As ruas Interrompem a Estrada: La Vuelta e a Questão Palestina na Espanha

A afirmação de que “esporte e política não se misturam” é uma das grandes falácias ideológicas de nosso tempo. Ela não é um princípio, mas, antes de tudo, uma estratégia de poder. Beneficia aqueles que já detêm o palco global e silencia aqueles para quem a interrupção do espetáculo é uma das poucas armas para romper o cerco midiático e fazer ecoar seu grito. Diversos outros eventos esportivos expressam esta posição: para nós brasileiros é impossível não recordarmos das manifestações contra a copa e as olimpíadas no começo da década passada. A La Vuelta España de 2025 não foi “politizada” por manifestantes; ela já era, em sua essência material, um evento profundamente político.1 Desde a escolha das cidades sede – um cálculo econômico, onde quem paga mais tem sua paisagem projetada globalmente -até a lógica que rege seus contratos de patrocínio, a corrida e os atletas são vistos como um produto das relações de produção dominantes. A corrida não é apenas uma competição desportiva, mas também um produto do seu tempo, refletindo inevitavelmente as tensões e contradições que tecem a nossa realidade social. A questão nunca foi se a política estaria presente, mas qual política prevalece: a dominante, que move as grandes voltas e o esporte de forma geral, com suas lavagens de imagem e tudo mais, ou a da solidariedade internacionalista e da resistência.

O genocídio em Gaza2 é o centro gravitacional desta crise. Com levantamentos que apontam para quase 700 mil mortos (vidas ceifadas diretamente pelas bombas ou indiretamente pela fome e inanição deliberadas impostas pelo Estado sionista), a participação da equipe Israel-Premier Tech(IPT), cujo proprietário é Sylvan Adams “embaixador global de Israel” e “orgulhosamente sionista”3, atua como um braço da máquina de propaganda israelense. Reduzir a questão a um debate sobre se a equipe é “estatal” ou “privada” é cair numa falácia liberal que dissocia artificialmente os interesses privados dos objetivos expansionistas e genocidas. O sportswashing é a alquimia moderna onde capital e Estado se fundem: interesses privados desempenham uma função política, limpando a imagem de um regime de apartheid e extermínio em troca de visibilidade e lucro. Permitir sua participação e todos os outros exemplos de sportswashing (aqui podemos citar a copa do mundo de 2022 no Catar como maior exemplo) não é neutralidade; é conivência ativa com a política dominante, no caso, com o genocídio palestino.

A resposta veio das ruas, o único terreno onde a justiça real ainda pode ser demandada quando todas as instituições falham. Os 100 mil em Madrid foram apenas o ponto culminante de uma onda de protestos que varreu a Espanha, destacando Bilbao e Castro Urdiales, lugares onde a etapa foi encurtada por conta dos protestos. Mas é preciso saudar todos os outros milhões de militantes que levaram a bandeira da Palestina durante todas as etapas de La Vuelta. Estes atos, criminalizados pelo comentarista Celso Anderson da ESPN como “terrorismo”, são a expressão legítima de solidariedade internacional. A declaração de Anderson é um sintoma perfeito da hipocrisia que impera na grande mídia: ele, por um lado, elogia os trabalhadores da comunicação (jornalistas, videomakers, fotógrafos) que tornam o espetáculo possível; por outro, ignora deliberadamente os 197 desses mesmos profissionais da imprensa assassinados em Gaza pela mesma força que os protestos denunciam. Sua defesa de “descer a borracha” nos manifestantes é a tradução perfeita de sua moralidade: a do conforto do espectador, que não pode ser perturbado, mesmo que o preço seja o silêncio sobre as crianças sob os escombros de Gaza. É simples: a ESPN precisa se posicionar; quem defende que corpos sejam violentados em repressão policial não pode defender a excelência de corpos no esporte.

Diante disso, a “neutralidade política” da União Ciclística Internacional (UCI) se revela uma farsa grosseira. Esta é a mesma entidade que, com uma agilidade comparável aos ataques de Pogačar, baniu atletas russos e bielorrussos após a invasão da Ucrânia, alinhando se instantaneamente aos ditames geopolíticos da OTAN. A seletividade na aplicação de sanções não é inconsistência. A política é bem vinda quando serve aos interesses dos poderosos e condenada como “interferência” quando é um instrumento de luta popular. A UCI, o COI e a própria ONU operam nesta lógica de duplo padrão, expondo que a “governança” esportiva internacional age menos como um árbitro neutro e mais como um espelho das assimetrias do poder global.

Até dentro do pelotão, a contradição rachou a fachada do atleta apolítico. Jonas Vingegaard, cuja vitória foi hegemônica, admitiu compreensão pelos protestos, reconhecendo a gravidade do que acontece em Gaza. É sempre válido destacar também a posição do campeão olímpico em Paris, Remco Evenepoel (ausente desta Vuelta), que desde 2024 vem usando suas plataformas para denunciar e pedir o fim do genocídio. Outro caso é o de Derek Gee, campeão canadense que pediu sua rescisão contratual com a Israel-Premier Tech por motivos pessoais, mas com fortes indícios de que não queria mais correr com a bandeira sionista no peito. Em contraponto, a postura de outros é a de reduzir o ciclismo à pura “emoção” e competitividade, ignorando as escolhas e a política que geram essa mesma emoção.

O ciclismo de estrada, por sua natureza que invade o espaço público, é um esporte profundamente envolvido nessas contradições. Ele não pode se trancar num estádio. Ele é forçado a encontrar a sociedade em seu caminho, com todas as suas feridas e lutas. E o ciclismo é, em sua prática, um esporte de solidariedade; quem pedala sabe que a dor, a coletividade e o apoio mútuo são constantes. A ASO (Amaury Sport Organisation), empresa que organiza La Vuelta e o Tour de France, ao agir de forma errática durante La Vuelta, e a UCI, ao empurrar o problema com a barriga para evitar uma tomada de posição definitiva, apenas adiaram o inevitável. O conflito entre o esporte corporativo e a política de libertação não é um acidente de percurso; é um dos terrenos principais da luta política hoje.

Cada bandeira palestina que fez a corrida parar foi um ato de memória e um funeral simbólico. Foi o grito que ecoou pelos vales e montanhas da Espanha, lembrando que, enquanto um mundo pedalava, outro era enterrado. Foi uma homenagem aos mais de 800 atletas palestinos assassinados desde o início do genocídio, seus sonhos e corpos destruídos pela máquina de guerra sionista. O esporte nunca foi e nunca será neutro. Ele é uma arena de luta política. E La Vuelta de 2025 provou, gloriosamente, que o povo ainda pode invadir a estrada e ditar o ritmo da história.

Manifestação em Figueres, etapa 6, contrarrelógio por equipes

Manifestação em Bilbao, etapa 11.

Manifestação em Bilbao, etapa 11.
Manifestação em Laredo, Etapa 12
Manifestação em Madrid, Etapa 21
Manifestação em Madrid, Etapa 21

Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.


Referências

  1. Há um outro destaque importante aqui: O mundial de ciclismo este ano acontecerá em Kigali, Ruanda. É a primeira vez que o mundial ocorrerá no continente africano isso é fruto de movimento político que tem buscado, de uma forma ainda bem tímida, ampliar a influência da UCI e da sua atual gestão para outros espaços, ganhando mais apoio político e financeiro.
  2. Agora até a ONU declara que há um genocídio em Gaza
  3. Sylvan Adams vale uma nota: O proprietário da Israel-Premier Tech, Sylvan Adams, é um bilionário canadense de ascendência judaica e que atua em negócios espúrios sionistas. Segundo o jornal El Diario a IPT recebe financiamento do Ministério de Turismo sionista. Adams é amigo pessoal de Benjamin Netanyahu e preside a filial sionista do Congresso Judaico Mundial, alé de declarar que Donald Trump é “uma bênção”. Com o acirramento do genocídio em Gaza, ele emitiu diversas declarações de apoio à ocupação ilegal e ao projeto expansionista sionista. Suas declarações abertamente supremacistas enfatizam o total desrespeito a vida de crianças palestinas e enaltecem o exercito sionista como bastião da moralidade. Esta entrevista é um bom exemplo de seu posicionamento.

Marino Mondek

Pedagogo, comunicador, Mestrando no PPGEM/UNESP - RC, com foco em Filosofia da Ciência e Tecnologia, e editor do Contrapoder

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