Expedição ao fundo marinho:

Entre a fascinação pela vida marinha e a ciência argentina à venda

Com estrelas do mar, ouriços marinhos, entre muitas outras surpreendentes espécies como protagonistas da série de TV mais assistida na Argentina dos últimos meses, a campanha científica “Talud Continental IV” para o canhão submarino Mar del Plata cobrou uma relevância midiática nunca vista antes. Canais de TV, rádios, diários, contas de Instagram e demais redes sociais estão inundados de notas e publicações sobre essa expedição ao fundo marinho profundo, que teve início em 22 de julho e se prolongou até 10 de agosto.

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Durante esse período, 30 pesquisadores, em sua maioria do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET) e reunidos no Grupo de Estudos do Mar Profundo da Argentina (GEMPA), coletaram informações sobre os ecossistemas marinhos numa área muito sensível, como a do canhão submarino localizado a cerca de 300 km da costa do Mar del Plata, em profundidades da plataforma continental nunca exploradas antes com esse tipo de tecnologia, que permite ver exemplares vivos in situ1. Segundo mencionam os cientistas envolvidos, as primeiras expedições ao canhão Mar del Plata foram realizadas entre 2012 e 2013, a bordo do navio oceanográfico ARA Puerto Deseado, do CONICET, lideradas pelo próprio organismo científico nacional, mas sem contar com um robô submarino, o ROV SuBastian, capaz de tomar amostras, gravar imagens com altíssima qualidade e transmitir ao vivo.

A área de estudo localiza-se onde convergem a corrente quente do Brasil e a corrente fria das Malvinas, um ponto-chave do Atlântico Sul Ocidental não só por sua riqueza biológica, mas também por existirem ali “recursos estratégicos” muito cobiçados pelo extrativismo mineiro energético.

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Mensagem dos e das cientistas do CONICET.

Texto

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Montagem realizada por funcionário do governo de Javier Milei e publicado num post.

A fundação estadunidense Instituto Oceanográfico Schmidt, a cargo de Eric (ex-diretor do Google) e Wendy (que trabalhou em comunicações de Silicon Valley), é dona do navio Falkor Too (de onde foi coordenada a captura de imagens e amostras) e financiou toda a campanha (uso de embarcações, submarino, equipamento, gastos com alimentação). Os cientistas argentinos envolvidos são trabalhadores do CONICET, muitos estagiários precarizados pelo Estado nacional.

É inegável que o streaming ao vivo (transmitido pelo canal de YouTube de IOS) permitiu apreciar e admirar as diferentes espécies marinhas que habitam a milhares de metros de profundidade no mar, graças às imagens captadas pelo submarino SuBastian, gerando um grande interesse em milhares de pessoas que cada dia se conectavam à transmissão e participavam do chat com perguntas e comentários, para “se sentir parte da proeza científica”.

A repercussão foi tão grande que, em meio à loucura viral, expressam-se posições que parecem se contrapor, mas, como sempre dizemos, no extrativismo não há rachas. Por um lado, as mensagens em defesa de uma suposta soberania nacional impulsionadas por setores vinculados ao kirchnerismo, que hoje levantam a mão para denunciar o perigo que é tornar pública essa informação sobre territórios tão valiosos para o extrativismo mundial, quando, sendo governo, entregaram os bens comuns, sem duvidar, ao melhor preço (lembramos o acordo secreto entre YPF2 e Chevron para avançar com a exploração de Vaca Muerta3). Por sua vez, os “libertários” (através de seus streamings de ódio) afirmam que isso é parte de uma “operação psicológica” dos inimigos da Argentina, que afetará a possibilidade de desenvolver a exploração petroleira no mar e de a Argentina ser uma potência petroleira mundial. Em definitivo, esses dois supostos bandos estão pensando a mesma coisa: seguir aprofundando a entrega do mar às corporações petroleiras.

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Sem dúvida, essa experiência aproximou as pessoas de um mundo completamente desconhecido. Nesses dias, “descobrimos” que, comprovadamente, as profundidades dos oceanos albergam inumeráveis seres incríveis, e que a vida marinha, ainda no breu, é maravilhosa e mágica. E, dentro desse encanto generalizado, também surgem as vozes de alarme. Porque toda essa biodiversidade está em grave perigo, já que, na mesma zona, nesse mesmo mar, nesse mesmo fundo marinho, empresas petroleiras como Equinor, Shell e YPF (contando com a participação de pesquisas científicas que provêm de universidades públicas e do CONICET) realizaram suas campanhas de exploração sísmica e perfuraram o leito em busca de petróleo e gás. E pretendem continuar, sem se importar com a destruição que isso gera.

Se consideramos que é valioso conhecer a biodiversidade dos ecossistemas que estão sendo analisados, porque isso permite demonstrar que esse ambiente não está desabitado, como afirmam os promotores e defensores do projeto petroleiro offshore, senão que está pleno de vida, também dizemos que uma vida é sumamente valiosa per se, ainda quando nós não a conhecemos. 

Nesse sentido, é preocupante que essa campanha científica, financiada por uma organização internacional vinculada ao setor tecnológico, aconteça neste momento, quando as corporações necessitam informações-chaves e linhas de base ambiental para suas futuras explorações petrolíferas. Ou que a mineração marinha encontre um argumento científico para ser realizada nessas áreas do mar que hoje estamos conhecendo com tanto entusiasmo.

Mais uma vez advertimos que há setores da ciência que intervêm em favor do avanço dos extrativismos, e denunciamos o Estado, que continua esvaziando e desfinanciando a educação superior e as instituições científicas para que elas se transformem em simples fornecedoras de conhecimentos e tecnologias a serviço do capitalismo voraz.

A ciência não é neutra, e, se não se posicionar clara e abertamente contra as políticas extrativistas implementadas governo após governo, terminará sendo cúmplice e responsável pela destruição e pilhagem dos bens comuns. Por isso, convocamos todos os cientistas que praticam uma ciência digna e independente a levantar a voz contra este sistema que nos converte em simples mercadorias.

Fora o extrativismo de nossos corpos e territórios!

Fora as petroleiras! Queremos um MAR LIVRE sempre!

Pessoas na rua de uma cidade

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Uma imagem contendo barco

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Referências

  1. Ver entrevista com Daniel Lauretta, chefe da expedição: https://www.infobae.com/america/medio-ambiente/2025/07/28/canon-submarino-de-mar-del- plata-como-es-el-estudio-del-conicet-sobre-un-ecosistema-clave-que-esta-bajo-amenaza/
  2. Jazidas Petrolíferas Fiscais, em sua sigla em castelhano.
  3. Jazida de petróleo xisto na província argentina de Neuquén.

Assembleias contra as Rotas de Saqueio

Uma articulação entre várias assembleias em resistência em resposta ao avanço das Rotas do Saqueio

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