
Em A arte de amar1, Erich Fromm nos fala de uma espécie de “pecado original” que mergulhou a humanidade numa grande dor existencial: a separação da natureza, e de nossa própria natureza, humana, de nosso corpo, de nosso metabolismo. Quando aconteceu? Embora não haja uma sincronia na geografia planetária e muitos povos permaneçam até hoje conscientes de ser parte da natureza, podemos, mais do que periodizar, focalizar fenômenos vinculados a essa separação. Talvez possamos relacioná-la com a afirmação continuada da economia dos cereais, como formula James Scott em Against the grain. A deep history of the erliest States2. Ou com a difusão da plantation, como sugerem autoras como Anna Tsing e Donna Haraway3. Sem dúvida, a desconexão chegou ao paroxismo com a era do capital4. Em todo caso, trata-se de um longo processo, que corresponde à história de longuíssima duração.
Os indivíduos humanos passamos os primeiros anos nos afastando do seio materno… e o resto da vida tentando retornar a ele de uma maneira ou de outra. Assim, o desejo de nos reencontrar com a natureza (e com nossa própria natureza humana) pode se revestir do romantismo com que costumamos idealizar a infância da humanidade5. Sonhamos com voltar a um tempo em que, como dizem os Wajãpi, havia uma linguagem compartilhada com os outros seres6, com a qual era fácil praticar a sofisticada diplomacia do equilíbrio e a reciprocidade. Em várias culturas existe o mito de um episódio de confusão de línguas e de impossibilidade de comunicação, e em todas elas aparece a arrogância humana como causa do desastre. Um desastre contínuo que se intensifica e acelera, com risco de nos conduzir à extinção. Já Walter Benjamin nos apresentou a revolução como o freio de mão que os passageiros deste trem desgovernado que é a civilização acionam para evitar o abismo7. Propõe deter um movimento… e depois ver o que fazer. Ailton Krenak é ainda mais radical quando nos sugere que o futuro é ancestral8.
Em todo caso, não há um lar da infância ao qual retornar. Não restam territórios a salvo do desastre planetário. É preciso “voltar” de outra maneira. Ou, melhor, de outras maneiras. Como “retomar” o diálogo com geografias que mudaram tão radicalmente ao longo de séculos de ação destrutiva? Definitivamente, não podemos recomeçar esse diálogo no ponto em que o abandonamos. A ruptura unilateral dos “acordos” deteriorou ao mesmo tempo o metabolismo dos territórios e nossa capacidade de compreendê-los (quase diria “nossa capacidade de conhecê-los”). O “grande desatino”9 de agir como aprendiz de bruxo10 nos conduziu até aqui, tropeçando com tecnologias cuja dinâmica interna não chegamos a entender de todo e que, porém, utilizamos em larga escala. A própria marcha dos acontecimentos históricos levou a replicar tais tecnologias em condições muito diferentes daquelas para as quais foram pensadas. A expansão colonial tem a torpeza de descartar dados da realidade local e generalizar práticas que melhor se acomodem à ignorância dos dominadores. Não se trata de alguns pontos cegos que são desconsiderados, senão de uma percepção ilusória da totalidade.
Para “retomar” o diálogo, portanto, andamos às cegas. É preciso experimentar e observar, abandonando a arrogância de quem acredita tudo conhecer. A simples repetição do que se fazia antigamente não dará certo em territórios degradados.
A sofisticada diplomacia do equilíbrio e a reciprocidade com os outros seres exigem um conhecimento preciso e minucioso da dinâmica de cada geografia, dos ciclos de curta, média e longa duração do bioma em que o grupo humano está inserido. Portanto, não pode haver um único padrão. Mauro Almeida sugere alguns benefícios da pequena escala. O faz num texto dedicado ao campesinato, mas que pode se estender a outros grupos:
[…] a contribuição que as “comunidades locais” poderiam trazer à sociedade moderna: tecnologias simples como tecnologias de baixo impacto ambiental, relações sociais face a face como base para o autogoverno, diferenças de savoir-faire como patrimônio cultural. Nas “comunidades locais”, a “imagem do bem limitado”, que era vista como um traço opressivo e antiprogressista dos campesinatos latinoamericanos, passa a sugerir a ideia de abstenção saudável diante do consumismo ilimitado.11
Comento cada uma das vantagens que Mauro Almeida reconhece no que chama de “comunidades locais”, aquelas de pequena escala, e formular outros benefícios para os tempos em que vivemos:
Em pequena escala é possível experimentar sem maiores impactos práticas de relação e sociabilidade entre os humanos e com o ambiente. Soluções criativas podem ser testadas e, eventualmente, abandonadas, se os efeitos não respondem às expectativas.
Em pequena escala, pode-se aprender ativamente em “diálogo sincero” e realista com o ambiente. Contrariamente ao que se poderia esperar, a percepção dos limites entre escassez e abundância no território propicia a consciência de que não há uma externalidade ilimitada com a qual a racionalidade capitalista sempre contou12.
A pequena escala não supõe uma “comunidade local” que não faz troca de experiências com outras “comunidades locais”. Ao contrário, o grau de liberdade que a pequena escala permite é também liberdade para ponderar o uso de soluções testadas por outras gentes, noutros lugares.
A pequena escala, por fim, pode ser instância de autogoverno.
Ao mesmo tempo, a diplomacia do equilíbrio é sofisticada porque exige levar em consideração as singularidades de cada território, seus componentes e seus tempos. Pode exigir rotações agrícolas ou de outras atividades econômicas, deslocamentos periódicos ou eventuais. Cada bioma tem ciclos longos e ciclos de menor duração que precisam também ser considerados. Por sua vez, os territórios são parte de um mundo, de um cosmo, e cada território impacta nos outros. Dessa maneira, suas decisões precisam levar em conta dinâmicas muito mais extensas. Conscientes de sua interdependência, suas decisões supõem também alianças com os territórios vizinhos.
Por que não dou exemplos concretos dessas experiências de pequena escala? Não é porque não existam. Em cada uma das afirmações que venho fazendo até aqui vejo a carnadura de práticas contemporâneas. É fácil sucumbir à tentação de descrevê-las, mapeá-las e festejá-las. Sou testemunha delas, mas também sou consciente dos contextos hostis em que se desenvolvem, com sociedades envolventes com lógicas cada vez mais destrutivas, espoliadoras. Por isso, como “O etnógrafo”13 de Jorge Luis Borges, prefiro omitir informações sobre essas experiências. A opacidade preserva tais práticas. Talvez nosso silêncio cuidadoso permita que algumas delas sobrevivam.
- FROMM, Erich. A Arte de amar. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2021. ↩︎
- SCOTT, James. Against the grain. A deep history of the erliest States. Yale: Yale University Press, 2017. ↩︎
- Ver: https://edgeeffects.net/haraway-tsing-plantationocene/#:~:text=Donna%20Haraway%20and%20Anna%20Tsing%20Reflect%20on%20the%20Plantationocene ↩︎
- MOORE, Jason (org.). Antropoceno ou Capitaloceno? Natureza, história e a crise do capitalismo. São Paulo: Editora Elefante, 2022 ↩︎
- GRAEBER, David; WENGROW, David. O despertar de tudo. Uma nova história da humanidade. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. ↩︎
- OLIVEIRA, Joana Cabral. Ensaio sobre práticas cosmopolíticas entre famílias Wajãpi sobre a imaginação, o sensível, o xamanismo e outras obviedades. In: Mana, v. 21, n. 2, p. 297-322, jan./ago. 2015. ↩︎
- BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da história. Trad. Adalberto Müller e Márcio Seligmann-Silva. São Paulo: Alameda, 2024. ↩︎
- KRENAK, Ailton. El futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. ↩︎
- GHOSH, Amitav, O grande desatino: mudanças climáticas e o impensável. Trad. Renato
Prelorentzou. São Paulo: Quina, 2022 ↩︎ - Impossível não lembrar do desenho animado de Walt Disney: https://www.youtube.com/watch?v=UEYy3osi8Gs ↩︎
- ALMEIDA, Mauro. Caipora e outros conflitos ontológicos. São Paulo: Ubu, 2015, p. 46. ↩︎
- LUXEMBURGO, Rosa. A acumulação do capital. Estudo sobre a interpretação econômica do imperialismo.Trad. Moniz Bandeira. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. Acessível em: https://gpect.wordpress.com/wp-content/uploads/2013/11/a-acumulac3a7c3a3o-do-capital-rosa-luxemburgo.pdf ↩︎
- Ver: https://ensaiosenotas.com/2012/08/11/o-etnografo/ ↩︎
