
Sobre a peça Restinga de Canudos, da Cia. do Tijolo
Como contar Canudos? É uma pergunta a propósito de forma e conteúdo. A Cia. do Tijolo adentra esse tema na peça Restinga de Canudos. Outros grupos de teatro também se aventuraram no tema, como o Teatro União e Olho Vivo, com O evangelho segundo Zebedeu, em 1970, o Ói Nóis Aqui Traveiz, com A saga de Canudos, em 2000, o Teatro Oficina Uzyna Uzona, com Os sertões, em 2007, o Teatro Contadores de Mentiras, que põe em cena O Incrível Homem pelo Avesso, e muitos outros. Quando do centenário da batalha final que acabou com a comuna de Belo Monte, Sérgio Rezende lançou o filme Guerra de Canudos.
Todo Estado-nação da Europa surge junto com uma narrativa que o justifica – El Cantar de Mio Cid, na Espanha, La chanson de Roland, na França, Beowulf, para os ingleses. Trata-se de poemas épicos medievais, cujos episódios retomam acontecimentos bélicos do território que está sendo demarcado como o do Estado-nação soberano. A epopeia nacional cria unidade histórica entre passado, presente e futuro do Estado, suprimindo ideologicamente as contradições histórico-sociais. Há nessas obras a exaltação de um herói que encarna os valores de um povo, recuperando características formais da epopeia clássica. Repassemos algumas dessas características: relato de episódios violentos e aventurosos de um herói que termina vitorioso, mesmo quando morre; esse relato é mediado por um narrador que, ao encapsular os acontecimentos no tempo passado, ameniza a forte emoção que poderiam causar.
A forma da epopeia diferencia-se enormemente da tragédia, em que conhecemos os episódios por meio da ação dos atores, que os “revivem” no presente. O herói trágico precisa ser excluído de alguma maneira para que se recupere o equilíbrio quebrado por sua ação ousada, que transgride o destino, a lei do Estado. Ele precisa ser punido por sua desmesura, e essa punição adquire um papel “pedagógico”, disciplinando um público que simpatiza e se identifica com o protagonista. Na Grécia clássica, esse efeito era potencializado pelo consumo de bebida alcoólica, que baixava as reservas, as censuras, aproximando emocionalmente o público do herói.
Os sertões, de Euclides da Cunha, relato único, por décadas, dos acontecimentos de Belo Monte entre 1893 e 1897, tornou-se algo assim como o relato fundante do Estado [dito] nacional no Brasil. Trata-se de um ensaio, gênero híbrido como poucos. Se a primeira parte, A terra, é mais bem descritiva da geografia, da paisagem, a segunda, O homem, adquire o caráter de um ensaio sociológico-racial, e a terceira, A luta, parece mais com a historiografia de uma tragédia no sentido concreto. A ordem de apresentação reforça a ideia de que é o ambiente geográfico que determina os tipos humanos que fazem a história, e induz à convicção da fatalidade do desenlace: a exclusão das gentes que ousaram se levantar contra a república nascente. O título da obra reforça essa perspectiva: é preciso domesticar a geografia, o território.
O que diz sobre o Brasil, e sobre a América Latina, um relato fundante de Estado-nação que adquire a forma de uma tragédia? Longe de exaltar um povo que se realiza em sua intenção no surgimento do Estado que encarnaria seus valores, o relato conta sobre Estados constituídos no final do século XIX que se instalam sobre o extermínio do povo da terra e a destruição da própria geografia como um todo. O projeto de nação proposto é o de outra paisagem para outro povo. É o transplante de um padrão civilizatório importado que pouco ou nada se acomoda aos trópicos. O avanço desse padrão civilizatório foi o canhão conhecido como “a matadeira”. E a promessa era fazer desta terra um cenário (sim, um cenário) para um relato que só poderia ser projetado para o futuro, reforçando o ditado de que “Brasil é o país do futuro… e sempre será”. O futuro sempre adiado como futuro do pretérito. Essa é a forma com que o tempo da introdução do modo de produção capitalista se realiza nestas latitudes: é sempre uma promessa que nunca se realiza, como a lebre da fábula, que, por mais esforço que faça, nunca alcança a tartaruga. Como vemos, a forma trágica do relato coincide com a ideologia dos regimes [ditos] republicanos que configuraram o capitalismo dependente nos territórios do continente.
A república já não é mais uma promessa. Ela está derretendo, e não apenas no Brasil. Já mostrou a que veio, multiplicando a tecnologia da “matadeira” em suas mais variadas formas, numa aceleração destrutiva própria desta época do capital. Contar Canudos hoje aponta para a intenção de revelar um enigma, como diz a Cia. do Tijolo. Um enigma de origem da república já decrépita, como a fruta que ainda não madurou e já está podre. No entanto, é também o enigma dos povos destas terras que souberam construir uma comuna a partir de uma aliança entre tradições muito diferentes de gentes humanas e outros seres em encontro num território. Nas adversas condições da terra maltratada pela colonização, Belo Monte recuperou a vida e a abundância.
A tentação bastante comum aos que se aventuram a contar Canudos é a de opor à república a figura de um herói excepcional, singular. Contrariamente ao que faz Euclides da Cunha, que mapeia o perfil psicológico de Antonio Conselheiro como quem o conhece minuciosamente, na peça da Cia. do Tijolo sempre apresenta o beato indiretamente, pelas falas contraditórias sobre sua pessoa, seja pelas crônicas desqualificadoras da imprensa da época, seja pela crônica de Machado de Assis Não dês ao César o que é do César. Em troca, há uma individualização de figuras históricas de Canudos que Euclides se esforça em reduzir a um “tipo”: “o sertanejo”. Também é incluído um personagem ficcional de Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro: Filomeno Cabrito, que leva armas para o arraial. E dá-se destaque a personagens não humanos, como a mula Piriquita, com uma fala que parece resumir a perspectiva do território com relação à colonização e à república como outra volta de parafuso da república. Ou o calango, que partilha jeitos de agir com Macambira Calango. Aliás, a inclusão de textos de autores como o Pe. Antônio Vieira, Luiz Gonzaga, Machado de Assis, Marcelino Freire, Belchior etc. contribui para evitar o encapsulamento de Belo Monte num momento histórico singular, recuperando o Canudos que impregna toda a história destas terras.
Há uma tendência recorrente de encapsular Belo Monte no passado, omitindo as sucessivas “mortes” da comuna pelo ocultamento ou pela rapina de seus despojos numa operação de museificação. A Cia. do Tijolo não tropeça nessa pedra. Logo de cara parte da primeira aproximação que os próprios atores do grupo tiveram com o acontecimento histórico, seja escolar, seja pela viagem que a Companhia fez, anos atrás, ao açude de Cocorobó, e seu efeito no grupo. Ao adentrar no tema pela experiência subjetiva, desfazem o caminho do ocultamento da cidade de Belo Monte pelo alagamento. E também desfazem a primeira impressão causada por uma única e impactante foto do cadáver do Conselheiro no livro didático do aprendizado escolar, sugerindo que nada sobrou vivo daquele arraial.
O risco de contar pelo recurso ao drama, refuncionalização burguesa da tragédia, forma hegemónica da indústria do entretenimento, é reproduzir a tragédia e reforçar seu efeito disciplinador. A Cia. do Tijolo também não faz isso.
Restingas de Canudos não recusa a emoção propiciada pelo teatro, e reforçada pela lírica. Essa lírica, porém, não é um recurso apelativo, é o jeito de expandir a linguagem para além da historiografia prosaica, que não dá conta da dimensão dessa janela de liberdade que foi Canudos, capaz de curvar o tempo cronológico e nos interpelar para abandonar os caminhos traçados pela pretensa república nacional. Introduz uma multiplicidade de elementos narrativos, com suportes também variados. Nesses elementos narrativos, a contradição não é aplanada e, muito menos, escondida debaixo do tapete. Ainda com a organicidade construída para a contação, tudo aparece como fios de Ariadne ao contrário, não para sair, senão para adentrar na “cidade submersa” de Canudos, convocando o público a refletir junto com o grupo de teatro sobre esse enigma de Belo Monte. Afinal, é uma urgência coletiva, um desafio que a conjuntura nos apresenta. Para isso, as idas e vindas no tempo histórico respondem a um esforço por sair do círculo neurótico e destrutivo da ideologia das elites: para recusar a chantagem repetida, porém eficaz, de que insistir na comuna é fazer o jogo… dos monarquistas ou da direita. Quando insistem que utilizemos, como classe trabalhadora, a tecnologia complexa e traiçoeira do Estado, precisamos puxar o freio de mão da máquina ingovernável do capital que nos leva ao abismo. E rejeitar, afinal, essa ideia insistente de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
Depois de quase 120 anos, e no contexto de uma terceira onda colonizadora, o canhão da “matadeira” não deixa de ser atirado contra nós e contra estas terras. Como diz a música de Jonathan Silva, que a Cia. do Tijolo canta: “Eu vou varrer do terreiro/ as folhas secas da morte./ Antes que o canhão dispare,/ eu vou virar vento forte”.
Contato com a Cia. do Tijolo:
Suelen Garzez
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Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.
