Cozinhar nas ruínas (Conversa em diferentes linguagens com Matheus Marestoni)

Imagem: Matheus Marestoni | Texto: Silvia Adoue

15 de dezembro de 2025

A ruína não nos dá medo. Sabemos que não vamos herdar nada mais que ruínas, porque a burguesia tratará de arruinar o mundo na última fase de sua história. Porém, repito, nós não tememos as ruínas, porque levamos um mundo novo em nossos corações. Esse mundo está crescendo neste momento.

Buenaventura Durruti

“Das ruínas deste mundo cozinhamos um mundo novo”, de |Matheus Marestoni.

Há várias versões de uma parábola conhecida como “Sopa de pedra”. Em todas elas, uma mulher, no meio da pobreza geral, afirma que ela sabe fazer sopa com uma pedra. Ante o olhar atento dos demais, coloca uma pedra a cozinhar em água. Enquanto a água esquenta, ela diz que a sopa ficaria mais saborosa com uma cebola picada e pergunta se alguém a pode conseguir. Depois fala do gostoso que fica o caldo com uma cenoura. Aos poucos, vai sugerindo outros ingredientes, que os presentes terminam aportando. No final da cocção, serve uma sopa densa e nutritiva que a todos alimenta e que todos celebram. Com variações, o saber que a parábola carrega refere-se à ação criativa do grupo de comensais, antes afundados em lamentações. Alguma coisa muda, impulsionada por uma certa narrativa de futuro alentada pela mulher, que arranca o grupo da passividade e ajuda a desenvolver vínculos de cooperação.

Em meio às adversidades crescentes, a parábola deixa de ser apenas uma metáfora da precariedade geral. A comida está no centro da sobrevivência de nossa espécie. Na crise global do capital em 1929, 70% da população humana mundial vivia no campo. Isso permitiu que, ainda sem acesso a renda, grande parte dos pobres sobrevivesse. O ano de 2007 foi o ponto de inflexão em que a população urbana superou a rural. Hoje, 55% dos humanos habitam nas cidades. Segundo o Banco Mundial, em 2050 essa porcentagem ascenderá a 68%1. O acesso direto a insumos alimentícios será muito mais restrito.

As iniciativas populares, à maneira da “Sopa de pedra”, multiplicam-se, muitas vezes encampadas pelos Estados que, entre massacre e massacre da “população excedente”, levantam o lema da “segurança alimentar” e descomprimemconflitos que costumam resultar em explosões sociais.

No Cone Sul de nosso continente, e durante a pandemia, multiplicaram-se iniciativas populares como as “cozinhas solidárias” do Brasil, no que vem sendo chamado de “economia solidária”2. No Chile há toda uma antiga tradição das “ollas populares3 que se ativa intermitentemente como retaguarda necessária das lutas urbanas. Durante a pandemia, cooperativas de abastecimento das poblaciones4 de Santiago e Concepción reativaram práticas das Juntas de Abastecimento e Preços dos primeiros anos da década de 1970, e se organizavam para comprar diretamente das hortaliceras mapuche do território do Ngulumapu5. No Uruguai, uma rede de “ollas” permanentes enraíza-se nos bairros populares6. Na Argentina, durante a última década do século XX, e num contexto de desindustrialização e de transformações neoliberais, “comedores e merendeiros” que acompanharam as lutas piqueteras consolidaram-se geridos pelos movimentos da periferia, e na maioria das vezes se articulando com políticas públicas7.

Fala-se em enfrentar a “precarização” como se ela fosse algo provisório que precisa ser superado para retornar à “normalidade”. Essa normalidade é ilusória, pertence a outro momento da história do capital que não pode retornar. Porém, como a pedra da sopa, dispara um repertório de práticas que podem ser germe de outra coisa. Pensemos numa sociedade em que TODO o trabalho seja reprodutivo e gratuito. Longe da ideia de assalariar o trabalho reprodutivo, de alimentação e cuidados (como propunham feministas como Silvia Federici8, para desafiar e desmascarar o funcionamento do capital, com finalidades didáticas), pode-se pensar em uma economia que elimine a produção de excedente para finalidades de lucro. Uma economia em que toda a energia vital9 de mulheres e homens esteja orientada à produção da vida10.

As políticas de Estado metem-se a organizar a precariedade pelo controle do fornecimento de insumos, rompendo a economia circular para a obtenção desses insumos. Assim, controlam e eventualmente interrompem o funcionamento das iniciativas populares, como está acontecendo durante o governo de Javier Milei na Argentina11. A dependência de recursos do Estado tende a transformar os comensais em “usuários” passivos e os militantes populares em mediadores de políticas públicas que podem ser interrompidas quando conveniente às estratégias estatais. O mesmo Estado que organiza massacres pode usar suas políticas sociais para isolar os elementos disruptivos, favorecendo apenas os dóceis12. Assim aconteceu depois da rebelião de 2001 na Argentina, quando o governo de Néstor Kirchner tentou recuperar a confiança (perdida com o “que se vayan todos/ que no quede ni uno solo”) nas instituições republicanas. Os circuitos curtos que se expandiram durante a pandemia, com diferentes modalidades, em nossa região foram parcialmente absorvidos por essas políticas públicas também.

Em alguns casos, até mesmo os “restaurantes populares” têm sido adotados como políticas assistenciais permanentes, como iniciativas de Estado, com gestores terceirizados que oferecem comida barata e de qualidade duvidosa. Dentro do capitalismo, permitem comprimir salários ou manter a força de trabalho disponível em condições próximas à miséria13. O círculo da autogestão da vida nas cidades aflora nas rachaduras das crises do capital. Neste momento da história, a crise é permanente e acelerada feito buraco negro no qual o capital cai sobre si mesmo. Esse círculo rompe-se ao ser subjugado pelo Estado/mercado capitalista. A obtenção de insumos é vista como uma externalidade. Para fechar novamente o círculo virtuoso da autonomia, é preciso recuperar a terra para produzir alimentos sem intermediários e retirar os “usuários” da condição de assistidos. O que a parábola da “Sopa de pedra” não nos conta é como os comensais obtiveram a cebola, a cenoura e os outros ingredientes… Aí está o verdadeiro enigma. A expulsão do campo precisa ser revertida para que possamos cozinhar nas ruínas desta civilização/barbárie


  1. Ver: https://datos.bancomundial.org/indicador/SP.URB.TOTL.IN.ZS ↩︎
  2. Ver: BARRETO, Tassiana. O trabalho de cuidado das cozinheiras das cozinhas solidárias. In: Grupo de Trabalho 06: Gênero, raça e trabalhos de cuidado. 22º Congresso Brasileiro de Sociologia, USP, 15-18 de julho de 2025. ↩︎
  3. |Panelas populares. ↩︎
  4. Favelas. ↩︎
  5. Território mapuche hoje ocupado pelo Estado chileno. ↩︎
  6. Ver: https://desinformemonos.org/en-uruguay-se-cocina-con-amor-con-todos-los-nutrientes-posibles/ ↩︎
  7. Ver: https://www.pagina12.com.ar/2025/12/09/los-comedores-populares-otra-foto-de-la-crisis/ ↩︎
  8. Ver: FEDERICI, Silvia. Revolución en punto cero. Trabajo doméstico, reproducción y luchas feministas. Trad. Scriptorium (Carlos Fernández Guervós y Paula Martín Ponz). Madrid: Traficantes de Sueños, 2013. ↩︎
  9. Note-se que não me refiro à “força de trabalho”. ↩︎
  10. O que não implica, necessariamente, eliminar a divisão sexual do trabalho. ↩︎
  11. Ver novamente: https://www.pagina12.com.ar/2025/12/09/los-comedores-populares-otra-foto-de-la-crisis/ ↩︎
  12. Foi parte do repertório de ações dos EUA para isolar o Partido dos Panteras Negras do conjunto do movimento pelos direitos civis nas décadas de 1960 e 1970 e que está no espírito da adoção das assim chamadas “políticas afirmativas”. ↩︎
  13. Ver o que o sociólogo Chico de Oliveira afirma com relação à autoconstrução de moradias no Brasil: https://www.scielo.br/j/nec/a/NZdtrpkH99L4r4zfzbTN3Pw/abstract/?lang=pt ↩︎

Silvia Beatriz Adoue

Professora da Unesp e editora do Contrapoder

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