidos pelos indígenas e frequente adoecimento de idosos, crianças e jovens, incluindo casos de hospitalização. As pulverizações são frequentes nas proximidades da escola indígena de Guyraroka.

Cerco policial, ataques com bombas de gás vencidas e a resistência que já não teme a morte

Três bloqueios com viaturas policiais do Departamento de Operações de Fronteira (DOF) no caminho que dá acesso às retomadas de Passo Piraju/Porto Cambira e Guyraroká sinalizam a sistemática repressão e violência estatal-latifundiária intensificada novamente contra os Guarani e Kaiowá desde as retomadas de 2024, desta vez na região de Caarapó – mesmo município que, em 2016, ocorreu o “Massacre de Caarapó”, quando Clodiodi de Souza foi assassinado por fazendeiros em articulação com militares. Além das viaturas e policiais fortemente armados, um helicóptero sobrevoa o céu de Guyraroká, afastando os pássaros e causando terror na comunidade. O nome do tekoha pode ser traduzido como “terreiro dos pássaros”. Durante os ataques do Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque), unidade especializada da Polícia Militar do Mato Grosso do Sul, além de balas de borracha e bombas de efeito moral, bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas do helicóptero contra os indígenas. O fato relembra o Massacre de Guapo’y, ocorrido em Amambai em 2022, quando o Batalhão de Choque da Polícia Militar do Mato Grosso do Sul – sob os auspícios do Secretário de Segurança Pública, Antonio Carlos Videira – atirou com rajadas de tiro de fuzil contra os Guarani e Kaiowá, resultando em ferimentos graves de crianças e na morte de Vitor Fernandes.

Há um número significativo de mulheres, crianças e jovens no espaço da retomada. A aridez do tempo seco e quente nos vestígios da terra que a poucos dias era uma monocultura de milho, compõe a paisagem formada por mães com bebês no colo, crianças sentadas ao chão e adultos apreensivos com a situação empunhando arcos-flechas e machetes. Uma mãe Kaiowá, com o rosto tampado com uma camiseta para não ser identificada, denuncia a realidade vivida por sua filha, que necessita recorrentemente de atendimentos de saúde em função da contaminação por agrotóxicos aplicados pelos fazendeiros contra Guyraroka. Ela relata que a criança possui uma extensa pasta de prontuários nos serviços de saúde devido aos agravos ocasionados pelas intoxicações. Por vezes, afirma encontrar dificuldade de atendimento das profissionais de saúde por pertencer a retomada. O sofrimento vivido por sua filha e comunidade é o que mobilizou essa mãe a se somar na ação de recuperação da terra.

Outra jovem mãe diz não mais ter medo, inclusive da morte, pois as condições de sobrevivência atual e as razões da retomada são maiores do que os temores na participação da luta. Dos olhos descobertos pelas camisetas que tampam o restante do rosto é possível ver olhares determinados em manter a retomada. Essa determinação é reafirmada pelos pronunciamentos de que permanecerão na terra e que não aceitarão a continuidade dos ataques químicos.

Seu Tito, ancião da comunidade, com 107 anos, relembra os períodos de atuação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e da ditadura militar na expropriação da TI Guyraroka. Em 1947 foram expedidos os primeiros títulos de propriedade sobrepostos ao tekoha, articulados com a remoção forçada das famílias pelo SPI, confinando-as nas Reservas Indígenas de Dourados e Caarapó, segundo o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da Terra Indígena. A primeira retomada de Guyraroka ocorre já nos anos 2000.

Na época, os indígenas retomaram parte do latifúndio de José Roberto Teixeira (Zé Teixeira, PSDB), que “doou R$10 mil do próprio patrimônio para Bolsonaro. […] sua Fazenda Santa Claudina está integralmente sobreposta à TI Guyraroká. Ele é o deputado mais rico do Mato Grosso do Sul (MS): seu patrimônio de R$ 46,4 milhões inclui o território em litígio”.3 Zé Teixeira concentra 6.183 hectares de terra. Foi de dentro de sua fazenda que, na ocasião da primeira retomada nos anos 2000, foram desferidos tiros contra os indígenas, resultando na morte de um bebê recém-nascido. Além disso, Zé Teixeira defendeu os fazendeiros responsáveis pelo Massacre de Caarapó publicamente na Assembleia Legislativa do MS, e é protagonista na articulação político-jurídica ruralista do Marco Temporal, atualmente em vigor, que determina que os indígenas só teriam direito a terra caso comprovassem ocupação ou disputa territorial na ocasião do dia 5 de outubro de 1988, quando foi promulgada a Constituição Federal. Foi através dessa articulação entre Estado, latifúndio e grandes empresas que, em 2014, o estudo de Guyraroká foi anulado no Supremo Tribunal Federal. Em 2021, Guyraroká se torna caso de Repercussão Geral no julgamento histórico reiniciado no STF acerca do Marco Temporal, junto com a Terra Indígena (TI) Ibirama-La Klãnõ dos Xokleng, em Santa Catarina. Ou seja: o que fosse definido para estas TIs seria válido para todas as Terras Indígenas do Brasil.

Conectando alguns pontos da violência estatal-empresarial-latifundiária

A resposta do Estado frente a retomada de Guyraroka revela os vínculos da repressão policial com o latifúndio. Na segunda-feira (22 de setembro de 2025), um dia após a retomada, cenas do BPChoque reprimindo violentamente as pessoas na Terra Indígena se espalharam pela internet. O aparato repressivo e a violência desproporcional contrasta com o coletivo indígena formado por anciãos, mulheres, crianças e jovens. Bombas vencidas, escudos militares (um deles curiosamente com o desenho de um elmo espartano), helicóptero e viaturas de diferentes polícias (DOF, BP Choque, Polícia Militar) compõem a reação do governo do MS, de Eduardo Riedel – um dos coordenadores do leilão da resistência, onde se vendiam bois para financiar milícias para atacar indígenas – às demandas de Guyraroká e da luta pela terra. Desde o ano passado, a única resposta do governo do MS aos indígenas (e camponeses sem-terra) foi bombas e balas. No dia 24 de setembro, apesar do despejo ilegal resultante da ação da polícia, os indígenas voltam a realizar a retomada no mesmo local. Pistoleiros acampados na fazenda Ipuitã os atacam com tiros e, sequencialmente, dois indígenas são sequestrados e levados para a sede da fazenda. Atualmente, se vê a DOF em constante comunhão com os pistoleiros, também na sede.

Os proprietários da fazenda Ipuitã e Lagoa de Ouro são da mesma família. Apenas a Fazenda Lagoa de Ouro detém 5.566,66 hectares. A Lagoa de Ouro e fazenda Ipuitã constam em processo no Tribunal Regional Federal da 3ª região (TRF-3) como propriedade de Cláudia Mei Alves de Oliveira e Luiz Gustavo Barbosa de Oliveira, possivelmente um dos filhos e filhas de Saulo Alves de Oliveira, primeiro proprietário das fazendas citadas. O processo no TRF determina que os fazendeiros cessem a aplicação de agrotóxicos nos locais, tendo em vista serem lindeiras a Guyraroka, resultando nos já citados casos de intoxicação, adoecimento e destruição de roças tradicionais.

Luiz Gustavo Barbosa de Oliveira é Cooperado da Coamo, participa do programa “Fideliza” e recebeu maquinário agrícola como premiação, um vagão basculante caçamba para transporte de grãos. Ainda, possui loja no bairro Altos do Indaiá em Dourados, vinculado às empresas OB – Comércio de Cereais Ltda. Aparentemente, os filhos de Saulo possuem vários armazéns espalhados, inclusive em cidades como Amambai e Naviraí, com capital social milionário.

Luiz Gustavo Barbosa de Oliveira. Fonte: http://coamo.coop.br/revista/conteudo.php?ed=64&id=1110.

Luiz Gustavo Barbosa de Oliveira. Fonte: http://coamo.coop.br/revista/conteudo.php?ed=64&id=1110.

O nome da família é historicamente vinculado a muitas empresas agrícolas no interior de São Paulo e grandes fazendas e usinas produtoras de cana-de-açúcar e etanol. São recorrentes os processos contra a família, como no caso de Laura Gonçalves Mei Alves de Oliveira, que possui processo por danos ambientais em área de preservação permanente, assim como casos de desmatamento de área de Reserva Legal. Luiz, ainda, é associado ao Instituto Brasileiro de Aviação Agrícola. Cabe lembrar que os ataques químicos contra Guyraroka são feitos com frequência através de aviões. Um dos netos de Saulo, Daniel Mei Alves de Oliveira Thompson, foi condenado em 2023 por ter golpeado a cabeça de seu filho, um adolescente menor de idade com um celular.4 O adolescente estava sob seus cuidados. Daniel possui apartamento em zona nobre de Franca, interior de São Paulo, com valores que variam  950 mil a mais de um milhão de reais.

Saulo, já falecido, também já foi processado por superexploração de trabalhadores em suas fazendas, que viviam em condições degradantes e semelhantes a trabalho escravo. Após sua morte, a família entra em disputas por sucessão e inventário/partilha, como constam em processos que evidenciam conflitos intra-familiares.

Quem fez a defesa de Saulo e sua família no caso de Guyraroka foi o advogado Cicero Alves da Costa. Cicero é reconhecido por ter sido autor da primeira causa contemplada no STF pela regra do Marco Temporal, justamente sobre Guyraroka. Em sua página web5, o advogado faz propaganda da ação como “vitória” – nada mais equivocado, diante do avanço recente da retomada. Sua sanha anti-indígena o faz considerar o Marco Temporal uma medida ainda pouco eficaz, e vai além: questiona os fundamentos da lei de demarcação de terras, para cessá-las em definitivo. Seu escritório de advocacia, com sede em Dourados – “Cicero Costa Advogados” – tem como parceiras na equipe jurídica Juliana Cembranelli da Costa, que defendeu o fazendeiro Laertes Alberto Dierings, condenado pelo MPF por ocultar e remover cadáveres Kaiowá e Guarani do tekoha Pakurity, em Dourados.

Então…

            Como bem avalia um indígena de Passo Piraju/Porto Cambira, em situação semelhante à de Guyraroká, para a atuação da Polícia nesses contextos é preciso as ordens em instâncias superiores, o que foi referendado pelo representante da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (SEJUSP) em reunião convocada pelo gabinete de mediação de conflitos composto pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI), SEJUSP, representantes indígenas e outras autoridades, na quinta-feira (25 de setembro de 2025). Em meio à reunião que ocorria de forma online, representantes indígenas presentes em Guyraroká tiveram a participação interrompida pela investida de um helicóptero no território em nítida ação de intimidação.

            Os Guarani e Kaiowá de Passo/Piraju afirmaram que o “Estado quer nos exterminar”, se referindo às políticas repressivas da polícia contra a retomada. Segundo o relato da comunidade, foram lançadas bombas de gás lacrimogêneo próximo a moradias onde estavam duas mulheres gestantes, tendo sido atingidas pelo aparato e encaminhadas para um hospital da região e que uma delas permanecia internada sob monitoramento hospitalar. A comunidade ainda denuncia a permanência da Polícia Militar no local, com ações de intimidação e perseguição, tal como a interpelação interrogatória de indígenas que tentavam ir para a cidade comprar alimentos.

Os organismos estatais têm agido de diferentes formas na violação dos direitos dos indígenas. A SEJUSP tem atuado com repressão e violência, incluindo despejos ilegais. A FUNAI esteve ausente no acompanhamento das ações policiais no território, sob alegação de risco aos servidores. O MPI tem buscado costurar acordos com o governo do estado, que está limitado à saída gradual da polícia do local, que por sinal não ocorreu como afirmado, pois no domingo, dois dias após o pronunciamento do MPI no território, houve outra investida repressiva da Polícia Militar (28 de setembro). O ministério ainda sinalizou o acordo de mobilização para uma suposta “Força Tarefa” nos moldes do que houve no processo demarcatório de Ñande Ru Marangatu, quando após o assassinato de Neri Ramos com um tiro de fuzil da Polícia Militar na cabeça, foi realizada uma negociação para a demarcação via compra da terra, recompensando com fundos milionários os fazendeiros pelos anos de genocídio, esbulho territorial, exploração da terra e violações de direitos cometidas contra os indígenas.

A luta histórica de anciões como Seu Tito e sua companheira Miguela são inspiração para os mais jovens, que não viram a mesma floresta que o casal centenário, mas que veem a recuperação do tekoha como única forma de vida diferente da realidade de uma terra diminuta, em regime de confinamento, que os indígenas se referem como “chiqueiro”,  experimentada atualmente pelas limitações físicas e simbólicas do território. A vida digna no tekoha inicia quando eles se levantam, entre diferentes gerações, e retornam para os caminhos que os mais velhos, os que vieram antes de nós, andaram e viveram livres antes da colonização. A demarcação de Guyraroka, enquanto não vem, será feita na marra: quantas vezes for necessário, as cercas serão rompidas.


Nota editorial Desde que recebemos este texto, a retomada de Guyraroka foi alvo de ataques dos fazendeiros, que não se conformam com a recuperação de um território que já tem laudo antropológico e só falta a homologação por parte do poder executivo nacional. Enquanto a área não é homologada, o tekoha tem que se encolher em 40 hectares. A retomada pretende, em primeiro lugar, impedir que o veneno e os cultivos transgênicos contaminem o roçado guarani. Na última semana, maquinário pesado do agronegócio avançou sobre a retomada escoltado pela Polícia Militar. A retomada de Guyraroka faz parte de uma onda de recuperações Guarani e Kaiowá, uma vez que o governo não dá sinais de demarcação no estado de Mato Grosso do Sul, fronteira dinâmica do agronegócio cujos interesses o governo defende.


Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.


  1. Para mais informações, ler o seguinte artigo: https://quilomboinvisivel.com/2024/07/28/um-novo-tempo-de-retomadas-territorios-ancestrais-guarani-e-kaiowa-na-terra-indigena-panambi-lagoa-rica-enfrentam-o-terror-estatal-latifundiario/.. ↩︎
  2. Mais informações podem ser visualizadas em: https://cimi.org.br/2024/02/a-arma-quimica-que-ataca-o-povo-guarani-kaiowa-da-terra-indigena-guyraroka/. ↩︎
  3. Informações levantadas através do De Olho nos Ruralistas. Ver: https://deolhonosruralistas.com.br/2023/06/19/fazendeiros-com-sobreposicoes-em-terras-indigenas-doaram-r-12-milhao-para-bolsonaro/. ↩︎
  4.  https://www.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/tj-sp/2375909900/inteiro-teor-2375909906 ↩︎
  5. https://www.cicerocostaadvogados.com.br/sobre-nos. ↩︎

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