
O rápido desgaste do novo governo encabeçado por Lula e a ausência de uma alternativa de massas à esquerda do Partido dos Trabalhadores (PT) vêm mostrando de forma cada vez mais urgente a necessidade do debate sobre alternativas organizativas para a classe. Produto de uma conjuntura bastante específica, em que os trabalhadores usaram a candidatura de Lula como ferramenta para derrotar eleitoralmente Jair Bolsonaro, desde a campanha eleitoral estava evidente que o novo governo teria um caráter de união nacional voltado à defesa dos interesses das classes dominantes.
Embora ainda votem no PT, os trabalhadores deixaram de participar de forma ativa de seus organismos, à medida que este ia se consolidando como um partido burguês de base operária, tornando-se para a classe apenas uma opção eleitoral. Por meio de ações pontuais, normalmente em resposta aos ataques da extrema direita, o governo de união nacional vai mantendo um tênue apoio a algumas de suas medidas. Nesse cenário, os trabalhadores se veem sem uma alternativa estratégica que aponte no sentido da superação da democracia burguesa. O democrático popular, estratégia de reformas no capitalismo que caracterizou a esquerda nas últimas décadas, mesmo abandonada pelo PT, ainda orienta a política das organizações dos trabalhadores.
Um projeto político que se apresentou como alternativa ao PT foi o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), mas, de um ponto de vista organizativo, limitou-se a ser um guarda-chuva eleitoral, formado por uma miscelânea de grupos que defendem versões diversas de socialismo. O PSOL, que nasceu como oposição de esquerda aos governos do PT, perdeu a maior parte de seus setores revolucionários, que romperam com o partido desde sua adesão ao projeto de união nacional em torno de Lula. O PSOL se limitou a disputar espaço dentro da institucionalidade, defendendo sua versão da estratégia democrático-popular, tendo derrotado as posições internas que apontavam no sentido da luta pela revolução.
Essa situação vivenciada pela esquerda nas últimas décadas, em que a perspectiva eleitoral e de integração às instituições burguesas preponderou em relação à estratégia socialista, coloca para os trabalhadores a necessidade não apenas de não se limitar a construir alternativas eleitorais, mas também de se reconstruir organizativa e estrategicamente. O exposto se concretiza
“[…] na luta por um partido revolucionário, pelo seu programa, estrutura organizativa e composição de classe, que supere, com a extraordinária experiência acumulada pelo movimento operário e popular brasileiro, sobretudo no último quarto de século, as limitações insolúveis que marcaram a existência do PT desde seu nascedouro, e coloque o movimento operário brasileiro num patamar de ação política e consciência de classe nunca atingidos ao longo de toda a sua história”.1
O cenário de luta dos trabalhadores mostra-se em refluxo. O processo de lutas iniciado contra o governo Bolsonaro foi desviado para o projeto eleitoral de 2022. Com isso, os trabalhadores não conseguiram constituir um processo de lutas autônomas de massas, tendo que se limitar a greves e mobilizações pontuais. Importantes processos políticos, como a campanha contra o Novo Ensino Médio, a greve das universidades federais, a luta pela redução da jornada de trabalho e as recentes mobilizações contra as ações do Congresso Nacional, deram-se, no geral, de forma incipiente e isolada, como sintoma da dificuldade de superar a influência estratégica e política do democrático-popular.
No âmbito da esquerda, além do PT e do PSOL, a outra principal organização é o PCdoB, que abandonou até mesmo seu passado reformista e fez uma aberta e completa adesão à ordem burguesa. Os demais partidos de esquerda – PSTU, PCB, UP, PCO – são pequenas agremiações com inserção social limitada. No geral, essas organizações oscilam entre o sectarismo e o oportunismo, sem conseguir se construir como alternativa de massas para os trabalhadores. Outros grupos menores, mesmo sem legenda eleitoral, também procuram intervir na luta de classes, fazendo debates organizativos e estratégicos, ainda que tenham menor espaço de diálogo entre os trabalhadores.
De um ponto de vista organizativo, não existe qualquer movimento ou frente que aglutine setores diversos da esquerda; cada partido busca construir seu próprio aparato como forma de autoconstrução. Com isso, o pequeno setor de vanguarda que participa das lutas é disputado por uma dezena de grupos, que se estapeiam em busca de militantes e se mostram incapazes de dialogar com setores mais amplos de trabalhadores e, com isso, construir alternativas que possam se enfrentar com a ordem burguesa.
Para construir uma nova direção política, seria preciso romper tanto com a perspectiva reformista, superando a estratégia democrático-popular, como com o sectarismo, em que cada pequeno grupo se considera superior politicamente aos demais. O debate aqui não perpassa necessariamente pela construção de uma legenda eleitoral para a classe trabalhadora, mas pela perspectiva de construir
“[…] uma organização política independente, se necessário ao mesmo tempo legal e secreta. O partido não é apenas o instrumento de luta, mas também o ambiente no qual eles podem elaborar e reelaborar as suas experiências reais de vida. É no partido que se socializa a experiência dos operários, enquanto classe social”.2
Esse processo passa pela construção de um partido operário independente, que expresse política e organizativamente as lutas dos trabalhadores. Sua principal tarefa seria articular os diversos setores socialistas e ampliar a inserção desses setores no interior do movimento operário. Essa foi a experiência que, mesmo com limites, levou à construção do PT no final da década de 1970. O centro desse processo, que redundou em reflexões teóricas que podem contribuir para o atual debate, passa pela articulação dos setores da esquerda – em uma frente, um movimento ou qualquer denominação que se prefira – que se constitua em “uma confluência das forças, de todas as forças que se voltam contra a ordem existente”.3
Essa articulação de setores socialistas, que teria como principal objetivo ser o embrião do partido operário independente, de início acabaria não tendo uma estratégia claramente definida, dando-se internamente uma disputa política entre diversas posições. A unidade tática entre setores tão diversos, a partir de um programa mínimo que se articulasse à luta pelo socialismo, faz-se necessária diante da ausência de “partidos socialistas fortes, que possam exercer funções agregadoras ou aglutinadoras; capazes de criar uma efervescência política e coordenar movimentos de reforma social ou revolução”.4 Esse processo se dará a partir da intervenção dos comunistas na luta concreta e na ampliação de seu diálogo com os trabalhadores.
Uma das tarefas fundamentais nesse processo de articulação dos socialistas passa pela disputa por um programa que aponte para as necessidades mais sentidas da classe, apresentando uma estratégia de transformação da realidade, e reúna os diferentes segmentos da classe trabalhadora. Essa disputa deveria se dar de forma leal e sem deixar de lado seu real objetivo. É comum que, nos diversos embates, pequenos grupos sem inserção na classe trabalhadora disputem de forma fratricida pequenas fatias da vanguarda, sendo incapazes de influir nos rumos da classe operária. Uma inserção concreta numa classe trabalhadora real é o passo mais importante para se pensar na possibilidade de constituição de uma direção revolucionária.
Uma das principais características das organizações que se reivindicam socialistas é sua fragilidade política, teórica e organizativa. Nesse sentido, a construção desse movimento ou frente socialista passa tanto por seu fortalecimento nas lutas cotidianas como pela articulação de espaços de debate e formação teórica e política. Somente assim será possível ter uma força para aglutinar e expressar os interesses dos trabalhadores. Somente assim se conseguirá ter um mínimo de consistência teórica na elaboração política.
Este movimento ou frente não teria a função de centralizar as diferentes organizações; seria possível a estas defender sua política nos espaços do movimento, discuti-las e buscar construir uma síntese. Suas divergências não deveriam ser motivo para denúncias vazias, fracionamentos, escândalos artificialmente criados, ataques pessoais, atitudes infelizmente muito ao gosto de diversos setores da esquerda. O exercício da tolerância política seria muito importante, afinal somente assim se poderia chegar a alguma síntese mínima sobre as questões políticas fundamentais.
Essa articulação de socialistas deve se colocar na oposição a qualquer governo burguês, mesmo que este seja supostamente formado por setores da esquerda, como é o caso do governo Lula. Deve ser um movimento que abarque um grande setor da esquerda classista do Brasil, que tenha uma perspectiva programática anticapitalista e anti-imperialista e de defesa do socialismo. Esse movimento precisará passar por um longo período de debates e amadurecimento, construindo-se a partir de uma intervenção comum na luta de classes.
Embora seja difícil prever os rumos que esse movimento ou frente poderia tomar, quais seus ritmos, suas perspectivas a curto e a longo prazo, deve-se entender que ele precisa ter como prioridade fundamental construir-se nas lutas dos trabalhadores, forjando a partir disso um programa de transformação social. A democracia interna do movimento daria a possibilidade do debate de posições, permitindo à base fazer experiência e superar tanto as posições conciliadoras como as sectárias. Essa questão pode ser assim descrita:
“A própria relação dos vários segmentos das classes trabalhadoras com a ordem, a transformação da ordem e a revolução social, a curto e longo prazos, envolvem questões de doutrinas, organizações, disciplinas, meios de ação, educação, agitação e propaganda que podem chocar-se entre si, com mais ou menos virulência. Tais divergências são essenciais e têm de ser debatidas francamente, dentro dos partidos, entre os partidos, com seus seguidores e com as grandes massas populares, porque elas podem constituir a germinação dos grandes processos políticos incubados nas classes trabalhadoras e nelas florescerem as manifestações incipientes da revolução dentro da ordem e da revolução contra a ordem”.5
Os revolucionários devem compreender que esse movimento ou frente não é um fim em si mesmo, estratégico, e que ele não vai se constituir em um partido revolucionário. O caráter deste movimento é apenas tático, possibilitando aos revolucionários a construção de diálogos com o melhor da vanguarda revolucionária, desmascarando a política conciliadora dos setores reformistas, debatendo e elaborando um programa de reivindicações transitórias que coloque no horizonte a transformação socialista da sociedade. Esse é um espaço privilegiado para dialogar com a base dos trabalhadores, em especial aquela que participa de forma ativa das lutas. Cabe lembrar que,
“[…] para desencadear a transição socialista é preciso que as classes trabalhadoras se tornem forças motrizes da história, conduzindo a luta de classes até o fim e até o fundo, ou seja, subvertendo as relações de dominação de classe e instalando um novo tipo de Estado democrático, voltado, a largo prazo, para a criação das condições sociais do advento do comunismo”.6
Cabe aos revolucionários a tarefa de demonstrar, de dentro do movimento ou frente, a necessidade da revolução socialista e de construção do partido operário. Isso passa por aglutinar as forças operárias, dos trabalhadores do campo e da cidade, num movimento ou frente que tenha como tarefa reunir os socialistas e debater uma estratégia de transformação social. Cabe aos revolucionários fazerem nesse espaço a disputa política e ideológica.
Tudo isso só será possível se o movimento ou frente for construído pelos trabalhadores, não devendo ser confundido com reuniões de pequenos grupos para delimitar qual posição é mais revolucionária e protagonizar cisões e mais cisões. Se não houver essa perspectiva de fazer um chamado para além da vanguarda organizada, os pequenos grupos seguirão sendo minúsculos e irrelevantes para a luta de classes. Nesse cenário, cada pequeno grupo seguiria apresentando suas posições para eles próprios, dialogando com um número ínfimo de pessoas, incapazes de construir uma direção política de massas para os trabalhadores. E, assim, a classe trabalhadora continuará sem ter uma alternativa capaz de se construir como uma direção de massas.
- COGGIOLA, Osvaldo. Governo Lula: da esperança à realidade. São Paulo: Xamã, 2004. p. 174. ↩︎
- IANNI, Octavio. Dialética e capitalismo: ensaio sobre o pensamento de Marx. Petrópolis: Vozes, 1982. p. 81-82. ↩︎
- FERNANDES, Florestan. Movimento socialista e partidos políticos. São Paulo: Hucitec, 1980. p. 7. ↩︎
- FERNANDES, Florestan. Movimento socialista e partidos políticos. São Paulo: Hucitec, 1980. p. 8. ↩︎
- FERNANDES, Florestan. A ditadura em questão. 2. ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 1982. p. 89. ↩︎
- FERNANDES, Florestan. A ditadura em questão. 2. ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 1982. p. 80. ↩︎
