O que vemos depois de quebrar espelhos, ou O que se revela em O Lagosta, de Yorgos Lanthimos.

As expressões artísticas narrativas, aquelas que contam histórias, como o teatro, a literatura e o cinema, são formas bem adequadas para expressar os contextos históricos e políticos de diferentes sociedades. Em 2015, o cineasta grego Yorgos Lanthimos lançou o filme O Lagosta (The Lobster, no original), contando em seu elenco com o irlandês Colin Farrell, que interpreta David, e a inglesa Rachel Weisz, que dá vida à Garota Míope. Conhecido por suas formas narrativas e estéticas bem características, Lanthimos, com O Lagosta, levou às telas uma distopia que retrata muito dos normalizados estranhamentos de nossa realidade.

É comum que as distopias sejam ambientadas em centros urbanos complexos, que podem ser degradados e sombrios, ou sofisticados e opressores. Mas o Filme de Lanthimos segue um caminho próprio: nem a decadência urbana, nem a sofisticação opressiva. Em O Lagosta, tudo é assustadoramente familiar. Ainda que o mote do filme seja fantástico, o ambiente em que ele ocorre é um retrato do cotidiano típico da pequena burguesia ocidental. Em sua história, após ser deixado pela esposa, David é obrigado a hospedar-se no Hotel, em que as pessoas sozinhas são internadas e têm 45 dias para encontrar alguém compatível para formar um casal. Caso contrário, serão transformadas em um animal, à sua escolha – daí o título do filme. David, ao preencher a ficha de entrada, deixa registrado que, caso fracasse, gostaria de ser uma lagosta. David não chega sozinho ao Hotel: com ele está um cão, seu irmão, que fora transformado ao não encontrar ninguém quando esteve lá hospedado.

Entretanto, a lógica dessa sociedade é confrontada por um grupo de pessoas que escolheu viver de outra forma, defendendo o radical direito à solidão. A radicalidade é tamanha que qualquer forma de relacionamento entre seus integrantes é punida severamente. Não pode haver flertes, beijos, sexo, e nem mesmo danças podem ser feitas em duplas. Nem ajudas ou gestos de solidariedade são permitidos, cada indivíduo deve cavar sua própria cova e, caso perceba que a morte está perto, deve se dirigir a ela e cobrir-se com terra.

Não há no filme de Lanthimos qualquer saída dialética; não há, por exemplo, a possibilidade de superação dessa sociedade dicotômica, cindida entre um extremo de total controle social (até o nível biológico) e outro extremo de total liberdade individual, também opressiva em seu limite. Todavia, conquanto não seja um revolucionário, Lanthimos é um mordaz e irônico crítico social. Por isso, ainda que não aponte as possibilidades de superação da atual realidade, em boa parte de seus filmes, e no destaque em O Lagosta, ele opera uma crítica ao realismo capitalista em múltiplas e densas camadas. A mais evidente delas, nos parece, é a formatação das relações amorosas que não permitem áreas enevoadas, como vemos no momento em que David, realizando o check-in do Hotel, é perguntado se opta por relações hetero ou homoafetivas. Ele responde que prefere mulheres, mas, titubeante, conta que teve uma experiência homossexual na faculdade; então, inseguro, pergunta se a opção “bissexual” está disponível. A isso, a atendente lhe responde: “Não, senhor. Essa opção não está disponível desde o último verão devido a vários problemas operacionais. Terá que decidir agora se quer ser registrado como homossexual ou heterossexual”. Hesitante e resignado, ele apenas consegue dizer: “Devo ser registrado como heterossexual”. Naquele Hotel, como no mundo normatizado da sociedade burguesa, não há lugar sob os refletores para o que é considerado dúbio. Mas essa não é a única e, creio, nem a mais importante dessas camadas. Para além dela, podemos observar o absurdo das situações apresentadas pelo enredo como desvelamento dos absurdos da sociedade burguesa contemporânea, sobretudo das novas formas de fascismo e barbárie, como foram descritas por Pasolini em seu texto “O verdadeiro fascismo, portanto o verdadeiro antifascismo”, publicado no Brasil pela Editora 34, no livro Escritos Corsários. No texto, o cineasta aponta como o fascismo, no pós-segunda guerra, “não é humanisticamente retórico, é americanamente pragmático”, e, portanto, leva à “reorganização e padronização brutalmente totalitária do mundo”.

O Lagosta é preciso em retratar uma sociedade distópica com as mesmas cores e quase as mesmas dinâmicas das chamadas sociedades avançadas do capitalismo. O rosto da barbárie será, portanto, como os rostos que vemos cotidianamente nos espelhos enquanto escovamos os dentes. E isso nos coloca uma escaldante questão: a barbárie e o fascismo que tanto tememos e fazemos de tudo para combater já não seriam nosso cotidiano?

Normalizar situações, mesmo quando negativas ao extremo, é um mecanismo de sobrevivência. Por isso, talvez já estejamos mergulhados até as orelhas na barbárie fascista, mas como dessa vez ela não surgiu em caminhadas com militantes uniformizados, com capuzes nas cabeças, suásticas estampadas em braçadeiras ou queimando livros, sequer conseguimos nos dar conta disso. Desta vez, surgindo dos desvios inevitáveis da democracia liberal, não percebemos o monstro nos mastigando paulatinamente até estarmos totalmente em seu bucho. No entanto, se fizermos algum esforço de semicerrar os olhos para vermos melhor, como fazemos nós, os astigmáticos, talvez consigamos ver um tanto melhor a realidade em que vivemos. E assim, como Édipo, vendo as coisas como são, estranharíamos situações como casais pagando fortunas por bebês de borracha, a cultura do cancelamento tornando-se a principal mediação das relações públicas, a política convertida num simulacro dominado por grupos de interesses, o cristianismo invadindo cada fresta da vida popular e cientistas clamando por seus orixás. Uma corajosa caminhada noturna nas principais metrópoles do mundo burguês, como Nova Iorque, Londres ou São Paulo, por exemplo, mostra como todas se tornaram decadentes sucursais de Gotham City, com seus vilões demoníacos, mas sem qualquer justiceiro para garantir a segurança dos cidadãos.

Todavia, é a política, ou, melhor dizendo, a despolitização da política, a grande prova de que já vivemos essa distopia. No filme de Yorgos não há um Grande Irmão, uma estrutura panóptica ou uma Gestapo vigiando todas as relações entre as pessoas. Não há um poder central ou um grande ditador controlando um poderoso aparato repressivo. O que há é uma cultura, um jeito de ser, uma forma de viver no mundo com as coisas como são, sem questioná-las, como se sempre tivessem sido como são. Mesmo o grupo dissidente, buscando outras formas de convivência, acaba por instituir uma cultura anárquica e escapista, opressivamente despolitizada.

Como no filme de Lanthimos, não vivemos nos ambientes representados nas distopias clássicas, mas convivemos com pequenas distopias cotidianas. A sociedade é um mosaico que, visto a certa distância, exibe uma imagem bem formada, mas, ao ser olhado de perto, vemos que cada pedrinha dele é uma disfuncionalidade compartilhada por algum grupo que reivindica seu direito à existência e ao reconhecimento, ainda que seja o de atendimento médico à sua prole de látex ou aos discursos de supremacismo racial.

Parece haver em O Lagosta um discurso liberal recorrente antiextremismos, em que uma posição centrista seria a mais adequada, seja por seus méritos ou apenas por ser menos nociva que os extremos. Mas mesmo esse posicionamento exigiria grandes sacrifícios: nos últimos momentos da trama, o namoro entre David e a moça míope é descoberto pela liderança dos dissidentes. Como represália, a míope é obrigada a passar por uma cirurgia que repararia sua plena visão, mas que, na verdade, deveria deixá-la permanentemente cega. Depois de dias sem falar com ela, David decide que devem fugir juntos. Depois de vingar-se da líder do grupo dos dissidentes, David conduz a moça míope até a cidade. Lá, vão até um café e, já nos últimos instantes do filme, decidem que David deve furar os próprios olhos. As últimas imagens que vemos são David encostando a ponta de uma faca em sua retina enquanto a moça o aguarda numa mesa do café. Para ficarem juntos, os acontecimentos premidos por aquele contexto distópico exigem do casal um grande sacrifício: que deixem de ver as coisas como elas são e vivam ensimesmados em seu microcosmos existencial. Uma alegoria que nos diz que, para viver neste mundo, é preciso alienar-se; a alienação é o autossacrifício supremo para se viver em paz.

Como já mencionamos, Yorgos Lanthimos não é um revolucionário; portanto, sua obra não aponta uma brecha sequer de superação e nem leva as contradições retratadas em sua trama a uma situação de esgotamento total e irreversível. Por isso, quando o absurdo chega ao seu ápice, ele não desmorona, mas abre-se a outro absurdo, parindo uma nova pequena distopia que logo é normalizada e absorvida pelo cotidiano. Contudo, em defesa do niilismo de Yorgos, é preciso destacar que artistas, bons artistas como ele, não precisam ser arautos da revolução para que suas criações encontrem um bom lugar nos debates sobre a transformação social. É possível que suas obras, ainda que não sejam movidas por algum ímpeto revolucionário, retratem o que se esconde sob o manto da normalidade, explicitando, dessa forma, uma crítica necessária e jogando, no colo do público, a responsabilidade de levar suas reflexões ainda mais para a frente. Pacientemente, Lanthimos monta um espelho; aos empurrões nos coloca à sua frente e pedagogicamente crava um bastão entre nossos dedos. Só o que temos que fazer é estilhaçá-lo. Mas, fica a dúvida: teremos coragem? 

Luiz Carlos Checchia

Historiador, doutor em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades pela FFLCH/USP, dramaturgo e diretor teatral. Co-fundador e integrante da Cia Teatro dos Ventos.

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