O violento declínio de uma civilização


“Assim nasce o conservador.
Ele teme tudo que é novo e se move.
É um ser frágil, arrogante, assustado…
e violento”
Mauro Iasi

Tempos atrás, em conversa com o poeta citado na epígrafe acima, ele equacionou a mazela específica de nosso tempo. Vivemos um momento de explícito declínio civilizatório; o capital, enquanto modo de produção da vida, deixa evidente seu aspecto catastrófico; a burguesia que dirige seu movimento não cumpre qualquer papel de avanço humanitário — pelo contrário, é porta-voz do retrocesso das forças que ela mesma criou; as instituições de regulação do próprio capital (FMI, OMC, ONU) são completamente inúteis diante das atrocidades que potências mundiais realizam. No entanto, apesar da evidente derrota desse modo de produção, a saída emancipatória não aparece imediatamente. A época é vivida antes como abismo moral e intelectual, sem luz no final do túnel. Em outras palavras, o longo declínio de uma civilização não vem acompanhado diretamente da experiência de sua superação, e a realidade imediata se apresenta como poço sem fundo. É antes o cético que elabora, o cínico que fala, o hipócrita que assina e o idiota que governa1

Passada a conversa, a comoção, a lua e o conhaque, restou o amargo do diagnóstico. A coisa carecia de maior investigação. Como comprová-lo? Como achar dados e sinais concretos para capturar aspectos da experiência do declínio civilizatório? Por um lado, como brasileiros atentos às notícias, não precisamos ir muito longe; afinal, temos nosso cotidiano marcado pelo terrível: crise climática, genocídio televisionado, extermínio diário da população pobre e preta, demissões em massa feitas por algoritmos2, aumento das pessoas em situação de rua, misoginia em rede nacional, PEC da bandidagem, etc. Contudo, por outro lado, ficar restrito a esse cotidiano parece pouco para aferir a barbárie geral de um modo de produção mundial. Vai ver a coisa é nossa, e na divisão mundial uns ficam com restolho e outros com o progresso. Então, é preciso sair do Brasil para capturar a experiência do declínio civilizatório geral e limpar certos vícios da vida subjetiva na periferia do capitalismo. É preciso ir ao centro dinâmico do capital, econômico e militar: os Estados Unidos da América.

A fome

Quando algum patriota reclamar dos gastos exorbitantes com o Bolsa Família, lembre-o de que nos EUA o gasto com política de assistência social direta contra a fome custa mais de 100 bilhões de dólares por ano, enquanto no Brasil o gasto anual com o Bolsa Família não passa dos 40 bilhões de dólares. Pois é, nos Estados Unidos da América há uma política de combate à insuficiência alimentar, vulgo fome, desde 1969 — mas que remonta a políticas desse tipo iniciadas na Grande Depressão, em 1929. E hoje essa mesma política é fundamental para a alimentação de uma população empobrecida e superexplorada. Diferente do Bolsa Família, que exige do atendido contrapartidas como vacinar os filhos e colocá-los na escola, a única contrapartida do SNAP é laboral — é preciso trabalhar pelo menos 20h semanais, em qualquer emprego.

Há diferenças profundas entre o Bolsa Família e a política pública norte-americana. A primeira tem foco na distribuição direta de renda, enquanto a segunda tem foco na insuficiência alimentar e fornece ao atendido pelo programa um cartão que só pode ser utilizado para compra de comida em supermercados e feiras. É como o vale-alimentação do CLT brasileiro — e, também como o vale-alimentação, há um gigantesco mercado de venda do vale por dinheiro. Nos EUA, essa troca movimenta bilhões[i]. O valor também é muito diferente: enquanto o Bolsa Família paga em média US$ 130 por família, o SNAP paga US$ 690 por família, cinco vezes mais. Aliás, esse é um ponto importante para discutir com nosso patriota — o aumento do valor do Bolsa Família.

No seu compêndio sobre a história dessa política pública (que já foi chamada de Food Stamp, literalmente, vale-alimentação e hoje é SNAP), Christopher Bosso3 defende a importância do programa para a manutenção da ordem civilizacional nos EUA e nos conta os altos e baixos dessa história. Afinal, tanto lá como aqui, não faltam reacionários para serem contra o combate à fome ou defenderem que um povo faminto é o melhor para o desenvolvimento da civilização. E a fome assola os EUA há muito tempo — mas principalmente no século XXI, isto é, hoje em dia. As primeiras décadas do século XXI não foram décadas tranquilas para os trabalhadores dos EUA: o programa entrou em 2000 atendendo 17 milhões de pessoas e, atualmente (dados de maio de 2025), atende mais de 41 milhões — como no gráfico abaixo.

Em outras palavras, a quantidade de pessoas em situação de fome que precisaram ser atendidas mais que dobrou nos EUA nos últimos 25 anos, totalizando 21 milhões de famílias, número ligeiramente maior do que o Bolsa Família no Brasil. Ao ponto de que mesmo Donald Trump, que zomba do programa, não cogita cancelá-lo — apesar de não hesitar em colocá-lo na lista de primeiras coisas a não pagar na atual situação de shutdown,4 a batalha orçamentária com o Congresso.

Vale ainda dizer que os dados utilizados neste texto foram coletados do site oficial do governo dos EUA, o Food and Nutrition Service.5 No entanto, o acesso tem de ser feito via VPN, pois o governo Trump bloqueou o acesso a todos os dados do serviço, incluindo os anuários estatísticos, para países estrangeiros. Para quem quiser verificar os dados, posso disponibilizar os arquivos-fonte e microdados

O desespero

As políticas públicas de saúde dos EUA elaboraram o conceito de Death of Despair — em português, morte por desespero —, juntando os dados nacionais de três tipos de morte: suicídio direto, overdose e morte decorrente do álcool. O conceito6 parte da hipótese de que essas três formas de morte compartilham fatores sociais, econômicos e psicológicos comuns, particularmente o sentimento de desencanto, fracasso ou falta de futuro. E a situação é dramática. Em 2003 foram registradas 77.956 mortes por desespero; já em 2020 esse número sobe para mais de 186 mil mortes. O gráfico abaixo foi elaborado com as fontes do NCHS (National Center for Health Statistics), que tem acesso público aos seus anuários.

A questão que mais chama atenção sobre esses dados de morte por desespero, além do seu aumento gigantesco, é a própria história do conceito. Ele nasce no início do século XXI tentando entender um problema que saltou aos olhos dos estatísticos sociais: enquanto o capital, com todos os seus problemas, garantia uma melhor expectativa de vida (no Brasil e no mundo), nos EUA, para uma camada específica a expectativa de vida começou a cair — os brancos pobres. A definição precisa desse recorte é: são os brancos não hispânicos, de meia-idade, com menor escolaridade. Para esses, a mortalidade estava subindo — e isso repercutiu como um choque no entendimento das tendências de saúde populacional. Um estudo7 foi encomendado pelo Senado, especificamente pela ala republicana, e comprovou a tendência.

A conclusão é aterradora: o aumento da mortalidade entre brancos não hispânicos de meia-idade nos EUA é real, especialmente após 2010, e está bem documentado por fontes oficiais do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) e por outros estudos como o de Case & Deaton8. O aumento da mortalidade está concentrado entre pessoas com menor escolaridade, e as causas principais são suicídio, overdose e doenças relacionadas ao álcool — as chamadas mortes por desespero. Esse fenômeno rompeu a tendência histórica de queda da mortalidade e ajuda a explicar a estagnação da expectativa de vida norte-americana nos anos 2010 em diante.

A ignorância

O NAEP (National Assessment of Educational Progress) é um exame realizado pelo governo federal dos EUA para medir os níveis educacionais da população. Quando acompanhamos os dados do NAEP9 no século XXI, verificamos a implementação de uma política educacional da ignorância. Depois de décadas seguindo a ideia de que “o mercado educa melhor do que o Estado”, o resultado histórico é a queda mais profunda já registrada desde que o governo dos EUA mede alfabetização e raciocínio matemático. Em 2022, as crianças de 9 anos tiveram queda de 5 pontos em leitura e 7 pontos em matemática em apenas dois anos; os adolescentes de 13 anos, em 2023, caíram ainda mais: 4 pontos em leitura e 9 pontos em matemática. Não se trata de uma oscilação: é a maior ruptura desde 1971. O epicentro do capitalismo está, objetivamente, deseducando suas próximas gerações.

Mas o dado mais brutal não é a queda média — é a queda socialmente dirigida. Os alunos mais pobres e piores avaliados perderam cerca de 13 pontos em matemática e mais de 6 em leitura, enquanto os do topo perderam quase a metade disso. Ou seja, o capitalismo não apenas educa mal: ele educa mal de forma seletiva, rebaixando intelectual e politicamente exatamente o contingente social que fornecerá a base emocional, eleitoral e militar do atual governo. A queda é objetiva, subjetiva e cognitiva.

Quando se chega ao fim da educação básica, o retrato é devastador: no 12º ano, apenas 22% demonstram proficiência em matemática, e 35% em leitura — ou seja, a imensa maioria dos jovens estadunidenses sai da escola sem condições básicas de interpretação estruturada da realidade. E essa deterioração já ocorria antes da pandemia: entre 2009 e 2019, ou seja, não foi a COVID-19 que iniciou o desastre, foi um projeto educacional que deixou de educar crianças e jovens e passou a fabricar sujeitos ignorantes e orgulhosos de sua ignorância.

É justamente neste momento que Trump tenta desmantelar o Departamento de Educação, proibindo políticas de diversidade, equidade e inclusão, e sufocando universidades que não se alinhem à moral punitiva da “América verdadeira”. Ao atacar a educação federalizada, e anunciar publicamente que quer acabar com o Departamento de Educação, ele não combate apenas a suposta “doutrinação progressista”, ele quer destruir as únicas instituições que guardam, produzem e reproduzem conhecimento humano.

Assim, a ignorância converte-se em matéria-prima do ressentimento. O homem branco empobrecido, pouco escolarizado, sem ferramentas intelectuais para compreender a crise estrutural do capital, precisa de um culpado externo: se não pode nomear o sistema, nomeará o inimigo. Daí a substituição da crítica econômica pela histeria cultural — negros, imigrantes, mulheres, professores, artistas, cientistas. O ódio é o vocabulário político. Aí está o elo: ignorância, ressentimento, punição, violência de Estado. A base social que sustenta Trump — homens brancos não hispânicos, de baixa escolaridade, feridos pelo declínio econômico e arrastados pelo desespero — é produzida por um sistema que precisa que ela não compreenda sua própria condição.       

Um plano maior do que nós

Em sua obra mais emblemática, Isaac Asimov, através do personagem Salvor Hardin emplacou um bordão: “a violência é o último refúgio dos incompetentes”. Salvor Hardin foi o primeiro prefeito da Fundação, uma comunidade montada em um planeta na margem da galáxia, com o objetivo de salvar o conhecimento da humanidade, pois com o declínio do Império tudo seria destruído. No livro, o prefeito Hardin previa que o Império iria impor sua violência a toda a galáxia como último recurso de sua própria incompetência em resolver os problemas que ele mesmo criou. E com esse bordão angariava apoio de planetas vizinhos à distante Fundação. Hoje, o império do capital passa por problema parecido ao apontado por Asimov em sua ficção.

É evidente que o modo de produção capitalista é um dos maiores acontecimentos da história da espécie humana. Em dois séculos, avançamos quantitativa e qualitativamente o que, por centenas de milênios, seria impensável. Saímos da condição de uma espécie presa à Terra e subordinada aos desígnios das oscilações climáticas para um outro patamar dessa mesma espécie: dominamos o globo terrestre, seus recursos naturais e intempéries, e nos projetamos para habitar outros planetas. As forças produtivas alavancadas pelo capital nos permitem visualizar concretamente nosso destino — sem exageros — interplanetário. No entanto, essas mesmas relações sociais que alavancaram essa possibilidade agora são o seu maior entrave. As relações capitalistas, guiadas pela anarquia da produção privada, mercantilização da vida e exploração da força de trabalho com apropriação privada das riquezas, estão nos levando para o abismo que ameaça nosso planeta e nossa espécie. A maior potência econômica e militar produzida pelo capitalismo — os Estados Unidos da América — dá evidentes sinais de sua queda; no entanto, a ignorância de sua violência cresce de forma proporcional.

São aqueles homens brancos não hispânicos, de baixa escolaridade, pobres, mortos por desespero, que compõem a principal fatia de apoio a Donald Trump. Em 2024, 78% dos eleitores de Trump identificaram-se como brancos10 não hispânicos e, apesar de ter avançado em outras camadas em relação à sua primeira eleição em 2016, essa é ainda a faixa social que o sustenta e que se identifica com Trump.

A terrível notícia é que esse governante, eleito por essa base social ressentida e desesperada, governa o país cujos gastos militares correspondem a 78% dos gastos mundiais. Daí a frase de Salvor Hardin sair da ficção e ganhar assombrosa contemporaneidade: a violência como saída começa a dar sinais evidentes de que será um dispositivo a ser utilizado para resolver os problemas da incompetência do império. E, na verdade, isso já vem acontecendo há algumas décadas — mas agora com outra intensidade.

Pois bem, ao chegar perto do centro da civilização humana hoje, o que encontramos é fome, desespero, ressentimento e homens brancos frágeis prontos para serem violentos. Um evidente declínio da civilização. Mas, nosso problema é que o declínio desse modo de produção e de seu império é vivido como derrota da humanidade, e não como um momento a ser superado de sua história. Em outras palavras, ele é vivido sem que se apresentem diretamente no cotidiano saídas emancipatórias; ele é um fardo, um destino, um sinal de salve-se quem puder.

Mas, como diz a canção, sozinho ninguém pode se salvar. Assim como Hari Seldon e um imenso grupo de cientistas montaram a Fundação para que ela prosperasse mil anos depois, salvando o conhecimento acumulado pela humanidade contra a queda do império, nossa principal dificuldade, enquanto humanidade real nesse momento, é traçar planos de longo prazo que atravessem nossa temporalidade individual, sem titubear, e que criem pontes organizacionais emancipatórias. Uma tarefa difícil, mas não impossível, afinal há um plano e ele é de longuíssimo prazo.

O único plano, com sólida base científica e filosófica, que faz parte de uma luta secular, e que se recoloca todos os dias como necessário, é o plano que aponta para a superação do capitalismo — sem reformas —, pois elabora a superação por uma outra forma de produção social da vida, com outras relações sociais de produção engendradas dentro das próprias contradições capitalistas e que superam a exploração do trabalho e divisão social em classes antagônicas. É um plano, em uma palavra, comunista.


Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.


  1. https://blogdaboitempo.com.br/2025/08/08/o-parvo-o-pavao-e-o-ocaso-da-teoria-politica/ ↩︎
  2. https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/09/09/por-que-itau-demitiu-cerca-de-mil-funcionarios-que-trabalhavam-de-casa.ghtml ↩︎
  3. https://www.fns.usda.gov/research/snap/extent-trafficking-2015-2017 ↩︎
  4. https://www.axios.com/2025/10/10/food-stamps-trump-administration-warning-shutdown ↩︎
  5. https://www.fns.usda.gov/ ↩︎
  6. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8221228/ ↩︎
  7. https://www.jec.senate.gov/public/_cache/files/0f2d3dba-9fdc-41e5-9bd1-9c13f4204e35/jec-report-deaths-of-despair.pdf ↩︎
  8. https://www.jstor.org/stable/j.ctvpr7rb2 ↩︎
  9. https://www.nationsreportcard.gov/highlights/ltt/2023 ↩︎
  10. https://www.pewresearch.org/politics/2025/06/26/demographic-profiles-of-trump-and-harris-voters-in-2024 ↩︎

Daniel Lage

Educador popular do NEP-13 de Maio, mestre em ciência política, poeta, sambista e operário da tecnologia da informação.

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