Ciência, religião, Fake News e cloroquina

O Brasil está seriamente encrencado. Estamos no meio de uma pandemia que já matou dezenas de milhares de brasileiros e segue matando uma média mil pessoas por dia. Enquanto isso, o país está sequestrado por uma quadrilha de fundamentalistas de extrema direita que não quer ou não tem ideia de como lidar com o problema. Apesar do risco de contaminação, acredito a coisa mais sensata a se fazer seria ir às ruas protestar, exigindo a preservação da democracia, o cumprimento das leis e um impeachment, baseado em qualquer um dos vários crimes de responsabilidade cometidos por Jair Bolsonaro. Dado que seu vice foi escolhido propositalmente para desencorajar um impeachment por ser tão indesejável aos olhos da esquerda quanto ele, a melhor opção, se possível, seria cancelar as eleições pelo uso de Fake News e permitir ao povo uma nova chance de escolher seu presidente em termos mais justos.

Por que fomos tão facilmente vitimados pelas campanhas de Fake News? Algumas notícias falsas eram risíveis, como a famosa mamadeira erótica, o “kit gay” inventados para fazer passar a ideia de que os governos do PT teriam um plano maligno de sexualização das crianças visando a destruição das famílias e a “instalação do comunismo”. Como estas ideias, das mais pueris, como a da Terra plana, até outras como a noção de que a cloroquina, apesar das evidências científicas em contrário, seria um remédio eficaz contra o novo coronavírus, estão relacionadas? Acredito que tem raiz na crise de credibilidade na ciência, em boa parte resultante de certa incapacidade ou falta de vontade de certos cientistas de se comunicar com as pessoas comuns adotando discursos e posturas inalcançáveis e da emergência de um novo tipo de fundamentalismo religioso.

Quando eu era criança, lá pelos anos 70, ria-se de gente que não acreditava que o homem viajou até a lua. De toda forma, não me lembro de ter encontrado um desses pessoalmente e, por mais que esses tipos estejam se tornando mais e mais comuns, ainda são excentricidades. Minha família materna é de origem católica, e no quarto da minha avó havia um quadro de Jesus Cristo. Na sala, uma imagem da Santa Ceia. Lembro-me de ter ido à igreja uma meia dúzia de vezes durante toda a infância. Mas ninguém que eu conhecesse fazia uma interpretação literal da Bíblia. A primeira vez que falei com um criacionista de verdade eu já tinha meus vinte anos. Foi um amigo, no início dos anos 1990, e eu já cursava a faculdade de biologia. Sua família tornara-se evangélica, e hoje são bolsonaristas (não por acaso). Foi quando ouvi falar pela primeira vez do “criacionismo científico”, que de científico não tem nada, mas se vale de falácias para tentar refutar os argumentos da biologia evolutiva. -E o “elo perdido da evolução humana”? Me perguntaram, tentando refutar a ideia de que houve uma evolução humana. Uma bobagem, pois o registro fóssil humano é cheio de intermediários. Só não é perfeito, nem poderia ser dado que as formas intermediárias tendem a ter distribuições espacial e temporalmente bem limitadas, e a chance de fossilização (preservação em formas em rochas) é extremamente remota para qualquer organismo. 

Ainda hoje, na Faculdade de Biologia da Universidade Federal do Pará, em Altamira, onde trabalho, cerca de 1/4 dos meus alunos acredita que o mundo, e tudo o que há nele, foram criados magicamente no gênesis, mais ou menos como está na Bíblia. Outros tantos (a maioria) dos nossos alunos acreditam numa versão atenuada do criacionismo. Aceitam que a evolução de fato aconteceu, mas ela seria a forma que Deus usou, para, ao longo de bilhões de anos, criar a espécie humana. Sua obra prima. Numa barganha de professor desesperado, às vezes eu tento “negociar” para que os criacionistas sensu stricto troquem a primeira versão pela segunda. Na verdade, eu creio em uma versão de evolucionismo mais pura sem qualquer espaço para projeto, planejamento ou mesmo progresso previsível, como defendido pelo biólogo Stephen Jay Gould.

Quem sabe se aprendendo ciência, o povo brasileiro pare de basear sua moral em um livro místico de mais de mil anos, e entendam que o aquecimento global é a maior ameaça ao futuro da humanidade, como demonstram modelos científicos. Já vi desmatadores aqui de Altamira, no interior do Pará, citando a Bíblia para justificar seu crime ambiental de consequências apocalípticas: “Se vocês são tão numerosos e se os montes de Efraim têm pouco espaço para vocês, subam, entrem na floresta e limpem o terreno para vocês na terra dos ferezeus e dos refains” (Josué 17:15). Está claro que o ritmo atual dos desmatamentos na Amazônia causará prejuízo ao regime de chuvas do país, com sérios impactos econômicos e sociais para o país. Mas a ciência é ignorada supostamente em nome do desenvolvimento econômico. Triste fim para a natureza, o homem e, ironicamente, para a economia também. Os próprios representantes do agronegócio brasileiro já estão se manifestando pela demissão do ministro Ricardo Salles, preocupados com as consequências dos atuais níveis de desmatamento, que, entre outras coisas, destrói a imagem do Brasil junto à comunidade internacional. Então por que o governo segue nessa trajetória de devastação? Aparentemente, o governo está mais ligado aos desmatadores bandidos e milicianos como grileiros, garimpeiros e madeireiros do que aos grandes capitalistas do agronegócio.

Quem sabe, com educação científica, as pessoas não caiam tão facilmente na história de um político qualquer que os aproveitadores dos ingênuos resolvem chamar de “escolhido por Deus”, como aconteceu com Jair Bolsonaro. Disse o bolsonarista Silas Feitosa: “Agora é o momento de apoiar o governo incondicionalmente e, aguardar que, mais adiante, o presidente terá os meios necessários para neutralizar seus inimigos [com um golpe de estado?]…Deus o pôs na presidência da República, e só Ele é capaz de apeá-lo de lá”. A fé, por definição, independente dos fatos. É por isso que por mais que surjam evidências de envolvimento do presidente e sua família com o crime e a corrupção, boa parte de sua base de apoio permanece. Devem imaginar que se trata de “provações do demônio”.

Esse desapego aos fatos e à ciência também explica nosso desempenho desastroso na condução da crise do coronavírus. Tínhamos condições de nos sair melhor que qualquer outro grande país do mundo por, estando mais isolados em relação à China, de onde se espalhou o vírus, tivemos mais tempo que qualquer um outro para nos preparar. Também pelo nosso clima de fato diminuir a velocidade de propagação do vírus e por termos um Sistema Único de Saúde pública sem paralelo no mundo. No entanto já estamos isolados na liderança do número de mortes por dia causados pela pandemia e o nosso número de óbitos segue acima de mil por dia. Por quê? Porque temos um povo que em grande parte, acredita em mágica, em milagre. E elegeu um presidente pior ainda que se cercou de uma horda de bajuladores que, quando não são bandidos propriamente ditos, são “terraplanistas”, ou ambos. 

Além do uso de máscaras e do higiene pessoal, o isolamento social, por pior que seja, é a única forma cientificamente comprovada de evitar o vírus. No entanto, os seguidores do presidente preferem acreditar em um remédio sem eficácia cientificamente comprovada, como a cloroquina, até pouco tempo atrás defendida também por Donald Trump como uma panaceia para o tratamento dos efeitos do coronavírus. Segundo um artigo publicado pelo infectologista Kai Kupferschmid em um número recente da revista Science, a hidtroxicloriquina, “louvada por presidentes como uma cura milagrosa potencial” recebeu um golpe mortal recentemente, com três grandes estudos (diferentes daquele estudo problemático publicado na revista Lancet) mostrando que a droga não produz benefícios para (1) pessoas expostas ao vírus, (2) sob risco de infecção ou (3) severamente doentes. Sugerem, portanto, que é hora de esquecer a cloroquina e seguir adiante em busca de outras alternativas. 

No entanto essas evidências são desconsideradas pelos fundamentalistas religiosos, que por sua vez nos chamam de “adoradores da ciência”. Os fundamentalistas de direita falam da comprovação experimental da eficácia de um tratamento como se fosse um preciosismo de cientistas, um procedimento burocrático. É claro que, para uma doença em que mais de 90% das pessoas se curam de uma forma ou de outra, experiências pessoais ou de conhecidos que se curaram usando um determinado remédio são irrelevantes. Chá de boldo também surtiria o mesmo efeito, sem os possíveis efeitos colaterais associados à cloroquina. No entanto, o presidente da República, que se declarou recentemente infectado pelo vírus, apareceu na televisão como um garoto propaganda da cloroquina em uma cena patética dizendo que o remédio, em menos de 24h, o teria deixado praticamente curado. Como se ele tivesse qualquer autoridade para receitar remédios para a população. E o Conselho Federal de Medicina não se posiciona sobre esse comportamento antiético e abusivo do presidente! 

Pessoalmente, acho que a melhor forma de combater a ultra-direita fascista, no longo prazo, é ensinar evolução biológica, especialmente em sua forma pura, que exclui plano divino ou qualquer noção de superioridade ou progresso. Desafio que se mostra ainda mais urgente e importante agora em que se definiu como novo ministro da educação um pastor evangélico fundamentalista. Milton Ribeiro, foi vice-reitor do Mackenzie que, além de uma universidade, comporta uma escola para crianças e jovens. Escola que, segundo denunciou Marcelo Leite na Folha de São Paulo em 2008, trabalha com um livro de ciências onde consta a seguinte passagem: “Quando Deus formou a Terra, criou primeiro o ambiente. Criou elementos não vivos, como o ar, a água e o solo. Depois, Deus criou os seres vivos para morarem nesse ambiente”. Isso, além defender castigos físicos para as crianças (em vídeo amplamente divulgado na internet). Não podemos voltar à Idade Média, e a luta para isso necessariamente inclui a valorização da ciência. Como disse Richard Dawkins sobre a ciência em uma entrevista famosa: “ela funciona, aviões voam, carros andam computadores computam, se você baseia a medicina na ciência você cura pessoas, se projetar aviões baseados na ciência eles voam”, “it Works!”. Não existe mágica. 

Rodolfo Salm

PhD em ciências ambientais, é biólogo, ecólogo e ecologista, aliado dos povos indígenas, estudioso de palmeiras e apaixonado pelas florestas tropicais.

Um comentário sobre “Ciência, religião, Fake News e cloroquina

  • 22 de julho de 2020 at 4:59 pm
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    A ciência sempre se colocou num patamar bem acima da população. É preciso que ela tenha um linguajar corriqueiro e caminhe junto
    com esta. É preciso que profs aprendam a trabalhar com a interdiciplinalidade para poder responder sobre a ciência. A ciência tem que entrar nas escolas desde a fase infantil para impedir que os alunos eacreditem nas heresias das religiões e de profs fascistas.

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