
19 de outubro de 20251
Passamos por outro 12 de outubro, lembrando da invasão ao continente, em 1492, no meio da terceira onda de espoliação dos territórios2. A aceleração da exploração mineira no sul do país exige tanto instrumentos jurídicos que driblem a tramitação legal quanto a construção de uma imagem dos povos como “inimigos internos” acusados de terrorismo, criando assim condições para seu despejo. Ao mesmo tempo que se abre a porta para os grandes fundos de investimento, incluem-se nas cadeias extrativas empresas “frouxas de papéis”, cujas atividades legais são fachada para a lavagem de dinheiro do narcotráfico. Em meio a tudo isso, o lonko mapuche Facundo Jones Huala permanece em prisão preventiva sem acusação formal.
Mineração na Patagônia
Em julho deste ano, a construção do oleoduto que conecta a extração de petróleo por fracking em Vaca Muerta (província de Neuquén) com o terminal portuário em Punta Colorada (província de Rio Negro) arrecadou 2 bilhões de dólares de 5 bancos3, o que corresponde a 70% dos custos4. Porém, além do petróleo, há o gás extraído de Allen, outrora conhecido como polo de produção frutícola. E existem empreendimentos petroleiros em toda a costa atlântica.

Fonte: Florencia Barragán. Em Laguna Sirven (província de Santa Cruz) pretendem extrair urânio5. Na província de Chubut ainda se escutam os ecos do “Chubutazo” de 2021, um levante popular contra a mineração, brutalmente reprimido. Os manifestantes detidos naquela ocasião ainda sofrem perseguição. Em 2003, o movimento de vizinhos de Esquel “No a la mina” conseguiu frear a contaminação por cianureto. Porém, os fundos de investimento e o Estado insistem uma e outra vez.
Facundo Jones Huala na prisão de Rawson
Foi em Cushamen (também na província de Chubut) que os Mapuche enfrentaram nada menos que a transnacional Benetton, mais conhecida por sua confecção de roupas, porém ela detém um grande número de concessões mineiras, além de 356 mil hectares apenas em Chubut. A luta pelo território foi reprimida pela Gendarmeria, que responde ao governo nacional, durante o governo Maurício Macri, quando a atual ministra de Segurança do governo Javier Milei também tinha essa função. Em 2017, e no contexto dessa repressão, desapareceu o militante Santiago Maldonado, cujo cadáver apareceu mais de 70 dias depois. A principal liderança dessa luta, o lonko mapuche Facundo Jones Huala, cumpriu pena no Chile por defender o rio Wenuleufu de um empreendimento hidrelétrico de uma transnacional norueguesa. Voltando ao Puelmapu6, onde nascera, foi preso novamente no dia 8 de junho deste ano, desta vez pelo Estado argentino, e cumpre prisão preventiva sem acusação formal. Para iniciar a investigação, a promotoria apresenta como justificativa o poemário “Entre grades: antipoesia incendiária” (já traduzido ao português) e as falas do autor durante o lançamento, em fevereiro deste ano. O militante poeta falou da justeza da sabotagem à maquinária de destruição do extrativismo.

De 10 de outubro até ontem, 18 de outubro, Facundo Jones Huala fez greve de fome com um conjunto de reivindicações: devido processo, julgamento justo, desprocessamento dos membros da comunidade processados por conflitos territoriais, reconhecimento do conflito político, devolução do território usurpado no final do século XIX, permissão de ingresso de remédios e roupas tradicionais, transferência para a penitenciária localizada nas proximidades do domicílio familiar7. As duas últimas foram atendidas na audiência do dia 17 de outubro.
O sul do mundo: fronteira dinâmica da expoliação
O processo de concentração de terras na Patagônia não se detém. Na estepe patagônica, o hectare chegou a custar 16 dólares. Os incêndios do verão passado vêm servindo para baixar o preço da terra nas áreas de bosques. O território é cenário de uma corrida desenfreada, permitida pelo Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI), de Javier Milei, “extremamente generoso” com os fundos de investimento8. Tais fundos não querem desperdiçar as oportunidades. A OpenIA anunciou a instalação de um megacentro em Neuquén, onde teriam energia barata e acesso à água para refrigeração dos equipamentos durante o verão.
Para isso, precisam de uma nova “Campanha do Deserto”9. O presidente da Argentina não deixa de exaltar a figura do comandante de tal empreitada: Julio Argentino Roca. Não apenas os povos Mapuche e Tehuelche representam um obstáculo para esses negócios. Também os crianceiros10 não indígenas estão ameaçados pelos megaprojetos. Os governadores da região vêm coordenando com o governo nacional a repressão aos territórios com o chamado Comando Unificado, que otimiza as operações articulando todas as forças armadas do Estado que operam na região. Os povos já não são apontados como “infiéis”, como no período colonial, nem como “bárbaros”, argumento muito presente na “Campanha do Deserto” do século XIX. Agora são assinalados como “terroristas”11. Por conta disso, os que participaram de recuperações territoriais, como os integrantes do Lof Winkul Mapu, foram incluídos no Registro Público de Pessoas e Entidades vinculadas a Atos de Terrorismo e seu Financiamento12. Perderam acesso a seus depósitos bancários e a políticas sociais. Soma-se a isso a autorização por decreto do poder executivo para o ingresso de forças armadas estadunidenses em três portos navais: Mar del Plata, Puerto Belgrano e Usuahia (em Tierra del Fuego, a província mais austral da Argentina), ação chamada de “Operação Tridente”13. Já está em vigência e descumpre a própria legislação argentina, uma vez que, para autorização de tal operação, seria necessária a aprovação pelo poder legislativo. Atende ao já explicitado pela então titular do Comando Sul dos EUA, Laura Richardson, em 2023: o interesse pelos minérios da América do Sul14.
- Para ouvir enquanto pensamos nesse cenário: “Por um punhado de dólares”, de Enio Morricone: https://www.youtube.com/watch?v=yyV_eb3p3Zw ↩︎
- Ver: “Las cadenas de extracción y los pueblos preexistentes”. In: VV.AA. Nuestra América en la encrucijada: pandemia, rebeliones y estados de excepción. 1ª. ed. volumen combinado. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Herramienta; Contrahegemoníaweb; México: Incendiar el océano, 2020. Acessível em: https://www.herramienta.com.ar/files/libro-na-en-la-encrucijada-comprimido-48805.pdf ↩︎
- Ver: “Las cadenas de extracción y los pueblos preexistentes”. In: VV.AA. Nuestra América en la encrucijada: pandemia, rebeliones y estados de excepción. 1ª. ed. volumen combinado. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Herramienta; Contrahegemoníaweb; México: Incendiar el océano, 2020. Acessível em: https://www.herramienta.com.ar/files/libro-na-en-la-encrucijada-comprimido-48805.pdf ↩︎
- Citi Bank, Deutsche Bank, Itaú, JP Morgan e Santander. ↩︎
- Ver: https://www.poder360.com.br/poder-energia/oleoduto-de-vaca-muerta-recebe-us-2-bi-em-investimento-privado/ ↩︎
- Território mapuche ao leste da cordilheira dos Andes. ↩︎
- Ver: https://www.laizquierdadiario.cl/Jones-Huala-inicio-huelga-de-hambre-en-el-penal-de-Rawson ↩︎
- Ver: https://buenosairesherald.com/business/understanding-argentinas-new-large-investment-regime ↩︎
- Ver: https://huelladelsur.ar/2025/10/14/el-despojo-de-las-tierras-indigenas-en-la-acumulacion-originaria-de-las-elites-agrarias-de-argentina-y-chile/ ↩︎
- A pequena pecuária familiar. ↩︎
- Ver: https://radiokurruf.org/2025/02/19/de-indios-barbaros-a-indios-terroristas/ ↩︎
- Ver: https://repet.jus.gob.ar/ ↩︎
- Ver: https://www.bbc.com/mundo/articles/c98dr76l7mro ↩︎
- Ver: https://www.leftvoice.org/southcom-chief-aims-to-increase-imperialist-plunder-of-latin-americas-resources/#:~:text=SOUTHCOM%20Chief%20Aims%20to%20Increase,(@KawsachunNews)%20January%2021%2C%202023 ↩︎
