O capitalismo e o rock na década de 1990

Os anos 1990 foram marcados por transformações na sociedade, que atravessaram diversos âmbitos, se manifestando de diferentes formas no cotidiano. Essas mudanças, que impactaram tanto as relações materiais como a sociabilidade humana, também reverberaram em expressões artísticas como o rock.

Em algumas músicas observa-se uma certa percepção em relação às condições materiais relacionadas ao trabalho e como isso impacto a vida das pessoas. Mostra-se, assim, como a exploração econômica acaba ganhando uma forma simbólica na letra de algumas músicas. Em 1995, na música “Bullet With Butterfly Wings”, da banda The Smashing Pumpkins, os versos iniciais eram bastante evidentes acerca da percepção do contexto:

O mundo é um vampiro,
Enviado para sugar
Destruidores furtivos,
Seguram você nas chamas
E o quê que ganho?
Pela minha dor?
Desejos traídos,
E uma peça do jogo.

Nessa letra mostra-se a ideia do mundo como algo que suga a vida das pessoas e que, em resposta, entrega sofrimento. Essa sociedade que desgasta o ser humano, dentro de uma realidade que lhe entrega sofrimento, cria o que no neoliberalismo pode ser chamado de “novo sujeito precário”1. Essa questão também foi explorada pela banda britânica Radiohead. Em 1997, na música “No Surprises”, a banda dizia:

Um coração cheio como um aterro
Um emprego que te mata lentamente
Feridas que não cicatrizam.

Na letra fica bastante explícita a condição de degradação provocada pelo trabalho naquele contexto. Nessa realidade, as respostas podem ser bastante diferentes, passando tanto pela paralisia diante do mundo cruel como pela perspectiva que coloca um cenário de algum tipo de mudança. Essa visão em torno da mudança – ou impossibilidade dela – aparece na também na música da The Smashing Pumpkins, quando se diz na letra: “Apesar da minha fúria sou apenas um rato engaiolado”. Ou seja, é um ser que não encontra saída dentro da realidade em que está inserido.

Essa época foi dominada por contradições, que, em âmbito político, se materializaram na crise de alternativas à direita e à esquerda. Por um lado, o começo da década de 1990 significou o término de governos reacionários, representados por George Bush, nos Estados Unidos, e por Margaret Thatcher, no Reino Unido. Por outro, também significou o colapso do modelo stalinista de construção dos Estados operários. Como alternativa, foram eleitos governos que se pretendiam progressistas em relação aos anteriores, em particular Bill Clinton, nos Estados Unidos, e Tony Blair, no Reino Unido, mas que não presentavam qualquer perspectiva de transformação da realidade. 

Em meio a isso, a década viu um esboço de crescimento econômico. Contudo, esse era apenas a aparência, afinal em pouco tempo a economia começou a se mostrar novamente frágil. Em âmbito político, seguiu sendo uma época de guerras e lutas, ainda que pontuais, dos trabalhadores. Os diferentes governos, mesmo pretensamente de esquerda, como o do trabalhista Blair, aplicaram medidas de diminuição de direitos sociais e trabalhistas, assumindo a retórica do Estado mínimo, além de terem apoiados guerras e ocupações militares. 

De um ponto de vista ideológico, na década de 19990 predominavam as ideias que foram chamadas de neoliberais. O neoliberalismo, cujas primeiras expressões de política estatal remonta à década de 1970,

“[…] é em primeiro lugar uma teoria das práticas político-econômicas que propõe que o bem-estar humano pode ser mais bem promovido liberando-se as liberdades e capacidades empreendedoras individuais no âmbito de uma estrutura institucional caracterizada por sólidos direitos a propriedade privada, livres mercados e livre comércio. O papel do Estado é criar e preservar uma estrutura institucional apropriada a essas práticas; o Estado tem de garantir, por exemplo, a qualidade e a integridade do dinheiro. Deve também estabelecer as estruturas e funções militares, de defesa, da polícia e legais requeridas para garantir direitos de propriedade individuais e para assegurar, se necessário pela força, o funcionamento apropriado dos mercados”.2

Em âmbito das formas de organização do trabalho, o período esteve marcado pela consolidação de mudanças conhecidas comumente como toyotismo, como resposta à crise econômica das décadas anteriores. Essa proposta de mudança na forma de organização da produção

“[…] se apoia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional”.3

Esse processo impactou em mudanças na forma de organização da vida e do cotidiano das pessoas. Essas mudanças ocorridas no período se entrelaçam com a política, a cultura e as ideologias. Na medida em que “a hegemonia ideológica e política em toda sociedade depende da capacidade de controlar o contexto material da experiência pessoal e social”, sabe-se que “as materializações e significados atribuídos ao dinheiro, ao tempo e ao espaço têm grande importância no tocante à manutenção do poder político”4. Portanto,

“[…] diante da debilitação estrutural do mundo do trabalho, a partir da década de 1980, em decorrência da lógica da modernização capitalista, as contrapartidas sociais clássicas do toyotismo tenderam a ser precarizadas, revistas (ou abolidas) pelo capital, com suas condições institucionais originárias (tal como se constituíram no seu país capitalista de origem o Japão) sendo negadas em virtude de seu próprio desenvolvimento mundial”.5

Esse cenário de precarização tem relação direta com implantação das políticas neoliberais. As mudanças na forma de organização do trabalho impactaram também a constituição da subjetividade das pessoas, na medida em que a nova forma de organização do trabalho exige,

“[…] ao contrário do taylorismo, um homem produtivo capaz de intervir na produção com o pensamento, instaurando-se um processo de ‘captura’ da subjetividade do trabalho pelo capital. O toyotismo coloca, deste modo, a necessidade da constituição de um intenso nexo psicofísico, a unidade orgânica entre ação e pensamento no local de trabalho, como uma das precondições do próprio desenvolvimento da nova materialidade do capital”.6

Esse processo coloca como perspectiva a construção de um modelo de controle da sociedade que não apenas se limite ao âmbito do trabalho, mas que também procura influir sobre a vida íntima e mesmo a subjetividade das pessoas, constituindo modelos socioeconômicos “de governo e gestão social da subjetividade”.7 Em relação aos trabalhadores,

“[…] a forma de vida neoliberal descobriu que se pode extrair mais produção e mais gozo do próprio sofrimento. Encontrar o melhor aproveitamento do sofrimento no trabalho extraindo o máximo de cansaço com o mínimo de risco jurídico, o máximo de engajamento no projeto com o mínimo de fidelidade recíproca da empresa, torna-se regra espontânea de uma vida na qual cada relação deve apresentar um balanço”.8

Essas mudanças se manifestaram também no individualismo e no ceticismo diante do futuro. No rock se observa alguns elementos dessa subjetividade pessimista, como na música “Everybody Hurts”, lançada pelo R.E.M. em 1992. Na música, se fala:

Quando o dia é longo
E a noite, a noite é somente sua
Quando você tem certeza de que já se cansou
Desta vida
Bem, aguente firme

Na música sugere-se o cansaço em relação à vida. Contudo, a despeito desse sofrimento, procura-se dar um tom de que ainda é possível aguentar e seguir em frente. Em outra passagem da música fala-se assim:

Não desista de si mesmo
Porque todo mundo chora
E todo mundo sofre
Às vezes

Outra manifestação ideológica relacionada às mudanças em curso na década passa pela constituição da percepção de que o Estado não é necessário ou mesmo pode chegar a ser um inimigo da individualidade das pessoas. Percebe-se que o neoliberalismo se mostra como

“[…] um modo de intervenção social profunda nas dimensões produtoras de conflito. Pois, para que a liberdade como empreendedorismo e livre-iniciativa pudesse reinar, o Estado deveria intervir para despolitizar a sociedade, única maneira de impedir que a política intervisse na autonomia necessária da ação da economia. Ele deveria bloquear principalmente um tipo específico de conflito, a saber, aquele que coloca em questão a gramática de regulação da vida social. Isso significa, concretamente, retirar toda a pressão de instâncias, associações, instituições e sindicatos que visassem questionar tal noção de liberdade a partir da consciência da natureza fundadora da luta de classes”.9

Esse elemento aponta também para elementos da percepção política, levando o sujeito a evitar esse tipo de questão. Essa perspectiva de constituição da sociedade busca “acabar com o sujeito crítico”, dispondo de “um sujeito disponível para todas as conexões, um sujeito incerto, indefinidamente aberto aos fluxos de mercado e comunicacionais, em carência permanente de mercadorias para consumir”.10

Nesse processo, as pessoas abandonam as perspectivas políticas mais amplas, procurando se concentrar na resolução de problemas imediatos, tanto do cotidiano como da constituição de suas identidades. Com isso, as grandes narrativas de sociedade perdem espaço, enfraquecendo a ideia de totalidade, e ganha mais força a fragmentação, com sua busca pelo fortalecimento de identidades. Deixa-se de lado, dessa forma, a luta pela transformação econômica e política da sociedade, passando a buscar-se pequenas melhorias pontuais no mundo existente.

Na década de 1990 se observa de certa forma uma queda na mobilização de trabalhadores, que passam a se organizar muito mais por pautas imediatas, como salário e condições de vida. O projeto socialista, encampado pela burocracia stalinista ao longo de grande parte do século XX, teve seu desfecho com o fim da União Soviética. Com isso, depois de décadas difundido que aquela experiência teria sido o socialismo “real”, as utopias parecem entrar em crise e restam somente as promessas da nova época neoliberal, com o capitalismo se afirmando como o sistema que poderia significar o “fim da história”.

Um dos desdobramentos desse processo foi a constituição de uma perspectiva individualista, entendendo que a solução dos problemas passa por trilhar sozinho o seu caminho. Essa perspectiva individualista pode também levar à passividade, como expresso na música “Don’t Look Back In Anger”, da banda Oasis, lançada em 1995. Na letra, afirma-se:

Deslize os olhos para dentro da sua mente
Você não sabe que pode encontrar
Um lugar melhor para estar?

Na música, não se olha sequer para uma solução individual, mas fala em olhar para dentro de si e encontrar um lugar mais confortável para ficar. Essa busca por algo inexplicado no interior do ser ganha contornos ainda mais passivos, quando se fala na música: “Vou começar uma revolução da minha cama”. Essa é a passividade do neoliberalismo.

Contudo, no que se refere à política, não apenas a passividade foi cantada no rock da década de 1990. Uma das vozes a se mostrar crítica foi a banda estadunidense Rage Against the Machine. Em 1992, na música “Wake up”, a banda, conhecida por suas letras politizadas, trazia uma perspectiva que apontava no sentido da resistência. Em certo momento da letra, afirma-se:

Movimentos vem e movimentos vão
Líderes falam, movimentos terminam enquanto cabeças rolam
Porque todos os punks têm balas na cabeça
Departamentos de polícia, os juízes, os agentes federais
Redes de comunicações trabalham, mantendo as pessoas calmas
Você sabe que elas foram atrás de King, quando ele discursou no Vietnã
Ele voltou o poder para os que nada tem
E então veio o tiro

Essa passagem fala, primeiro, da dinâmica dos movimentos e organizações, em grande medida por conta da repressão a que são submetidos. Em segundo, aponta para o papel do Estado e da mídia nesse processo de desmobilização das organizações populares e de trabalhadores. E, terceiro, fazendo alusão a Martin Luther King, chama a atenção para o fato de que seu assassinato foi uma tentativa de desmobilização, em um momento no qual os trabalhadores visualizavam a possibilidade de lutar pelo poder.

Essa época por certa viu seu próprio fim, inclusive extrapolando a delimitação numérica da década. Em 2002, a banda Foo Fighters cantava na música “Times Like These”:

Em tempos assim
Você aprende a viver de novo
Em tempos assim
Você se entrega e se entrega de novo
Em tempos assim
Você aprende a amar de novo
Em tempos assim
Outra e outra vez.

Essa música pode ser entendida como uma tentativa de demonstrar esperança diante do novo ciclo que se abriu. O ano anterior ao lançamento da música foi marcado pela vitória eleitoral de George W. Bush e do avanço das lutas de resistência em diferentes partes do mundo. Em setembro de 2001, com a derrubada das Torres Gêmeas e a escalada de guerra iniciada pelos Estados Unidos, abriu-se essa nova etapa, marcando em certa medida o fim da longa década de 1990.

Essas percepções do contexto presentes em letras das músicas são expressão das mudanças que vinham ocorrendo e exemplos de como impactaram na obra de muitos artistas. Mostram tanto a esperança de melhorias como a decepção das expectativas não cumpridos, seja dos artistas, seja da sociedade. E, também, mostram que se percebeu os problemas dessa sociedade em transformação, ainda que as respostas a essas situações tenham sido em grande medida a passividade e o ceticismo.


Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.


Referências

  1. DUFOUR, Dany-Robert. A arte de reduzir as cabeças: Sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005, p. 198.
  2. HARVEY, David. Neoliberalismo: história e implicações. 5ª ed. São Paulo: Loyola, 2014, p. 12.
  3. HARVEY, David. Condição pós-moderna. 25ª ed. São Paulo: Loyola, 2014, p. 140.
  4. HARVEY, David. Condição pós-moderna. 25ª ed. São Paulo: Loyola, 2014, p. 207.
  5. ALVES, Giovanni. Trabalho e subjetividade: o metabolismo social da reestruturação produtiva do capital. São Paulo: Editora Boitempo, 2011, p. 67.
  6. ALVES, Giovanni. Trabalho e subjetividade: o metabolismo social da reestruturação produtiva do capital. São Paulo: Editora Boitempo, 2011, p. 63.
  7. SAFATLE, Vladimir. A economia é a continuação da psicologia por outros meios. In: DUNKER, C.; SILVA JÚNIOR, N.; SAFATLE, V. (orgs.). Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico. São Paulo: Editora Autêntica, 2021, p. 33.
  8. DUNKER, C. Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano. São Paulo: Ubu, 2017, p. 284.
  9. SAFATLE, Vladimir. A economia é a continuação da psicologia por outros meios. In: DUNKER, C.; SILVA JÚNIOR, N.; SAFATLE, V. (orgs.). Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico. São Paulo: Editora Autêntica, 2021, p. 25.
  10. DUFOUR, Dany-Robert. A arte de reduzir as cabeças: Sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005, p. 118.

Michel Goulart da Silva

Historiador pela UDESC. Doutor em História pela UFSC. Servidor público, atuando na reitoria do IFC, em Blumenau.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *