A agressão do imperialismo Yankee na Venezuela, a América Latina e o Brasil

A agressão yankee à Venezuela, com o bombardeio de Caracas e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, revela a aplicação imediata pelo governo Trump da nova política de segurança nacional dos EUA. Nesta, há a declaração explícita de que a América Latina é uma área de influência na qual os EUA não admitem a presença econômica, política e diplomática de nenhuma outra potência além deles mesmos, o que demonstra o reforço de uma orientação ainda mais intervencionista e agressiva em relação a recursos, governos e forças políticas. A nova política também apresenta uma estratégia de antecipação e aceleração do conflito geopolítico e econômico com China e Rússia, forçando seus adversários a lutarem em terrenos e circunstâncias em que ainda possuem fragilidades ou se desmoralizarem por terem que recuar e aceitar o fato consumado.

A agressão à Venezuela sintetiza as múltiplas dimensões desta estratégia, por diversas razões. Em primeiro lugar, por se tratar de um país que possui as maiores reservas de petróleo do mundo, livres da exploração sem peias das grandes petroleiras por conta da orientação anti-imperialista do governo bolivariano, e cujo controle se torna crucial na dinâmica atual do capitalismo e na disputa geoeconômica global. Esta centralidade geopolítica e econômica do petróleo evidencia que na disputa pela hegemonia mundial, que deve durar décadas, a tendência é de agravamento e aceleração do colapso ambiental, colocando em xeque a sobrevivência da humanidade não apenas por razões militares.  Em segundo lugar, porque o controle estadunidense sobre o petróleo venezuelano, objetivo principal da operação conforme admitido pelo próprio Trump, restaura o domínio econômico estadunidense sobre o país, interrompido a partir de 1999 com a revolução bolivariana, e afasta a presença chinesa e russa, principais aliados econômicos da Venezuela, responsáveis por contribuir poderosamente na recuperação econômica do país nos últimos anos e atenuar os efeitos do bloqueio imposto pelos EUA. Além disso, o fornecimento de petróleo venezuelano para os EUA reduz sua dependência, e das demais potências ocidentais, do petróleo do Oriente Médio, diminuindo os danos colaterais de um ataque em larga escala ao Irã, como o fechamento do Estreito de Ormuz. Em terceiro lugar, desde 1999 a Venezuela possui um governo de esquerda, anti-imperialista, de orientação socialista, que defende a integração latino-americana autônoma e que é aliado de China e Rússia, ou seja, o inverso do que os sucessivos governos estadunidenses, especialmente o governo de extrema direita de Trump, esperam dos países da AL. Neste sentido, para além de se constituir como mais um episódio na longa e tenebrosa lista de intervenções dos EUA na região, a agressão à Venezuela possui um caráter especial no tabuleiro geopolítico e geoeconômico mundial, representando uma virada na história recente das relações EUA/AL.

Nos anos recentes, a América Latina tem sido vítima da intervenção yankee de diversas maneiras, com golpes de Estado “a frio” (ou “à quente”, como na Bolívia), movimentos “cívicos” de desestabilização política, processos de lawfare contra adversários políticos e empresas nacionais, etc. No entanto, no governo Trump II a ofensiva assumiu novas dimensões, com intervenção direta na política interna dos países por meio de retaliações econômicas e do apoio explícito às forças de extrema direita. Como resultado, consolida-se a reversão da chamada “onda rosa” que marcou a região nas primeiras décadas do século XXI, em favor de governos conservadores, quando não abertamente neofascistas. Apesar desta ofensiva, já em curso, a agressão à Venezuela é de enorme gravidade, pois a intervenção em sua política interna atingiu níveis ainda não vistos, desde a Segunda Guerra, num país desse porte e importância política, com a ação militar direta e o sequestro de seu chefe de governo. Até o momento, a impossibilidade de uma invasão militar por terra e a continuidade do governo bolivariano indicam os limites da intervenção estadunidense e a força militar e política do regime bolivariano. No entanto, as falhas nos sistemas de defesa aérea, o “apagão” nos sistemas de energia e transportes e a própria prisão de Maduro podem indicar, mais do que problemas pontuais de segurança, contradições internas que ainda virão à luz. A hipótese de uma “transição negociada” por dentro do regime, com a Venezuela buscando explorar as rivalidades interpotências e se aproximando dos EUA, não pode ser descartada. Isto representaria uma virada significativa na trajetória da experiência bolivariana, com efeitos internos imprevisíveis, como evidencia a experiência do Haiti após a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide em 2004. Além disso, o apoio tímido de China e Rússia à Venezuela, até agora, indica que dificilmente essas potências entrarão na escalada proposta pelos EUA em favor de um aliado geograficamente distante. Talvez prefiram construir uma situação de modus vivendi por tempo indeterminado ou até terem força para um confronto mais amplo, com o reconhecimento de suas respectivas áreas de influência. Isso significa que a política estadunidense de instabilização permanente da ordem mundial e de defesa intransigente de seus interesses específicos, por meio de iniciativas cada vez mais agressivas e unilaterais para ganhar tempo e reverter a crise de sua hegemonia, deve continuar por bastante tempo. Mesmo que mude o governo de plantão. Para a América Latina, e o Brasil, este é um cenário dramático.

 A nova forma de intervenção estadunidense na América Latina expressa na agressão à Venezuela pegou o Brasil numa situação de fragilidade política, militar e diplomática. O veto à entrada da Venezuela no BRICS, em meados de 2024, não só contribuiu para debilitar economicamente o governo bolivariano e dificultar ainda mais a unidade latino-americana propalada pelo governo Lula, como também enfraqueceu sua própria crítica à ação dos EUA e a defesa da soberania dos países da região. A falta de unidade na reunião da CELAC em torno da condenação da agressão expressa essa fragilidade. Além disso, a posição brasileira é de cautela, condenando o sequestro de Maduro, mas evitando denunciar abertamente os EUA. Isso porque se imagina que o contencioso com o governo Trump aberto pelo tarifaço de 2025 está superado pela simples ação da diplomacia presidencial e pela disposição do governo brasileiro em negociar as terras raras, favorecer a entrada de data centers e facilitar a vida das big techs, entre outros itens da pauta trumpista. Desde o anúncio do tarifaço, a mobilização política em defesa da soberania nacional foi promovida por movimentos sociais, partidos de esquerda e organizações populares, enquanto o governo limitou-se à pirotecnia propagandística e à retórica do próprio Lula. Esse comportamento reverberou tanto a tradicional posição das frações burguesas no Brasil, sempre ciosas dos ganhos obtidos com a dependência associada, quanto a posição dos militares, educados, treinados e armados pelos EUA desde a Segunda Guerra e que se veem como linha auxiliar na defesa da civilização ocidental (leia-se, o capitalismo), contra o comunismo (leia-se, qualquer ação classista dos trabalhadores).

Neste cenário, a possibilidade de intervenção do governo Trump no processo político brasileiro é real, manipulando ou mesmo passando por cima da soberania popular em favor do bolsonarismo, seu aliado político e ideológico. A disposição em negociar a pauta econômica trumpista em termos favoráveis aos EUA não elimina essa possibilidade, servindo apenas para aumentar a dependência e a entrega de recursos naturais ao imperialismo yankee, além de aprofundar a reprimarização da economia brasileira e agravar o colapso ambiental. Enquanto isso, o bolsonarismo defende que o governo Trump faça com o Brasil o que fez com a Venezuela, nem mais nem menos. Assim, cabe aos trabalhadores e suas organizações políticas e sociais defender a Venezuela e todos os países latino-americanos contra a agressão estadunidense, numa grande mobilização popular, e organizar a resistência da sociedade contra a dependência e qualquer ataque ao Brasil!

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