
Nunca antes comemos tanta pipoca
No Brasil, a produção de milho-pipoca mais que dobrou nos últimos 20 anos.
No fatídico 11 de setembro de 2025, dois bordões se encontraram em um dia histórico, o dia da condenação de Bolsonaro e dos militares que, sob sua liderança, tramaram e executaram, sem sucesso, um golpe de Estado. O primeiro bordão é do governo, e Lula, no seu terceiro mandato, pode renová-lo com tranquilidade: “nunca antes na história desse país…” se condenou ex-militares e principalmente militares da ativa por tentativa de golpe de Estado — e não foram poucas as tentativas e efetivações de golpes em nossa história. O outro bordão é da base do governo e suas organizações, as chamadas organizações da classe trabalhadora. Essas, sem qualquer papel relevante no jogo palaciano, sem lugar na mesa de decisões, ficam na sala assistindo à TV e postam em suas redes: “já comprei pipoca para ver o Bolsonaro ser preso”. O encontro dos dois bordões lacra a excitação geral com o espetáculo: já comprei pipoca para ver o que nunca antes na história do país foi visto — e as câmeras do palácio entregam tudo aos telespectadores.
A sofisticada fórmula política inaugurada no primeiro governo Lula, democracia de cooptação e o apassivamento da classe trabalhadora, também se renova a patamares superiores. A condenação de Bolsonaro e de seus comparsas militares é uma vitória grandiosa da luta de classes no Brasil, e a própria classe assiste pacificamente, de fora do jogo, sua conquista. Como se diz há décadas no movimento sindical, nossa principal luta hoje é no Judiciário. E, apesar de terreno historicamente desfavorável, lá também podemos ter vitórias, com o pesar de seus limites. Afinal, pau que dá em Chico também dá em dobro em Francisco — qualquer ação direta de movimento dos trabalhadores no Brasil há de ser punida com mais veemência e, possivelmente, utilizando-se da Lei Antiterrorista. Em outras palavras, o efeito colateral dessa conquista via Supremo Tribunal Federal é a domesticação dos movimentos e ações da classe trabalhadora cada vez mais oprimidas aos ritos democráticos burgueses.
Todavia, a película é um sucesso. Do lado de fora, com a condenação de Bolsonaro, o Brasil figura como exemplo internacional de Estado Democrático para conter e punir ações golpistas da chamada extrema direita. Do lado de dentro, a ação coordenada por Alexandre de Moraes foi paulatinamente enfraquecendo a figura de Bolsonaro, isolando os militares envolvidos, colhendo provas e expondo ao público seus vilões. O ponto alto culminou em criar uma situação favorável na opinião pública para a prisão do ex-presidente. A palavra de ordem foi punir para pacificar — aqueles que atentam contra a ordem democrática serão exemplo de fracasso e pagarão nos termos da lei. A Constituição Cidadã de 1988 parou em pé e aprendeu a atirar. Filmaço.

Quem tem medo do Mickey Mouse?
Será que alguém imagina que um cartão de crédito ou
Mickey vão mudar um julgamento no Supremo?
Flávio Dino
Michel Alcoforado defende, em seu livro “Coisa de Rico: a vida dos endinheirados no Brasil”, que para ser rico não basta ter dinheiro (essa é condição necessária, mas não suficiente). Para ser rico é preciso lançar mão de diversos símbolos sociais de diferenciação que vão desde o uso de marcas de luxo exclusivas até joguetes palacianos com nomes e valores, ou seja, símbolos e coisas que produzem o rico culturalmente.
Todo país tem os seus ricos e suas diferentes formas de fazer-se como rico; no Brasil isso passa por lidar com símbolos e comportamentos herdados da colonização: exaltar a metrópole mais do que seu próprio país é coisa de rico. Eis a origem dos patriotas que, na voz de Renan do Choque de Cultura, são patriotas pois são Estados Unidos da América. O imperialismo também produz sua própria sociabilidade.
A crise econômica de 2007 e, na sequência, a crise econômica que se deu junto à pandemia de Covid-19 polarizou de forma irreversível a geopolítica mundial. O mundo caminha a passos largos para um bloco econômico e militar liderado pelos Estados Unidos e seus aliados da OTAN de um lado, e, de outro lado, China e Rússia e suas possíveis alianças internacionais. Pouco antes da pandemia, políticas públicas nos Estados Unidos começaram a gerar inflação, um fato revelador de que o dono da moeda mundial estava perdendo seu lugar. As políticas chinesas de compra e venda utilizando trocas diretas de mercadorias ou yuan começaram a abalar o império. É nesse fogo cruzado de uma disputa imperialista que nascem os BRICS, o ódio à China nos EUA e todo tipo de confusão que pode haver entre a definição de Norte Global contra Sul Global. As identidades são fracas, fortes são os impérios.
Nesse fogo cruzado está o Brasil, maior país da América do Sul. Desde a eleição de Lula, o país retoma o protagonismo nos BRICS, sob direção de fato da China, e a presidência de Dilma Rousseff, uma das fundadoras. A acachapante eleição de Trump nos colocou diretamente na lista de desafetos do país do Norte. Eis que o tarifaço chega ao Brasil como medida de explícito constrangimento político: tanto pela relação com a China quanto pela possível condenação de Bolsonaro. A medida é capturada pelo subprotagonista auto-intitulado-exilado deputado Eduardo Bolsonaro; defende ele que as medidas são frutos de sua articulação. É curioso: um patriota ir para os EUA defender medidas contra a economia de seu próprio país para salvar seu pai da prisão — coisa de rico.
Contudo, a sociabilidade do imperialismo é mais eficiente do que imaginamos. Para além do tarifaço, uma outra medida tomada por Trump foi a condenação de Alexandre de Moraes, nos EUA, pela Lei Magnitsky. A lei surgiu em 2012, no governo Obama, feita para constranger economicamente pessoas de outros países que seriam responsáveis pelo descumprimento dos direitos humanos. O nome da lei é uma homenagem ao advogado russo Sergei Magnitsky, torturado e morto em prisão por denunciar esquemas de corrupção. Efetivamente, tem o seguinte efeito: congelar bens (contas bancárias, empresas, ativos, imóveis) que a pessoa tenha nos EUA; proibir transações financeiras com bancos dos EUA; banir a entrada no país; e expor internacionalmente o sujeito condenado. Em outras palavras, é igual ao embargo a Cuba, só que para um indivíduo e sua família.
Quando pensamos em um cidadão comum brasileiro, a aplicação da lei sobre ele não tem nenhum efeito real, fora a exposição pública. Afinal, não tem como perder o que não se tem: bens nos Estados Unidos, transações financeiras internacionais e acesso à terra do Tio Sam. No entanto, quando pensamos nos endinheirados do Brasil e de parte do mundo, essa situação se altera: ter propriedades, empresas, imóveis, contas bancárias e uma vida social nos EUA faz parte da sociabilidade imperialista. Em outras palavras, ser condenado na Lei Magnitsky é coisa de rico. Mas pega mal. A lei não abalou um fio de cabelo de Alexandre de Moraes, no entanto, outros magistrados ficaram apavorados com a possibilidade de serem atingidos.
Dentre os cinco magistrados da primeira turma, todos estavam com o passaporte para os EUA suspenso, menos Luiz Fux que, coerentemente, votou pela absolvição de Bolsonaro. A possibilidade de Luiz Fux ser embargado pelos EUA apavora a ele e sua família completamente, e não por acaso. Seu filho Rodrigo Fux é um homem de negócios, dono da Fux Advocacia, voltado apenas para empresas, e advogado que responde pela XP Investimentos, além de ser um especialista reconhecido pela Forbes, com artigos publicados em fevereiro de 2025 na endinheirada revista sobre os endinheirados. Ou seja, caso Fux mantivesse a coerência com a qual condenou os manifestantes de 8 de Janeiro, caso mantivesse a coerência que o levou a ser um dos duros juízes da lava-jato, estaria acabando com os negócios da família. Rodrigo Fux ser embargado é o fim de sua empresa, de sua representatividade dentre os ricos e de seu espaço tão arduamente conquistado entre a elite mundial. Nesse caso, o Mickey Mouse roeu a Constituição Cidadã.
Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.
