Para sobreviver à avalanche

Democracia liberal colapsa. Nos EUA e Europa, coração do colonialismo, demência senil da oligarquia branca quer liquidar a política e levar o planeta à catástrofe. A resistência, agora, é multiplicar pontos de refúgio, sob a ética da frugalidade

Por Franco “Bifo” Berardi1
Tradução: Rôney Rodrigues2

Quando uma avalanche está prestes a se formar em uma montanha, talvez exista a possibilidade de impedir que ela desça em direção à cidade que está lá embaixo no vale. Mas, quando a avalanche já começou e desce rapidamente pela encosta, de nada adianta tentar detê-la; a única coisa que você pode fazer é escapar rapidamente e se preparar para o que vem a seguir.

A cidade está perdida, e, se sobreviver, você terá que construir outra.

Parece-me que essa é a situação atual.

A democracia liberal está morta, as defesas do passado já não conseguem resistir à força da avalanche ultrarreacionária que desce a encosta.

A grande deportação prometida por Trump, a criação de campos de concentração para imigrantes por toda a bacia do Mediterrâneo.

Leis de segurança.

A liquidação do sistema público de saúde e educação.

A precarização da força de trabalho e o estabelecimento de bolsões de trabalho escravo em todas as cadeias produtivas.

Essas são as linhas de transformação que a avalanche promete provocar.

É muito provável que o excesso de confiança e a arrogância preguem peças inesperadas e que o grupo de mafiosos que ocupa a Casa Branca logo se veja obrigado a lidar com sua própria nêmesis.

No final de fevereiro, veremos também como terminam as eleições alemãs: uma vitória de Merz significaria não apenas que o nazismo volta a ser dominante na Alemanha, mas que todo o continente optou pelo racismo e pela deportação.

O coração do sistema hipercolonial, os Estados Unidos e a Europa, está preso a um frenesi que pode até provocar atos suicidas.

Mas, por outro lado, a experiência do século passado ensina que o nacionalismo acumula energias destrutivas que tendem a provocar a tragédia.

Dessa explosão de demência senil da raça branca pode surgir a catástrofe definitiva da civilização humana.

Mas, por outro lado, poderia resultar no colapso da dominação branca sobre o mundo.

A sociedade não pode deter a avalanche, mas pode encontrar formas de sobreviver e se preparar para o que vem a seguir.

O que resta a fazer é multiplicar os pontos de fuga e os refúgios onde sobreviver durante a tempestade.

Desertar e imaginar formas de vida frugal, em um novo horizonte de felicidade inimaginável no momento.


Texto publicado em italiano no blog do autor.

Tradução publicada originalmente no site Outras Palavras.


Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.

Referências

  1. Franco Berardi, mais conhecido por Bifo, é um filósofo, escritor e agitador cultural italiano. Oriundo do movimento operaísta, foi professor secundário em Bolonha e sempre se interessou sobre a relação entre o movimento social anticapitalista e a comunicação independente.
  2. Editor de Outras Palavras. Formado em jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), colaborou com veículos como Superinteressante, Caros Amigos, Brasil de Fato, Rede Brasil Atual e Revista Móbile. Assessorou movimentos sociais e entidades envolvidas na pauta urbana. Especializado na cobertura de temas relativos ao direito à cidade e em conflitos urbanos, mantém o blog outraspalavras.net/doispontos

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