Giro em falso: expectativas e transformações na sociabilidade capitalista

por Vinicius dos Santos Xavier1

Nota introdutória

Este texto foi escrito entre janeiro e fevereiro de 2021 para as Jornadas Labieb, evento realizado pelo grupo de pesquisa Repensando o Desenvolvimento no Laboratório Interdisciplinar do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo – LABIEB-USP. O evento se estendeu de fevereiro a junho de 2021, com transmissão ao vivo pelo Youtube, no canal do IEB-USP. A apresentação do texto que agora vai a público se deu na primeira mesa, em fevereiro de 2021, intitulada “Desenvolvimento e crises sistêmicas”. Contudo, por algum problema técnico, a transmissão ao vivo não foi gravada e não está disponível – as demais mesas, de março, abril, maio e junho podem ser acessadas e assistidas no Youtube. As Jornadas, organizadas pelo referido grupo de pesquisa criado em 2019 (do qual faço parte deste o início), tiveram como mote pensar o capitalismo, em suas múltiplas dimensões, em um contexto especial: o auge, ainda incerto e sem vacinas disponíveis, da pandemia de Covid-19.

O texto, vindo a público quase 5 anos após pensado e escrito, tem valor. O que parece “previsão de futuro”, “prognóstico”, “intuição” ou mesmo “premonição” é, na verdade, capacidade metódica de pensamento. É o método que guia a interpretação da história, da Realidade (com R maiúsculo) que vai além da conjuntura específica – coisa que muitos intelectuais desconsideram, fiando-se em palavras, citações de efeito etc. e não na capacidade de pensar profundamente o objeto. Método e intuição: primeiro, o rigor científico da dialética; segundo, a intuição de quem confia na capacidade de abstrair da contingência e pensar seriamente sem sucumbir, sem medo de errar. Ao contrário disso, muitos intelectuais, tanto no período da pandemia quanto agora, se transformaram em uma espécie de coachs acadêmicos: parece que precisam, abdicando do pensamento rigoroso e metódico, dar algum direcionamento em forma de alento para as pessoas, para si mesmos, para o mundo. Alento ou desalento, na verdade: uns otimistas, outros pessimistas – todos, porém, sem fundamento concreto na Realidade histórico-social. Seja por medo, por necessidade de dar respostas para tudo, tais intelectuais deixam de ver o mundo e são guiados pelo desvairo. O medo paralisa e alucina, turva a visão, embota o pensamento2.

Para muitos, a pandemia abriria as portas para um “novo normal”, como se as pessoas, suas moralidades e caráter, as sociedades, as formas de relações intersubjetivas, sociais etc. fossem mudar radicalmente após o período da pandemia – que, àquela altura, não tinha previsão de término. Todavia, faltou um olhar mais acurado, pelo/com método, da história, das dinâmicas sociais: 1. As sociedades mudariam por um fator externo, alienígena? Que marxistas (ou intelectuais do século XXI, que sejam) são esses que não lembram da famosa passagem do 18 de brumário, “os homens fazem a história”? 2. Em nenhum – repito: NENHUM – momento uma catástrofe, de qualquer dimensão, alterou os rumos da história, das formas de sociabilidade, nem as moralidades e formas de pensar e ser das pessoas. Exemplos? Diversos: a peste que devastou a Europa no século XIV; o grande terremoto que destruiu Lisboa no meio do século XVIII; o genocídio sistemático de africanos no colonialismo e no neocolonialismo; a grande guerra europeia e depois a grande guerra mundial; etc. Nada disso alterou, por si só, as formas de ser, estar, pensar, conviver das pessoas e das sociedades. Muito pelo contrário. Nem mesmo o genocídio do holocausto nazista que culminou na grande guerra europeia fez se alterarem os modos de ser – basta pensar que o espanto e a comoção das pessoas se fixam, na maioria das vezes, na aparência, sem profundidade. O estudo coletivo conduzido nos EUA no final da década de 1940 – a guerra ainda estava fresca e quente na mente e nos corpos do mundo todo – por um grupo de intelectuais e liderado por T. W. Adorno, Estudos sobre a personalidade autoritária, revelou, entre outras coisas, que o fascismo não tinha morrido: mesmo em outro continente, na “grande democracia mundial”, a “terra da liberdade”, o pensamento e a personalidade fascistas se alastravam como fogo em palha seca – estão aí até hoje. De onde esses “intelectuais” – e muitos outros que não escreveram nada sobre, porém disseram muito ou concordaram acriticamente com os prognósticos do “novo normal” – tiraram a ideia que um vírus, uma pandemia (negada por uma grande parcela da humanidade, não custa lembrar), faria a revolução? Parece até piada – e é! Depois da Revolução dos bichos teríamos uma revolução pelo vírus. Beirou ao ridículo.

Por fim, o texto fala por si. Ciência é produto de pensamento rigoroso, não de número de citações, de diplomas, da quantidade de línguas que se fala; tampouco é feita de “chover no molhado”, dizer algo bonitinho para agradar uns ou outros, ou fazer previsões embasadas em puro nada, em achismos sem rigor, sem método, sem eira nem beira.


Dedico este texto ao grande Marino Mondek que durante anos – até recentemente – foi um dos editores do Contrapoder, meu amigo e incansável lutador pela nossa causa: a Revolução – e, diga-se: a Revolução mesmo, não o simulacro que alguns levam adiante. Salve, Marino!


Com o abalo mundial por conta da “crise” gerada pela COVID-19, abriu-se um flanco de expectativas sobre possíveis mudanças na sociedade e na sociabilidade capitalista. Tal crise possibilitaria a emergência de um “novo normal”, de outros parâmetros éticos, sociais e políticos. Igualmente, a queda na acumulação e a diminuição nas taxas de lucro, por conta da diminuta circulação, ensejariam rupturas na estrutura de produção e nas relações. Contudo, é possível que tais expectativas sejam frutos de análises e críticas que se fiam na aparência objetiva – na ideologia. Isto porque, de fundo, podem-se ver cinco fundamentos para interpretações desse tipo:

1) a consideração que as crises na sociabilidade capitalista são “crises terminais”;

2) uma interpretação que desconsidera que as superações no capitalismo podem representar “mais capitalismo”, isto é, que as saídas podem ser de aprofundamento e não de ruptura da sociabilidade;

3) há uma consideração mais ou menos inconsciente de um desenvolvimento progressivo e linear da sociedade capitalista, não um desenvolvimento cíclico, múltiplo e dinâmico que se renova sem necessariamente se transformar qualitativamente no sentido da ruptura;

4) anulação da perspectiva (dialética) da categoria da totalidade, elevando à primazia um abalo particular que pode ser apenas superficial ou, quando muito, permitir ou possibilitar reestruturações pontuais do próprio capital; e,

5) em grande parte se desconsidera a ação das classes sociais e dos indivíduos, tratando, nas entrelinhas dos textos, os indivíduos como momentos não-essenciais do processo social; ou seja, perde-se a dimensão política ao confundi-la com a dimensão teórica e crítica, apostando na ideia, às vezes de maneira inconsciente e inocente, de que a teoria pode ser traduzida em ação política sem mediações.

Nesse âmbito, o objetivo aqui é apontar para o método: quais formas da crítica dialética para se pensar os desenvolvimentos do capitalismo como sociedade e sociabilidade e, como consequência das hipóteses levantadas, as possíveis vias de superação radical da realidade.

Em primeiro lugar, caso se retorne a Marx, podem ser vistos dois movimentos conjuntos: o da dialética e o da história. Ambos se interligam e se interpenetram, mas não são a mesma coisa. Por exemplo, quando o Marx da maturidade – dos Grundrisse e do Capital – assevera que a sociedade do capital é contraditória e que suas contradições tendem a levar à superação das formas existentes, deve-se lembrar que ele diz, também, que a sociedade é dinâmica, está em constante movimento de superação e conservação (superação como negação determinada; conversação de aspectos essenciais). Esse desenvolvimento como desdobramento está no domínio da abstração (no sentido de retenção, pela teoria, do que é fundamental) e, por consequência, pode-se pensar a história por meio de tal lógica (não de modo estanque, como se a teoria fosse apartada do movimento da história). Assim, quando se fala em superação, não se aponta para uma “superação final”, uma transformação radical que traga de pronto uma sociedade socialista. A superação é um movimento constante da lógica histórica contraditória da produção desta sociedade. Isto indica que o movimento de superação pode representar uma acentuação ou transformação nos modos de funcionamento das relações sociais e das relações de produção capitalistas, um tipo de otimização e adequação histórico-temporal. Da mesma maneira, nos capítulos aos quais Marx se dedica a pensar a “Grande Indústria”, nos Grundrisse e n’O Capital, há uma diferença de ênfase – que não se dá, cabe lembrar, somente pela distância temporal de nove anos entre um e outro escrito. Nos Grundrisse, grosso modo, a Grande Indústria substituiria, progressivamente, o trabalho vivo por maquinaria. Com isso, a taxa de lucro decresceria pela diminuição da exploração direta e da produção de mais-valor. A diminuição da produção de valor pela expulsão do trabalho vivo da produção faria realocar o trabalho vivo como elemento supérfluo, visando a recolocação do mais-valor. Aqui se situaria a contradição fundamental: o capital daria um golpe em si mesmo ao dispensar aquilo que o dá fôlego, o trabalho vivo, e, de tal maneira, a grande indústria e suas relações sociais de produção não se sustentariam. Essa teorização está, em meu ver, no domínio da lógica. Ela aponta para frente, para o que, pela lógica, poderia acontecer. No Capital, no cap. 13 que, igualmente, trata da grande indústria, a coisa é um pouco diferente. Marx não leva a teorização às últimas consequências. Ele se fixa na análise histórica, ainda que informado pela lógica; uma análise do presente e do passado, isto é, do processo social concreto. No primeiro, logicamente a crise abriria brechas para a emancipação em relação ao capital. No segundo não há tal vislumbre de algum futuro – não por acaso, no domínio da luta política emancipatória, prática ou teórica, os Grundrisse sejam preferidos, ainda que não totalmente em detrimento de O Capital.

Basicamente, os Grundrisse, pelo menos em algumas passagens, estão mais para a lógica dialética, mesmo que tal lógica seja concreta e não prescinda da história como fazer humano. O Capital, ao contrário, está mais para uma espécie de lógica da sociedade. Por isso os Grundrisse parecem jogar para frente, abrir uma perspectiva para o futuro enquanto o Capital não aponta para o futuro, mas esmiúça teoricamente múltiplas dimensões do presente. Há, aqui, duas lógicas em jogo e parece que uma parte dos teóricos não se deu conta, confundindo-as e fazendo parecer uma só. Por isso apontam para o futuro, dizendo que “a mudança está próxima” ou “é inevitável” porque as crises permanentes apontam para isso. Não é tão simples. Além do que já foi dito, há um elemento que Marx não trata profundamente nesses textos que aqui se está chamando de textos teóricos: a política como dimensão viva da práxis humana.

Isso, por sua vez, não é uma deficiência de Marx. Antes, política, no sentido da práxis, e ciência precisam de mediações: não são a mesma coisa e não podem se confundir, ao custo de, caso ocorra a confusão, a ciência se perder em elucubrações – otimistas ou pessimistas – que atacam diretamente o rigor das ciências e seu distanciamento da prática imediata, sendo engolida por algo efêmero – medo ou otimismo conjuntural, tanto faz. Para colaborar com essa visão, remeto a um texto de Theodor Adorno, de 1969, chamado Resignação. Este texto foi escrito em resposta aos ataques que Adorno sofreu em abril de 1969, com interrupções a uma de suas aulas, com a acusação, entre outras coisas, de resignação diante da suposta situação transformadora que o mundo passava; que ele, assim como outros teóricos, não se juntavam à práxis, não colocavam em prática aquela crítica que haviam teorizado. Adorno, em resposta, mostra as deficiências sociais da teoria, pela divisão social do trabalho etc., e, ao mesmo tempo, a subordinação de uma prática imediatista a uma forma de opressão, aliando-se ao existente. Diz ele:

Tamanha é a facilidade com que a subordinação da teoria à práxis inverte-se em serviço prestado à reiterada opressão.

Está baseada no medo a repressiva intolerância contra o pensamento que não vem acompanhado, de pronto, por instruções para a ação. […]. Um ancestral mecanismo burguês, bastante conhecido dos iluministas do século XVIII, circula renovado mas inalterado: o sofrimento causado por uma conjuntura negativa, nesse caso a realidade bloqueada, transforma-se em ira contra aquele que o enuncia (p. 278).3

É interessante constatar o quanto diversos teóricos renomados vislumbraram um futuro “mais humano”, às vezes radicalmente transformado ou em vias disso, por conta da pandemia atual. Igualmente, é curioso ver as disputas de diagnósticos sobre o futuro: uns apontando para uma continuidade e sua escalada autoritária; outros, para a superação do atual estado de coisas, parcial ou totalmente, pois esta seria uma crise terminal da forma de sociedade e da sociabilidade capitalista. Slavoj Žižek4, de um lado, aponta para a saída revolucionária. Polemizando com Žižek, Byung-Chul Han diz:

Žižek afirma que o vírus deu um golpe mortal no capitalismo, e evoca um comunismo obscuro. Acredita até mesmo que o vírus poderia derrubar o regime chinês. Žižek se engana. Nada disso acontecerá.5

E continua:

O vírus não vencerá o capitalismo. A revolução viral não chegará a ocorrer. Nenhum vírus é capaz de fazer a revolução. O vírus nos isola e individualiza. Não gera nenhum sentimento coletivo forte. De alguma maneira, cada um se preocupa somente por sua própria sobrevivência. A solidariedade que consiste em guardar distâncias mútuas não é uma solidariedade que permite sonhar com uma sociedade diferente, mais pacífica, mais justa. Não podemos deixar a revolução nas mãos do vírus. Precisamos acreditar que após o vírus virá uma revolução humana. Somos NÓS, PESSOAS dotadas de RAZÃO, que precisamos repensar e restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para nos salvar, para salvar o clima e nosso belo planeta.6

Por seu turno, Pierre Dardot e Christian Laval, na esteira do recente livro de ambos, Comum, dizem:

Como os principais riscos são globais, a ajuda mútua deve ser global, as políticas devem ser coordenadas, os meios e o conhecimento devem ser compartilhados, a cooperação deve ser a regra absoluta. Saúde, clima, economia, educação, cultura não devem mais ser considerados propriedade privada ou propriedade estatal: devem ser considerados bens comuns globais e instituídos politicamente como tais. Uma coisa é certa agora: a salvação não virá de cima. Somente insurreições, levantes e coalizões transnacionais de cidadãos podem impor isso aos Estados e ao capital.7[percebam como os verbos jogam para o futuro: precisamos, devem, irá, virá etc.].

A ideia de solidariedade – e de alguma mudança em algum nível da sociabilidade – pode ter sido camuflada, e por isso exposta de modo superlativo, por um atordoamento e pelo medo. Passado o período de tempestade pandêmica, o mais provável é que toda essa ideia volte para o quarto mofado das ideias sem lugar e sem história, como uma boa ideologia, e o “novo normal” seja a mesma normalidade capitalista com um quê a mais, modificado e adequado à própria conjuntura histórica. Pode ser até que seguido de alguma forma de autoritarismo disfarçado e vigilância – coisa que já vem ocorrendo, diga-se, antes mesmo da pandemia, sendo esta um mote a mais que poderá servir às ações políticas de grupos de todos os matizes. Como exemplo, isso se deu, em alguma medida, após os ataques de 11 de setembro de 2001: um mote para realizar algo que, em período normal, não teria uma justificativa plausível dado seu alto risco e sua irascibilidade.

Parece, assim, que a ideia de transformação é racionalizada “com a ideia de que as pequenas mudanças seriam uma etapa no longo caminho rumo à transformação do todo”8. Mesmo que ocorram mudanças positivas em aspectos da sociabilidade, é possível dizer que elas são um passo em direção à transformação radical, ou mesmo algo bom em si mesmo? Seja como for, não é a teoria que vai dizer se sim ou não: será a história.

Para o que aqui nos interessa, basta dizer duas coisas. Primeiro: a confusão entre política e diagnóstico científico – rigoroso e metódico – faz com que o “novo normal” crie dois blocos: dos otimistas, que olham para um futuro mais brando ou revolucionado, e dos pessimistas, que vislumbram um aprofundamento da barbárie. Segundo: no que diz respeito ao método, desconsidera-se a totalidade, de múltiplas manifestações e dinâmica, e se aposta em um elemento particular – e, diga-se, de alguma forma externo, que surge quase que “como um raio caído de um céu sem nuvens”. Tal particularidade teria, por si só, o poder de destravar processos há muito trancafiados e esperando algum momento propício e inusitado para sair em explosão. Essa solução para os problemas da sociabilidade capitalista é de ordem positiva, tal como o Barão de Münchhausen – que tira a si mesmo da lama se puxando pelos cabelos. Mauro Iasi diz o seguinte sobre isso:

Otimistas e catastrofistas se irmanam para dizer que o mundo não será o mesmo. Bom, para começar, o mundo nunca é o mesmo. Como o velho rio de Heráclito, o mundo flui em seu devir sem pedir licença às pequenas ilusões humanas. As ilusões de um mundo melhor e o medo da catástrofe são meios de racionalização que ocupam o lugar do entendimento. É conhecido o fato registrado por historiadores que o final do feudalismo foi um momento de crenças no fim do mundo e previsões catastróficas, assim como mitos salvadores e desfechos redentores. Pragas, guerras e crises acompanham o percurso da humanidade e a lembram que as épocas históricas acabam em trágicas rupturas através das quais o velho mundo rui dando lugar às novas formas – nem melhores nem piores em si mesmas, mas distintas daquelas dentro das quais a humanidade acostumara-se a viver até então.9

De tal maneira, fica-se numa disputa para saber quem tem mais razão sobre o futuro que há de vir: catastrofistas versus otimistas. Olha-se para frente antes mesmo de uma análise rigorosa do presente. Por um lado, projeta-se o presente insuflado para frente; por outro, para sua necessidade perene (subjetiva e emotiva por parte do crítico) de transformação. Ao contrário disso, devia se olhar para trás: para o movimento, complexo, dinâmico e múltiplo das várias dimensões sociais interligadas e que se interpenetram; levar em consideração as articulações políticas, os acirramentos da luta de classes, as diversas e mutantes formas de dominação, como elas agem no presente etc.

Os métodos de análise e crítica que, ao mesmo tempo em que vejam horizontes de superação, desconsiderem a totalidade como categoria central e se traduzam imediatamente à ação política podem levar a equívocos; pode ser um giro em falso da crítica pelo giro em falso (ou no próprio eixo) do capital.

Entretanto, à revelia de ambas as posições mostradas acima, há uma terceira – que coincide grandemente com a visão exposta aqui. Alain Badiou, também em um texto sobre a pandemia, diz acertadamente:

Esse tipo de situação (guerra mundial ou epidemia mundial) é especialmente “neutra” no nível político. As guerras do passado apenas desencadearam revoluções em dois casos, que podem ser denominados “pontos fora da curva” em relação às potências imperiais da época: Rússia e China. No caso russo, isso ocorreu porque o poder czarista era, em todos os sentidos, e foi por muito tempo, retrógrado, inclusive como um poder potencialmente adaptado ao nascimento de um capitalismo genuíno naquele imenso país. E contra ela existia, na forma dos bolcheviques, uma vanguarda política moderna, fortemente estruturada por líderes notáveis. No caso chinês, a guerra revolucionária interna precedeu a guerra mundial, e o Partido Comunista Chinês já estava, em 1940, à frente de um exército popular que havia sido experimentado e testado. Por outro lado, em nenhum poder ocidental a guerra desencadeou uma revolução vitoriosa. Mesmo no país derrotado em 1918, na Alemanha, a insurreição espartaquista foi rapidamente esmagada.10

Badiou traz um elemento essencial: as movimentações das pessoas na sociedade. Dito de outra maneira, o movimento humano na história, a centralidade da luta de classes como luta política para as transformações. Acrescentando algo ao já destacado pelo filósofo francês, as revoluções do século XX somente se deram a partir de uma movimentação essencial: a organização política das lutas sociais e seu longo processo histórico. Como exemplo, a Revolução Bolchevique de outubro de 1917 não se deu por conta da grande guerra. É claro que houve uma colaboração da grande guerra, uma espécie de empurrão no processo de transformação social; processo este, é importante lembrar, que vinha desde, pelo menos, 1905. Não foi por acaso; tampouco foi um único elemento, exógeno e inusitado, que engendrou a revolução ou foi seu maior protagonista.

Para finalizar, Alain Badiou diz o seguinte:

Também precisaremos passar por uma crítica rigorosa de todas as perspectivas segundo as quais fenômenos como epidemias podem funcionar sozinhos na direção de algo politicamente inovador.11

É preciso manter o rigor da ciência, ainda que socialmente engajada, para que ela não se dilua na prática política imediata, tampouco em uma ciência sem métodos claros que vislumbre o futuro sem discernir o passado e sem duvidar de si mesma e que, exatamente por isso, degenere.


Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.


  1. Graduado em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mestre em filosofia pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSCar. Militante Marxista, desde sempre e para sempre. ↩︎
  2. Sobre o medo e sua potencialidade de levar à irracionalidade, à paralisia, ao delírio, indico dois belíssimos textos: 1. O ensaio de Michel de Montaigne intitulado “Sobre o medo”, in: Michel de Montaigne. Ensaios. Trad. Sérgio Milliet. 3ª ed. São Paulo: Abril Cultural, p. 41-2, 1984 (Coleção Os Pensadores); 2. O belíssimo e instigante texto de Marilena Chauí, igualmente intitulado “Sobre o medo”, in: Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, p. 35-75, 1987. Versão virtual disponível em: https://artepensamento.ims.com.br/item/sobre-o-medo/. ↩︎
  3. ADORNO, Theodor W. Resignação. In: ___. Industria cultural. Trad. Vinicius Marques Pastorelli. São Paulo: Unesp, p. 275-82, 2020. ↩︎
  4. ŽIŽEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do viral! Coronavírus e a reinvenção do comunismo. 12 mar. 2020. Trad. Artur Renzo. In: Blog da Boitempo. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2020/03/12/zizek-bem-vindo-ao-deserto-do-viral-coronavirus-e-a-reinvencao-do-comunismo/. No que diz respeito aos catastrofistas, um exemplo pode ser visto em um texto de Boaventura de Sousa Santos: SANTOS, Boaventura de Sousa. Coronavírus: tudo que é sólido desmancha no ar. 02 abr. 2020 In: Blog da Boitempo. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2020/04/02/coronavirus-tudo-o-que-e-solido-desmancha-no-ar/. ↩︎
  5. HAN, Byung-Chul. O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã, segundo o filósofo Byung-Chul Han. 22 mar. 2020. In: El País. Disponível em: https://brasil.elpais.com/ideas/2020-03-22/o-coronavirus-de-hoje-e-o-mundo-de-amanha-segundo-o-filosofo-byung-chul-han.html. ↩︎
  6. Idem. ↩︎
  7. DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A prova política da pandemia. 26 mar. 2020. Trad. Eleutério Prado. In: Blog da Boitempo. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2020/03/26/dardot-e-laval-a-prova-politica-da-pandemia/. ↩︎
  8. Adorno, op. cit., p. 279. ↩︎
  9. IASI, Mauro Luis.Pré-história, pós-pandemia e o que virá. 14 abr. 2020. In: Blog da Boitempo. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2020/04/17/pre-historia-pos-pandemia-e-o-que-vira/. ↩︎
  10. BADIOU, Alain. Sobre a situação epidêmica. 23 mar. 2020. Trad. Daniel Alves Teixeira. In: LavraPalavra. Disponível em: https://lavrapalavra.com/2020/03/23/sobre-situacao-epidemica/. ↩︎
  11. Idem. ↩︎

Vinicius dos Santos Xavier

Militante marxista desde o início dos anos 2000, Professor de filosofia da rede estadual de São Paulo, integrante do grupo de estudos “Repensando o Desenvolvimento”, do LABIEB-USP no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.

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