
Texto: Chryslen Mayra Barbosa Gonçalves1
Imagens: Felipi Grivol2
“A burguesia quer do artista uma arte que corteje e bajule seu gosto mediocre”
José Carlos Mariátegui
O caminho começa em Okaracy – espaço de arte da Companhia Antropofágia de Teatro, no coração do território da Comuna Irmã Alberta, do MST. Ali, mais de vinte atores se movem, dançam, brincam, atravessam as pessoas convidando à interação, a proposta artística tem como título “Zoomakia – Aventuras da Dialética e suas Metáforas Botânicas no Labirinto da Criatividade” e foi dirigida por Thiago Reis Vasconcelos (fundador da Companhia Antropofágica e ex-presidente da Cooperativa Paulista de Teatro). Surge, de repente, um He-Man divertido e nada convencional, que evoca as canções conhecidas pelas gerações passadas, mas também as moralejas daquele desenho animado que marcou os anos 1980. Entre risos e lembranças, o que se resgata não é só memória, mas a crítica: nos cânticos ecoam a denúncia de Karl Marx à “mercadoria” e à sua característica mais trágica, a alienação. Essa crítica atravessa todo o percurso proposto pelo grupo Zoomakia, conectando arte e política, teatro e feira agroecológica, sonho e vida concreta das famílias Sem Terra. Aqui, a arte não é enfeite verborrágico: é denúncia, mas também reencantamento, um gesto de semear vínculos entre pessoas, territórios e a vida que pulsa ao redor.
Seguimos o caminho junto aos atores no interior da Comuna. Entre diálogos com o público e risadas especialmente das crianças, chegamos a um espaço com uma janela cercada por cortinas onde repousam, quase ingênuos, os antigos ursinhos da Parmalat. Ali, os artistas convidam as crianças a refletirem: de onde vem o leite? O que há por trás das embalagens coloridas e propagandas de vaquinhas sorridentes? A lembrança da LBR Lácteos Brasil – denunciada por adulterar leite com formol, soda cáustica e água oxigenada – escancara como a mercadoria pode esconder violências. Na cena de fantoches, as crianças descobrem e anunciam que o leite não nasce na caixinha, mas no corpo das vacas, e que existem modos de produção que cuidam da vida. É uma cena de afeto e conscientização: mãos pequenas levantadas, olhos curiosos, o riso que também ensina sobre alineação e envenenamento, bem como sobre outra forma de construir a nossa relação com o mundo.

Adentrando o território, entre plantas, gramas e a possibilidade de encontrar animais pelo caminho (avisados pelos atores como visitas surpresa), nos deparamos com uma estátua em construção: um bandeirante feito de brinquedos quebrados. Uma metáfora plástica da violência colonial e da degradação contemporânea. Os restos de plástico que compõem a figura falam tanto da ocupação histórica dos territórios quanto do excesso de lixo em nossas vidas. Ao lado, seguindo o percurso, sentados em cadeiras, alguns atores com casacos e chapéus côcos repetem inúmeras vezes o verbo “havia”, abrindo a cena que ecoa Esperando Godot, de Samuel Beckett. Mas aqui o teatro se transforma em trincheira: o jogo entre presença e ausência, ser e ter, conduz a reflexão sobre a diferença entre existir e possuir, referência direta à propriedade privada.
Mais adiante, ergue-se uma casa azul, pintada e organizada pelo cenógrafo Márcio Medina. O azul, cor de tristeza, segundo Medina, atravessa paredes, roupas, móveis antigos. Entre eles, uma mulher centenária, vestida com trajes de outro século, senta-se firme no centro do cenário. Ao redor, eletrodomésticos e objetos “modernos” expõem o choque dos tempos. Essa casa é memória encarnada: um matriarcado invisibilizado pela história oficial, mas presente na resistência cotidiana das mulheres que carregam, em seus corpos e gestos, a força de sustentar sociedades inteiras. Entre a tristeza e a dignidade, o espaço revela que a luta também é feita de lembrança e cuidado do ontem e do hoje.

De lá, seguimos para o Tiê-Sangue: um pássaro de seis metros, feito de bambu e tecido, símbolo da Mata Atlântica. Se o bandeirante era plástico e destruição, o pássaro é leveza e vínculo territorial. Ele aponta para outra forma de viver: não acumular lixo, mas tecer futuros com materiais que não rompem com a vida. Ao seu lado, o canto dos atores guia a caminhada até o último ponto: uma clareira de plantio de árvores e mudas. Ali, um companheiro do MST explica, uma a uma, as plantas companheiras que devem ocupar a terra, fortalecendo-se mutuamente.

Naquele pôr do sol, as mãos das crianças mergulham na terra, os olhos se enchem de brilho ao conhecer o plantio. A arte se mistura ao chão fértil, ao futuro que não é promessa distante, mas prática presente. O gesto de plantar é afeto coletivo, é militância viva. O percurso termina, mas também começa: com raízes no solo, com vínculos reencantados entre gente, terra e luta. É a lembrança de que, como dizem os Sem Terra, cada muda é também um sonho de justiça social.

Comuna da Terra Irmã Alberta
A Comuna da Terra Irmã Alberta está localizada no município de Cajamar, a apenas 30 quilômetros de São Paulo, e em 20 de julho de 2025 completou 23 anos de existência e resistência. O território, hoje fértil e vivo, antes era área da empresa Sabesp, destinada à construção de um “lixão”. Dona Íris, uma das moradoras mais antigas, recorda: “Quando chegamos tiramos os eucaliptos todos que acabavam com a terra. Quando tiramos o eucalipto voltaram as minas [de água]. Plantamos muita coisa, hoje a terra é boa”.
As palavras de Dona Íris, assentada da Comuna há 23 anos e integrante da recém-formada Associação de Produtores Agrícolas Irmã Alberta (APAIA), carregam não apenas memória, mas futuro. Em sua roça brotam verduras e legumes, um pomar de acerola, pés de uva e pitaya. O que ela descreve não é só produção, mas a reconstrução de um modo de viver em que a terra volta a respirar, as águas voltam a correr e as pessoas podem se alimentar com dignidade.
Mas essa história de vida e cuidado é atravessada por ameaças constantes. A Comuna já enfrentou ordens de despejo, perseguições e intimidações. Diversas assentadas relataram ameaças de morte por defenderem o território, e 68 famílias sofreram violência direta. Isso desmente a narrativa difundida contra o MST: longe da caricatura que circula, aqui estão mulheres, homens, crianças e idosos que trabalham a terra com as próprias mãos, cultivando não só alimentos, mas também esperança.

A experiência da Comuna vai além da recuperação do solo, dos aquíferos e das plantas nativas. É a invenção de uma outra lógica de vida, construída bem próxima à megacidade de São Paulo, mas em resistência à sua promessa única de urbanidade. Ao redor da metrópole do asfalto e do consumo, a Comuna propõe uma existência enraizada, que reconcilia território, gente e futuro, rompendo com a análise de que campo é sinônimo de precarização.
Mas o conflito é permanente. A instalação da empresa Minalba nas proximidades do assentamento — explorando o aquífero Cristalino para engarrafar e transformar em mercadoria aquilo que deveria ser comum — evidencia as estratégias do capitalismo de privatizar até a própria água. Enquanto isso, na Comuna, o cuidado coletivo devolve vida aos lençóis freáticos e reafirma a água como direito e não como produto.
Esse é um ensinamento profundo que a arte também traduz. Por meio da gramática teatral, o grupo Zoomakia inscreve essa experiência nas cenas apresentadas (e relacionadas com) ao público: a denúncia contra a mercantilização da vida e, ao mesmo tempo, a celebração da potência criativa que brota da terra recuperada. Na voz de Dona Íris, no trabalho das famílias, na brincadeira das crianças que aprendem a plantar, a luta se torna afeto: é resistência que floresce em comunidade, fazendo do chão um lugar de vida compartilhada.
Baião de muitos
Enquanto os atores se preparavam, os produtores ajeitavam suas barraquinhas de verduras e frutas, e outras pessoas se reuniam em torno da cozinha para preparar o almoço coletivo: um Baião de Dois. No vai e vem da cozinha, uma figura chamava a atenção: o companheiro Cícero de Crato, cearense, 66 anos de vida dedicados à luta pela terra, sendo vinte deles no MST. Antes mesmo do nascimento do Movimento em 1984, já fazia parte das Ligas Camponesas, enfrentando latifúndio e repressão.

Entre sorrisos largos e “chamadas de atenção” bem-humoradas, Cícero mexia as grandes panelas do baião na cozinha da Okaracy. “Cozinhar é um ato revolucionário”, dizia. E não falava apenas de preparar alimento, mas de escolher qual comida fazer, de que memória ela vinha, de como essa comida alimentava o corpo e a história coletiva. O baião, prato popular nascido no sertão nordestino, não era ali apenas feijão, arroz, carnes (tinha, também, uma opção vegana) cheiro-verde, manteiga de garrafa e tempero: era resistência cultural, memória de um povo inteiro servida em prato fundo. “O baião bom é o possível de ser feito”, explicava, lembrando que a cozinha também ensina a reinventar a vida com o que se tem, com criatividade e dignidade.

A experiência da comensalidade coletiva — sentar-se junto, partilhar, aprender na prática que o alimento é também vínculo — se misturava com outras trocas internacionais. Entre os presentes estava a atriz e diretora polonesa Ludmila Ryba, que foi parte da Companhia Cricot 2 ao lado de Tadeusz Kantor. Há quinze anos em contatos com o Brasil e, nos últimos dez, com a Companhia Antropofágica, Ludmila ressaltava o afeto que o teatro é capaz de despertar.
E de fato, o afeto estava em todo lugar: no baião mexido por mãos calejadas da luta, nas barraquinhas com verduras e produtos orgânicos, na barraca de livros — única da região, uma trincheira contra o ostracismo cultural —, nas músicas que atravessavam o ar, e nas crianças que corriam e brincavam em cada canto possível do território. Era um afeto ecoado pelo teatro que só tem cenário, realidade tangível e intangível, graças à luta dos assentados.
A arte como defesa territorial
Durante as atividades promovidas pelo grupo Zoomakia, o espaço Okaracy se transformava também em feira da agricultura familiar e coletiva do MST. Logo na entrada, encontrávamos uma “mesa de câmbio”: a proposta era que trocássemos reais (via pix, é claro) por uma moeda própria, que circularia dentro da feira. Para a militante e atriz, Renata Adrianna, essa era uma primeira experiência de desdólarização das relações comerciais. Produtos, relações de compra e venda, e arte se articulavam nesse exercício que rompia com a lógica capitalista. Cada verdura, cada pão, cada produto, era vendido diretamente pelas mãos de quem o plantou, quebrando o abismo que o mercado cria entre quem produz e quem consome. Mais do que conhecer a terra, ali aprendíamos histórias de vida, de cuidado e de luta.
Enquanto cortava pimentas dedo-de-moça para o baião, Dona Íris comentou, com firmeza: “A gente realmente envelheceu nisso de arrumar a terra, de deixar a terra produtiva. Recuperar! Deus ajude a que os mais novos queiram.” Ela explicava que, em Okaracy, todas as semanas crianças participavam de aulas de teatro. O palco, as brincadeiras e as encenações reavivavam o interesse delas pelo território. O teatro, nesse caso, era também ferramenta pedagógica: um modo de rearticular laços com o rural, um rural popular e político, que implica muito trabalho, mas que pode oferecer um futuro diferente. Dona Íris nos chamava a atenção para isso: que o projeto precisava ser visibilizado como possibilidade concreta para as novas gerações.
Nas conversas com as famílias assentadas e nas experiências artísticas, duas formas potentes de auto-defesa se revelavam. A primeira era o esforço de visibilizar e informar sobre a luta, desfazendo as fake news que criminalizam e descaracterizam o movimento. A segunda era a rearticulação dos laços com as crianças: compreender que a continuidade da luta depende delas, do vínculo que construam com a terra como espaço de vida e não de miséria.
Como última atividade, ouvimos a fala do companheiro Gilmar Mauro — dirigente nacional do MST — sobre a importância da articulação entre arte e luta política. Sua crítica à conjuntura atual foi certeira: apesar de termos hoje um governo que se diz “progressista”, a pauta da Reforma Agrária pouco avançou, e as ofensivas contra os territórios seguem fortes. Gilmar lembrava que a luta por terra, território e soberania alimentar é também uma luta contra o esquecimento, ainda mais diante das sucessivas ofensivas que os territórios do MST vêm sofrendo.

O percurso de Zoomakia se encerrou ali, naquele sábado 30 de agosto de 2025, mas também ficou claro que não se trata de um fim. A cada último fim de semana do mês, a experiência renasce em movimento, reinventando-se, com os pés firmes no chão da Comuna Irmã Alberta e no corpo da luta. Que mais pessoas se somem a esse espaço: para que mais crianças (e adultos) entendam que o campo não é sinônimo de miséria, mas de futuro; que soberania alimentar é comer o que se sabe plantar; e que a luta pela terra e pela vida é agora.

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Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.
