Luta de Classes e eleição

Estamos novamente às vésperas de novas eleições municipais. As eleições são importantes para as esquerdas? Sim, por diversos motivos. Servem para aproveitar uma maior mobilização da sociedade para debater projetos e propostas de sociedade e também, temos de convir, a conquista de posições no Estado não é pouca coisa. O Estado, além de gerir políticas públicas de vulto, é um dos pilares do capitalismo e sua conquista pela esquerda tanto pode servir para gerir o capital ou ao contrário levar contradições para dentro desta enorme máquina de apoio ao capitalismo.

Mas o que leva as contradições ao sistema dominante? Na correta concepção marxista, a grande contradição que o capital enfrenta é o trabalho. Ou, de outro modo, temos uma sociedade de conflitos entre os capitalistas e os trabalhadores. Os primeiros são os proprietários dos grandes meios de produção e os segundos vendem sua força de trabalho, vendem por dinheiro tantas horas do seu dia de trabalho, ao capitalista, para sobreviver. Este processo implica um conflito de interesses que Marx chamou de “Luta de classes” e que ainda é o central em nossa sociedade. Ou alguém acha que os meios de produção já estão socializados e que os trabalhadores não precisam mais vender sua força de trabalho para sobreviver? Mas esta questão será debatida nestas eleições? A exploração e opressão do trabalhador será objeto centralizado pelas esquerdas? Parece-me que não, pois esta questão não tem sido o foco das esquerdas.

Desde os anos 90, com a crise do socialismo, convencionou-se, ao menos nas esquerdas majoritárias, que classe já não explicava as relações sociais. Neste momento, diversos autores “descentralizam as classes e o trabalho” e passam a discutir a “multidão”, como Tony Negri e Michael Hardt, “as identidades”, como os pós-modernos Loytard e Foucault, ou o “micro”, com grande incidência na história, sociologia e antropologia. 

Até os anos 90, ainda havia um debate se o mundo do trabalho ainda era central. Autores como Habermas, André Gorz, Adam Shaff ou Claus Offe se debatiam com o marxismo e eram questionados por outros autores como Robert Kurz, Ricardo Antunes, François Chenais e toda a tradição marxista. Mas a derrota da “centralidade do trabalho” foi eminente. A crise do socialismo apontava para novos tempos.

Com isto, a “identidade de classe” perde-se. As pessoas não se reconhecem mais como “pertencendo a uma classe”, mas sim a muitos e fragmentados fatores sociais. Mesmo a esquerda tradicional, começa a abandonar o conceito e a identidade classista.

Mas as classes existem e são centrais, mesmo que imperceptíveis, para as pessoas. Marx dizia que temos a “classe em si”, concreta no mundo real e a “classe para si”, na qual as pessoas tomam consciência de sua situação de classe e se organizam. Perdemos a batalha da classe “para si”, mas a exploração e opressão ocultas da “classe em si” permanecem latentes.

Dito isto, volto a questão inicial: a esquerda retomará o debate das classes, visando tirar o véu, o mistério da sociedade capitalista ou não debaterá estes temas? Tudo indica que não. A derrota da ideia e prática (unidos) socialista/comunista ainda se materializa na invisibilidade destes temas para a sociedade. Parte das esquerdas não quer discutir, alegando que não é tempo deste debate e parte da esquerda, talvez a maioria, já não acredita na centralidade das lutas de classes. Assim, tudo indica que teremos uma eleição no campo da esquerda em que a tônica serão as políticas sociais, bolsas, cotas, identidades, micro, preconceitos, direitos humanos, multidão e só. Temas importantíssimos, que devem obrigatoriamente fazer parte de qualquer proposta socialista/comunista, mas que por si só não mudam a sociedade capitalista, mas apenas consegue melhorá-la.

Na prática, estas “novas” concepções de sociedade conseguem eleger algumas pessoas para cargos legislativos, com o voto majoritário, mas dificilmente, com as devidas exceções, se tiver, conseguirá eleger representantes da esquerda para cargos majoritários, executivos. Isto porque estas discussões estão muito restritas à classe média progressista ou aos meios universitários, não sendo a prioridade material do dia a dia das grandes massas trabalhadoras ou das classes populares.

Mas a esquerda conseguiu eliminar a identidade de classe dos trabalhadores, que é uma questão que afeta a todos e a substituiu por políticas que dizem respeito a grupos. Este é um grande dilema da esquerda. Talvez, nossa encruzilhada.

Antonio Julio de Menezes Neto

Sociólogo e doutor em educação.

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