
Essa frase do presidente da Colômbia resume um dilema do Continente. Há 26 anos, Hugo Chávez assumia seu primeiro mandato, iniciando o ciclo progressista na América Latina. Entre avanços e crises, governos progressistas chegaram ao poder no Chile, Uruguai, Venezuela, Equador, Bolívia, Paraguai, México, Guatemala, Nicarágua, El Salvador, Peru, Honduras e Brasil. Esse ciclo foi uma resposta ao domínio dos Estados Unidos, que desde os anos 1960 sabota projetos nacionais modernos na região.
Nos anos 1990, o esgotamento das guerrilhas e o colapso das ditaduras favoreceram essa estratégia eleitoral. A ideia era que, se a maioria do povo se organizasse, o sonho de Salvador Allende se realizaria:
“Muito mais cedo do que tarde, novamente se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor.”
Era um horizonte de esperança. Para uma geração marcada por perseguições, exílio, tortura e assassinatos, esse caminho parecia ser o único possível.
A vitória eleitoral deu fôlego, mas não superou o peso da derrota. A dor política raramente é lembrada, mas está sempre presente. Como aprendi na Colômbia, por mais que tentemos viver sob o lema “Por nossos mortos, nem um minuto de silêncio”, o medo constante desgasta até os militantes mais firmes.
O progressismo cresceu como uma pedra atirada na água, criando ondas que reverberam até hoje. Os primeiros países a testar essa estratégia, como o Brasil, coincidiram com o boom das commodities impulsionado pelo crescimento da China. Quando há dinheiro, tudo parece mais fácil. Durante anos, políticas sociais, acesso à saúde e educação e um aumento do consumo deram a sensação de que a transformação estava em curso. Muitos viram como ultrapassadas as guerrilhas colombianas, os levantes zapatistas e os movimentos indígenas. Mas a história cobrou seu preço.
A partir de 2011, o modelo baseado na exportação de matérias-primas começou a ruir. As mudanças feitas pelos governos progressistas começaram a enfraquecer. Em 2018, Álvaro García Linera, então vice-presidente da Bolívia, advertiu que o progressismo perdera a disputa pelo senso comum para a direita. Governos absorveram militantes e deixaram as ruas, escolas, bairros e rádios abertas para o conservadorismo.
O caso mais evidente foi o Brasil. Poucos lembram que Silas Malafaia e Edir Macedo estavam ao lado de Lula em 2002. O PT focou na governabilidade e deixou de lado o fortalecimento comunitário, o que permitiu o crescimento das igrejas evangélicas em 543% entre 2001 e 2021. Hoje, um terço da população se identifica como evangélica.
As igrejas cresceram porque ocuparam espaços onde o Estado falhou. Oferecem suporte emocional e econômico, combatem o alcoolismo e a violência doméstica e acolhem jovens em risco. Criam grupos de mulheres que sustentam comunidades e organizam obras sociais, como a construção de casas e arrecadação para membros em dificuldade.
Enquanto isso, o progressismo seguiu apostando apenas na governabilidade e nas eleições. Isso gerou quatro problemas. Primeiro, as eleições impuseram um pensamento de curto prazo. Priorizaram-se medidas imediatas, enquanto reformas profundas foram adiadas. Segundo, valorizou-se o carisma de líderes de massa em detrimento da organização popular. As igrejas, com um pastor em cada bairro, entenderam melhor como manter presença. Terceiro, criou-se um discurso de polarização que simplificou o mundo e impediu que as próprias comunidades resolvessem seus problemas. Quarto, os governos absorveram lideranças populares como símbolos, afastando-as de suas bases. Isso gerou frustração e enfraqueceu processos comunitários.
O neoliberalismo não está morrendo. O que se dissolve lentamente é o progressismo. Seu esgotamento fortalece projetos autoritários. Como um pinheiro velho que impede outras formas de vida de crescer ao seu redor, ele consome a energia do solo. Quando cair, restará um terreno árido.
É hora de “deixar de fazer progressismo”. Isso significa deixar para trás a esperança de que esse modelo se regenere, e, em vez disso, transformar o que for útil, aproveitando o que ainda serve, mas investindo na reconstrução dos espaços que permanecem vivos; criar novas formas de organização e cultivar a esperança realista de que algo novo pode emergir. Isso inclui aprender com os evangélicos e outras experiências comunitárias, não apenas criticando, mas entendendo o que fizeram bem e aplicando essas estratégias onde forem úteis.
Nesta caminhada, quatro palavras orientam o desafio do presente: Confiança, Reciprocidade, Flexibilidade e Escuta. Quem souber usá-las para fortalecer redes organizadas e autônomas terá mais chances de consolidar um projeto viável. Os setores conservadores já entenderam isso. E a gente?