Análise de conjuntura nacional e internacional

Artur Bispo

Introdução

O presente texto procura perscrutar as questões relacionadas às economias brasileira e norte-americana; particularmente, as manifestações fenomênicas que perpassam a economia e a política nos últimos quatro anos. A apreensão da concreção dessa conjuntura presume o entendimento do movimento abstrato do capital e suas determinações na contemporaneidade marcada pela crise estrutural e pelo processo de aprofundamento da exploração da força de trabalho.

A captura das concreções que perpassam a superfície da sociedade denota a necessidade de superar as ilusões impostas pelas formas de ser da aparência na objetividade. Esta atividade não é fácil de ser realizada, pois a imediaticidade é dominada por um conjunto de acontecimentos desarticulados e perpassados pela manipulação ideológica da burguesia. Na contraposição ao arsenal poderoso de naturalização das relações sociais que forjam a cotidianidade pelos instrumentos de dominação do capital, é necessário selecionar o que é essencial em meio ao superficial. Desse modo, a apreensão da urdidura dos fenômenos que perfazem a superfície da sociedade pode colaborar no delineamento de nossas táticas e estratégicas contra o capital em tempos de ofensiva da extrema direita contra o trabalho e os trabalhadores.

1 Conjuntura nacional

1.1 Governo Lula 3 e agronegócio

Para Armando Boito (2026), o governo Lula 3 não é neoliberal. No seu entendimento: “Essa tese, que nós consideramos equivocada, tem obtido alguma audiência e poderá prejudicar a campanha e a votação da candidatura Lula na batalha eleitoral que já se encontra em curso” (2026, p. 1)1. O nobre professor da Unicamp se assemelha as teorias terraplanistas, pois o próprio Lula afirmou no evento da Mobilização Progressista Global em Barcelona (18/04/2026):

O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam
austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema (Planalto, 2026)

Tem gente mais legalista que o rei, querendo encontrar no governo Lula o que ele mesmo nega. Ao se reconhecer como neoliberal, cai por terra o elemento fundamental que justificaria a formação de uma colisão de esquerda ou de setores de esquerda em apoio à candidatura do Lula 4. Aqueles que pretendem apoiá-lo como alternativa à extrema-direita (neofascista, neonazista etc.) devem aceitar tanto a alcunha de neoliberal quanto de defensor incondicional do capital.

A aprovação do Arcabouço fiscal, a redefinição do plano de metas na perspectiva de assegurar o superavit fiscal, a redução dos gastos com BPC e Bolsa Família, a limitação no crescimento real do salário mínimo (máximo de 2,5%a.a), reajuste das aposentarias abaixo dos salários mínimos, política de cortes dos recursos da saúde e educação, meta da inflação de 3%, taxa de juros acima do risco-país e da média das economias dependentes, acordo Mercosul União Europeia em defesa incondicional do agronegócio e prejuízo do setor industrial. Além disso, o estabelecimento de política fiscal em plena consonância com a política monetária do Banco Central e a intensificação da política de austeridade desde o final de 2024, em que acabaram as oposições entre governo e Banco Central2.

O governo Lula 3 se destaca pela defesa do agronegócio. Numa cerimônia na França, Lula (06/06/2026) afirma que o agronegócio “não é um quebra-galho”, pois “Virou o principal negócio” (2026, p. 1). Apesar do crescimento de 12,2% no primeiro trimestre deste ano, o agronegócio contribuiu apenas com 234 bilhões num PIB de 3 trilhões de reais, ou seja, representou somente 7,7% do montante. Enquanto o setor de serviço contribuiu com 1,8% trilhão e a indústria com 590 bilhões. Somente quando se insere na esfera do agronegócio determinados setores industriais (com baixa inserção tecnológica) como o extrativista e setores de serviços (transporte, pesquisa) é que chega a 23,2% do PIB nacional.

É mister destacar que os PIBs do governo Lula 3 experimentaram refluxo: 2,9% em 2023, 3,4% em 2024, 2,3% em 2025 e perspectiva de 2,2% para 2026. Entre as variáveis que impõe a sua queda se destacam a continuidade do papel dependente na economia no cenário internacional, baixa composição orgânica do capital nos diferentes setores e subsetores econômicos produtivos de mais-valor, taxas de juros elevadas para atrair capital estrangeiro meramente especulativo, centralidade da produção de commodities para exportação, aprofundamento da superexploração da força de trabalho, dependência tecnológica e científica, crise econômica mundial etc.

Além do Plano Safra, que representa mais de 500 bilhões a.a., o agronegócio contou com isenção fiscal de mais 158 bilhões. O ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou em 11 de junho de 2025, que que o setor tem crescido por ser “patrocinado pelo governo” (apud Konchinki, 2025, p. 1). O montante representa 20% do total dos 800 bilhões em renúncia para os grandes empresários e latifundiários. Merece destaque que o agronegócio pagou somente 0,0003% do total de suas exportações, ou seja, um centavo de imposto por cada 323 mil reais das commodities exportadas (Galastri, 2024).

Por fim, a generosidade ao agronegócio se estende ao sistema financeiro mediante a preservação da taxa de juros elevadas com Gabriel Galíopolo no Banco Central. Essa política tem servido para atrair capitais estrangeiros e aprofundar a dívida pública, que passou de 71,7% em dezembro de 2023 para 81,1% do PIB em maio de 2026, ou seja, passou de 6,52 trilhões de reais para 9.268 trilhões de reais.

1.2 O agronegócio e sua articulação com o capital industrial e o capital financeiro

O controle do capital financeiro sobre as empresas de insumos/equipamentos/defensivos/produtos agrícolas viabilizou uma integração gigantesca tanto no sentido do capital quanto da composição orgânica do capital. Esse processo de concentração tem assegurado a unidade de complexos diferenciados e a eliminação das fronteiras intersetoriais, garantindo a fusão dos conglomerados agropecuários, industriais, comerciais e financeiros estrangeiros com transnacionais brasileiras.

A agricultura plenamente subordinada aos imperativos do capital monopolista passou a estruturar-se sobre três pilares: a) produção de commodities; b) bolsas de mercadorias e de futuro; c) monopólios transnacionais. A associação do capital endógeno ao capital estrangeiro levou à intensificação da transformação das commodities decorrentes da produção em commodities financeiras.

O crescimento exponencial do agronegócio desde o final do século XX tem representado:

I) o aprofundamento da concentração de terras no Brasil por meio de mecanismos da espoliação e mercantilização; II) a elevação da produção agrícola destinada ao atendimento das necessidades da valorização do valor e não às necessidades humanas; III) a intensificação dos conflitos no campo e da exploração da força de trabalho, bem como a interceptação dos processos de demarcação de terras indígenas e da reforma agrária; IV) a destruição do meio ambiente, merecendo destaque a devastação da Região Amazônica mediante o desmatamento e as queimadas, para atender aos interesses dos conglomerados agropecuários, industriais, comerciais e financeiros (Oliveira, 2012).

A fusão do capital financeiro (portador de juros e fictício) com o capital agrário, por meio de joint-ventures, tem transformado radicalmente a paisagem brasileira, especialmente a Região Amazônica. As personificações do capital fictício (mercado bursátil, derivativos, fundos hedge, fundos de pensão, fundo público etc.) acentuam seu interesse pela Região Amazônica, não se limitando a recorrer aos expedientes anacrônicos da violência aberta e sem meia frases que pautavam o capital mercantil.

A aliança estabelecida com os conglomerados industriais e financeiros têm aprofundado as contradições no campo; a inserção das empresas transnacionais no campo consolidou a constituição de uma rede internacional direcionada à produção de commodities agrícolas, minerais, pecuárias e financeiras. O processo de produção de commodities ocorre mediante fusões e articulações entre a burguesia agrária e a burguesia industrial, a burguesia agrária e a

burguesia comercial, a burguesia agrária e a burguesia financeira. Muitas vezes, a burguesia agrária também pode desempenhar os papéis de burguesia comercial-financeira e industrial.

O boom das commodities (minerais, agrícolas, pecuárias e financeiras) assegurou o “milagrinho econômico” do segundo governo Lula, e a queda do valor das commodities no mercado internacional acelerou o impeachment de Dilma Rousseff. No ciclo do boom das commodities foi possível a implementação das políticas expansivas (sustentadas no consumo e nas exportações) e compensatórias (Bolsa Família, BPC etc.). O ciclo de crescimento (2003 e 2011) das commodities fez parte do ciclo expansivo da economia mundial, alavancado pelo crescimento da economia chinesa, enquanto seu refluxo esteve articulado aos efeitos da crise do capitalismo global.

O perfil do agronegócio assinala a unidade existente entre os setores que produzem valor e setores que vivem de juros. isso denota que existe uma unidade entre capital produtivo e capital improdutivo, em que ambos estão irmanados na exploração da força de trabalho e na expropriação dos recursos naturais através do rentismo-extrativismo. Esse setor se configura como o que mais se apropria do trabalho excedente.

Em pesquisa realizada pelo Ilaese (2021, p. 28), em 2020, a empresa Salobo, pertencente à Vale S.A., comparece como a campeã nacional na apropriação de tempo de trabalho excedente: os trabalhadores entregam gratuitamente sete horas e 39 minutos aos capitalistas, e trabalham para si somente 21 minutos de sua jornada de trabalho diária de oito horas, ou seja, ela exerce uma taxa de exploração de 2.232%. Essa empresa se apropriava, em 2014, de cinco horas e 54 minutos, obtendo um crescimento exponencial de mais-valor na ordem de uma hora e 45 minutos. A Salobo é seguida pela Comgás, que se apropria de sete horas e 37 minutos do trabalho gratuito de seus operários, enquanto estes trabalham para si apenas 33 minutos, ou seja, uma taxa de exploração de 2.008%. Em 2014, esta empresa se apropriava de sete horas e 21 minutos. Na listagem das 250 empresas investigadas pelo Ilaese, a Altona comparece em último lugar com uma taxa de mais-valor apropriado de 86%, ou seja, numa jornada de oito horas, os trabalhadores entregam para os capitalistas três horas e 42 minutos, e trabalham para reproduzir sua existência pelo tempo de quatro horas e 18 minutos.

O salário dos trabalhadores despenca em todos os setores da economia. Na Petrobrás, por exemplo, passou de US$ 98,5 mil em 2011 para US$ 61,9 mil em 2020, ou seja, teve uma queda de 67% na década passada. Os salários dos trabalhadores da Petrobrás representam somente 5,66% da arrecadação geral da empresa; assim, 94,4% do faturamento da empresa vai parar nas mãos dos acionistas e das distintas personificações do capital.

1.3 O aumento das privatizações no governo Lula 3

Assim como o governo FHC utilizou o BNDES para privatizar os setores siderúrgico, químico/petroquímico, aeronáutico, de telecomunicações e de energia elétrica, o governo Lula 3 tem operacionalizado as maiores privatizações (PPPs) nos setores de saneamento, presídios, rodovias, transportes. O BNDES participou da privatização de empresas de saneamento como Compesa em Pernambuco, Agespisa no Piauí, Embasa na Bahia, Sabesp em São Paulo, Copasa em Minas Gerais, Manaus Saneamento-AM, Águas do Rio-RJ. Enganam-se quem considera que o banco está exclusivamente direcionado à implementação de um projeto nacional desenvolvimentista na perspectiva de transformar as empresas brasileiras em transnacionais, o referido banco tem viabilizado processos de privatizações envolvendo grandes corporações estrangeiros, em que os interesses do grande capital se constituem com a questão essencial.

Entre 2023 e 2026, o governo Lula 3 representa um terço (31%) dos leilões federais de rodovias, portos e aeroportos da série iniciada em 1995. Foram 50 leilões realizados, superando os governos Bolsonaro e FHC. Para o ministro dos Transportes, Renan Filho: “O presidente Lula, apesar de ser pessoalmente de esquerda, faz um governo de frente ampla. Ele nunca foi um político ideológico” (ABDIB, 2026, p. 1). No entanto, o próprio Lula afirmou nunca conversa

informal com a diretora do FMI Kristalina Georgieva e o chanceler alemão Friedrich Merz, em 17 de junho de 2026, que nunca foi “esquerdista”. Novamente tem gente que acha que Lula é de esquerda e acaba entrando em contradição com as afirmações categóricas do próprio presidente da república.

A atuação do BNDES no processo de privatização desmascara por completo os discursos daqueles que tentam afirmar uma oposição entre os interesses da burguesia brasileira e da burguesia estrangeira, entre capital brasileiro e capital estrangeiro. O governo não representa os interesses de frações especificas da burguesia (industrial, financeira e agrária), ele atua em defesa do capital.

1.4  Governo Lula 3 e reforma agrária

O governo Lula 3 tem evitado o termo “reforma agrária” e seu tratamento tem sido semelhante aos governos anteriores. Segundo Camargos (2026, p. 1), entre 2023 e 2025 o governo petista desapropriou somente 13,3 mil hectares de terra, perdendo para o governo Temer, que desapropriou 14,3 mil hectares, entre 2017 e 2018. O governo afirma que assentou 71 mil famílias em 2024, enquanto o MST sustenta que disponibilizou somente 5.800 lotes, a maioria resultante do processo de regularização de famílias já em ocupação.

Através do Programa “Terra da Gente”, o governo tenta adotar uma forma de distribuição de terras pela mediação da compra; nesse formato, foram adquiridos 577,6 mil hectares de terra para reforma agrária. A proposta é fazer reforma agrária sem conflito com o agronegócio, priorizando o procedimento administrativo ao invés da desapropriação. Para evitar a desapropriação, os latifundiários têm muitos mecanismos de defesa. No entanto, ela não deixa de estar articulada à lógica do mercado, pois envolve o pagamento ao proprietário.

A prioridade do governo Lula tem sido o agronegócio e nenhuma barreira foi estabelecida para impedir as ocupações indiscriminadas das terras públicas e devolutas mediante a grilagem de terras. O pacto com o agronegócio implica na negação da desapropriação de terras para reforma agrária, de lado, silenciamento absoluto em relação às ocupações de milhões de terras públicas e devolutas pelos latifundiários, do outro.

O referido governo manteve o programa “Titula Brasil” do governo anterior, que se constituiu como a maior ofensiva de grilagem de terras desde a ditadura empresarial-militar de 196433. Para garantir sua eficácia, o programa contou com o desmonte dos órgãos de controle ambiental e fundiário do governo federal, como o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Como o terceiro governo flerta com o agronegócio e constitui-se como uma espécie de garoto-propaganda no mercado mundial, as medidas contrárias à grilagem de terras desaparecem.

1.5 O governo Lula 3 e o fiasco do pleno emprego em 2026

Os apologistas do governo comemoram a queda dos percentuais de desemprego, os dados divulgados pelo IBGE de Márcio Pochmann (em 30 de abril de 2026) apontam que somente 7% dos trabalhadores (as) brasileiros (as) estão desocupados. Entretanto, os dados alardeados escondem a verdadeira anatomia das condições do trabalho no Brasil, em que o próprio IBGE aponta que 38% dos trabalhadores (as) brasileiros (as) estavam lançados na informalidade no final de março de 2026.

Além da informalidade, existem os trabalhadores subocupados que são inseridos nas estatísticas de ocupados. No país, são 15,9% dos trabalhadores nessa situação e 2,8% desalentados. Entre os trabalhadores informais, merece destaque os trabalhadores de aplicativos de entrega com jornadas que chegam a mais de 60h semanais. O quadro da força de trabalho é tão deteriorante que foram registrados 470 mil afastamentos relacionados a transtornos mentais (depressão e ansiedade) no trabalho (Konchinki, 2026).

Os dados que poderiam aproximar-se do pleno emprego esconde como as condições de trabalho na atualidade estão aquém dos períodos em que as taxas de desemprego eram mais elevadas como nas fases que precederam às contrarreformas trabalhistas e previdenciárias. Além disso, a inflação tem incidindo especialmente sobre os produtos de primeira necessidade e rebaixa as condições de vida da classe trabalhadora. A cesta básica teve uma elevação de 8,69% nos últimos doze meses perante uma inflação de 4,64%. O valor da cesta básica (13 itens) se aproxima de mil reais em cidades como São Paulo (965,47 reais), Cuiabá (937,93 reais), Rio de Janeiro (920,94 reais) e Florianópolis (918,42), representando 68% do salário mínimo em São Paulo e está muito longe de garantir a reprodução da força de trabalho de uma pessoa.

A queda da taxa de desocupação não é sinal de recuperação econômica. A elevação da taxa de desocupação se sucede no contexto do pior desempenho econômico do terceiro mandato de Lula. O debacle não foi maior devido aos estímulos oferecidos pelo governo mediante linhas de crédito para empresas prejudicas pela guerra e pelos pacotes de Trump, desoneração fiscal para distintos setores empresariais, plano Safra para o agronegócio, programas de incentivo ao consumo popular (crédito para motoristas de aplicativos, crédito consignado para trabalhadores da CLT, ampliação do Minha Casa, Minha Vida etc.) etc.

Isso indica que as medidas adotadas para recuperar a economia brasileira estão distantes de representar uma estabilização, a economia continua na mesma situação vivenciada na década passada. A média de crescimento do PIB do governo Lula está em 2% e os níveis de investimentos entre março de 2025 e março de 2026 não passou de 0,4% (Elias, 2026). A economia continua estagnada e deve se refletir na intensificação das lutas de classe e na necessidade de aprofundar os ataques aos direitos dos trabalhadores.

1.6 O Caso Master e a expropriação da classe trabalhadora

A metamorfose do Banco Máxima em Banco Master aconteceu em 2021, sob o controle societário de Daniel Vorcaro. Entre 2021 e 2025, os depósitos a prazo aumentaram sete vezes. Um crescimento superior aos concorrentes e aos bancos tradicionais. A referida instituição operava com baixíssima liquidez quando comparado com as outras instituições. Entre seus ativos financeiros, havia predominância de ativos relacionados aos títulos e valores imobiliários, bem como direitos creditórios e precatórios. O montante de ativos dessa natureza representava 8,7 bilhões de reais em dezembro de 2024. Além disso, notava-se elevada composição de fundos de investimento (31,04%), representando 19,5 bilhões de reais. O montante que representou um crescimento de 70% em relação ao ano precedente.

Os indicativos de fragilidade do sistema se revelaram no decorrer de 2025 (março e novembro) na tentativa de transferência, primeiro, para o Banco de Brasília (BRB) e, posteriormente, para a holding Grupo Fictor. O fracasso das tentativas é sucedido pela prisão de

seu principal acionista, Daniel Varcaro na Operação Compliance Zero. As investigações apontaram para a existência de fraudes associados à criação de carteiras fictícias e à valorização artificial de operações (DIEESE, 2026, p. 9). O Banco Master vendeu 13,3 bilhões de reais em carteiras de crédito sem lastro para o Banco de Brasília (BRB) entre 2024 e 2025. Havia uma troca das carteiras entre essas instituições fazendo com que o Banco Master se apoderasse de 25% das ações do BRB, promovendo um rombo de 8 bilhões de reais no Banco de Brasília.

A liquidação do Master rebate imediatamente sobre 1.520 trabalhadores contratados que ficaram desempregados. Além dos trabalhadores pertencentes a referida instituição financeira e suas asseclas (Wiil Financeira, Letsbamk e Banco Pleno), a liquidez afetou aproximadamente 633.517 trabalhadores ativos, aposentados e pensionistas que tiveram seus fundos de previdência aplicados em letras financeiras.

Nessa situação se encontram 19 regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) estaduais e municipais. Somente no Estado do Rio de Janeiro, são 418.262 mil servidores públicos afetados, sendo seguido pelo Estado do Amazonas com 103.757 servidores envolvidos no processo (DIEESE, 2026). Segundo o Dieese (2026, p. 17): “perdas associadas a essas aplicações podem afetar a rentabilidade das reservas previdenciárias, reduzir o patrimônio dos fundos de pensão, implicar em déficit previdenciário ou agravamento dele e, principalmente, afetar a capacidade de pagamento dos benefícios atuais e futuros de servidores públicos e familiares”. Essas formas de investimentos não têm cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) – que é uma instituição privada constituída com recursos captados pelos bancos através dos depósitos em conta corrente, poupança, CDB-RDB-LCI-LCD-LC dos seus clientes.

O rombo provocado no Banco de Brasília pode rebater sobre outros fundos de previdência estaduais e municipais, em que foram investidos 9 bilhões em letras financeiras do BRB. Além do rombo envolvendo Master e BRB, existe os rombos promovidos pelas Fintechs (contração e financial technology) e startups (bancos digitais, instituições de pagamentos, gestoras de recursos e fornecedores de crédito). No Brasil, são mais de 400 Fintechs que operam com total liberdade no mercado financeiro. Essas empresas geralmente operam na forma de pirâmides, em que os rendimentos aos antigos investidores são garantidos pelo ingresso de recursos dos novos clientes, operando efetivamente sem a produção de nenhuma riqueza real. Pela mediação de plataformas digitais cresce a lavagem de dinheiro, fraudes financeiras, expropriação de depósitos realizados em empresas que não oferecem a menor segurança aos seus clientes. O recente colapso da Naskar Gestão de Ativos (maio de 2026) serve para revelar o castelo de areia das Fintechs.

Por fim, merece destaque o crescimento exponencial das apostas online, dados do Banco Central, em agosto de 2024, apontam que 5 milhões de pessoas pertencentes ao Programa Bolsa Família (PBF) enviaram R$ 3 bilhões às empresas de aposta utilizando a plataforma Pix. São mais de 24 milhões de pessoas participando dos distintos jogos de azar e apostas, em que somente as Bets movimentaram 143,8 bilhões entre 2023 e 2026, passando de uma movimentação mensal de 4 bilhões para 30 bilhões. Nesse contexto, mais de 40% dos apostadores estão afundados em dívidas e acham que as apostas se constituem como uma alternativa.

1.7 O PSOL como sucursal do lulismo

O partido emanado do combate à contrarreforma da previdência de 2003, resolveu participar efetivamente do governo Lula 3, assumindo ministérios e constituindo parte da bancada do governo no Congresso. Ao fazer parte do governo, passa a apoiar o Arcabouço Fiscal,

as privatizações do governo Lula, as contrarreformas etc. Os esquerdistas do PSOL vão fazer campanha para um governo que aplicou as políticas neoliberais contra os trabalhadores dos governos anteriores. Desse modo, o PSOL passa a constituir palanque com Fernando Haddad (Arcabouço Fiscal), Márcio França (Privatizações junto a Tarcísio de Freitas), Simone Tebet (articuladora da contrarreforma da Previdência), Marina Silva (defensora da reforma da previdência em São Paulo). Em Alagoas, estará junto com Arthur Lyra, JHC, Renan Calheiros etc.

Não é à toa que Guilherme Boulos, secretário geral da Presidência da República, atuou de forma sistemática na defesa da privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins-Araguaia e somente recuou depois que 1,2 mil indígenas (povos Kumaruara, Tupinambá, Arapiun e Munduruku) do Baixo e Médio Tapajós ocuparam a Cargill no Porto de Santarém por mais de um mês. O decreto 12.600/25 pretendia repassar para conglomerados empresariais o tráfego, aprofundamento, dragagem e manutenção dos rios Tapajós, Madeira, Tocantins-Araguaia. Ele é expressão do acordo estabelecido entre governo e agronegócio, governo e capital estrangeiro. A aliança do PSOL com governo que aprovou a exploração de petróleo na bacia da foz do Amazonas deve servir para embalar o sonho de que Guilherme Boulos poderá representar a captura dos espólios do lulismo pela sua articulação com os movimentos sociais.

2. Conjuntura internacional:

A necessidade de procurar alternativas à crise do sistema do capital tornou-se cada vez mais visível depois da crise de 2008, em que os distintos mecanismos adotados na perspectiva de deslocar a crise do capital para o trabalho estão longe de atenuar o movimento descendente da economia mundial e, particularmente, o descenso da economia norte-americana perante a economia global.

2.1 Corolário Trump: Tomo de Ouro e Guerra contra o Irã

Inspirado no modelo defensivo israelense, o projeto norte-americano pretende colocar armas de destruição em massa no espaço. O tamanho do novo sistema defensivo será 450 vezes maior que o israelense. O sistema é projetado como uma combinação de satélites, sensores e radares de segurança, formando um escudo antimísseis balísticos intercontinentais, hipersônicos e de cruzeiro. Um sistema de defesa (terra, mar e espaço aéreo) altamente sofisticado para atacar e destruir misseis nos distintos estágios de lançamento com bases nos EUA e ainda na Groelândia, Alasca, Havai etc. Os custos dos componentes espaciais do Domo de Ouro podem chegar a 831 bilhões de dólares. A execução do projeto pode ficar sob a responsabilidade de transnacionais como Lockheed Martin, a L3Harris Technologies, a RTX Corp e a SpaceX, de Elon Musk (Gonçalves, 2025).

A República Islâmica constitui-se como contraposição aos interesses norte-americanos no Oriente Médio desde 1979, procurando resistir aos ataques e sanções de estrangulamento de sua economia, de sabotagem, embarco e isolamento, de pressão política e diplomática. Enquanto a guerra dos EUA e Israel contra o Irã representa uma tentativa de neutralizar o potencial iraniano na região, o regime político de Teerã tem na guerra uma luta de resistência para continuar sobrevivendo.

Essa guerra não tem como imperativo a necessidade de destruir ou abortar o programa de enriquecimento de urânio, mas de acabar com o papel que o Irã desempenha no Oriente Médio. Não somente de possuir as reservas mais expressivas de petróleo e gás na contemporaneidade, mas pela localização estrategicamente que a erige à condição de potência energética nos circuitos globais.

O controle do Golfo Pérsico se constitui como elemento estratégico fundamental na determinação dos fluxos de mercadorias e preços do petróleo e gás natural. A existência de uma economia não alinhada no Oriente Médio constituiu-se como séria ameaça aos interesses norte-americanos e israelense perante as projeções econômicas dos chineses e militares dos russos.

A guerra imperialista contra o Irã tem como imperativo redimensionar o controle da arquitetônica energética da Europa, da Ásia e do Oriente Médio. Ela revela que o Irã se constitui como uma das poucas potências regionais com capacidade de enfrentar o poderio bélico de Tel-Aviv e Washington. A derrubada do governo existente em Teerã reduziria a profundidade estratégica de Rússia e China, dificultaria a consolidação de corredores alternativos de integração eurasiática e enfraqueceria a possibilidade de o Irã servir como elo entre projetos russos, chineses e atores regionais dissidentes. Além disso, reduziria drasticamente a capacidade de articulação de redes e milícias alinhadas a Teerã em diferentes pontos do Oriente Médio (Líbano, na Síria, no Iraque).

A necessidade da guerra total contra o território iraniano é ainda mais premente para Israel, pelo papel desempenhado na região em termos econômicos, políticos, militares e ideológicos. Essas qualidades fazem com que o Irã tenha capacidade de abastecer e fortalecer os movimentos de resistência regionais em luta contra Israel. Enfraquecer Teerã, portanto, é enfraquecer esse sistema como um todo. Por isso, o interesse israelense vai além da simples contenção de força como proposto pelos EUA. Ele envolve o enfraquecimento profundo do poder político iraniano e, se possível, a transformação estrutural do espaço como fez destruindo a Faixa de Gaza.

Os acordos de paz estabelecidos são momentâneos e pretendem minimizar a queda de popularidade do governo Trump nas eleições de meio mandato nos EUA em novembro de 2026. E a guerra do Irã deve se fundir com a guerra da Ucrânia, envolvendo completamente a Europa a partir de 2029 – tempo que a Europa precisa para renovar seu complexo industrial-militar e adotar posição mais protagonista na Otan.

2.2 Corolário Trump: Doutrina Donroe e Escudo das Américas

No final de 2025, o governo norte-americano publicou um documento denominado Nova Estratégia de Segurança Nacional, em que uma parte de sua estratégia expansionista se configura na atualização da Doutrina Monroe através do denominam de “Doutrina Donroe”,

Não se trata somente de um mecanismo de intercepção da influência chinesa e russa na América Latina ou de uma disputa geopolítica, trata-se do aprofundamento da luta de classes. Uma vez que a disputa pelos recursos naturais na América Latina, o controle de terras raras e acesso a determinadas rotas comerciais, fazem parte da nova divisão internacional do trabalho num contexto de crise estrutural do capital.

Os Estados Unidos precisam reconfigurar sua política externa de dominação do mercado mundial depois do colapso das experiências pós-capitalistas e perante a ascendência da economia chinesa. A necessidade de priorizar seus interesses perante os interesses de seus parceiros comerciais, eles não podem admitir nenhuma quebra de obediência; por isso, propõe a negociação em separado como exposto pelo Acordo de Mar-a-Lago.

A doutrina Donroe seria uma forma de interceptar as ameaças que rondam ao imperialismo norte-americano, adotando políticas de compensação aos aliados ideológicos do governo Donald Trump. Essa política de recompensa se expressou no resgate de 20 bilhões de dólares para o governo Javier Milei na Argentina e nos acordos estabelecidos com os governos do Equador, El Salvador e Guatemala.

E para combater as ameaças perigosas representadas pela extrema esquerda, o secretário Marco Rubio convidou 60 países. A proposta visa constituir estratégias e compartilhamento de inteligência articuladas internacionalmente para combater o “terrorismo político”.

O “Escudo das Américas” tem como propósito combater os carteis de drogas e afastar as influencias estrangeiras na América. Fazem parte do projeto os governos da Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Panamá, Honduras, Guiana, Bolívia, Trinidad e Tobago, Costa Rica, República Dominicana e Chile.

2.3 Corolário Trump: Acordo de Mar-a-Lago

O capital tenta deslocar suas contradições cavando cada vez buracos maiores para preencher os buracos anteriormente constituídos. Como uma espécie de paciente terminal, a economia norte-americana agoniza na perspectiva de encontrar formas alternativas para conter a crise promovida pela hipertrofia das finanças que foi colocada em curso com o fim do Acordo de Bretton Woods por Richard Nixon, entre 1971-1972, com a constituição de um novo Acordo internacional. Este novo acordo, que pode ser multilateral ou unilateral, é denominado por Stephan Mirian, presidente do Conselho de Assessores Econômicos do governo Donald Trump, como “Acordo de Mar-a-Lago”.

Em seu “Guia para reestruturar o sistema de comércio global”, Stephan Mirian (2024, p. 25) esclarece:

Como os acordos monetários geralmente recebem o nome de lugares onde são negociados, como Bretton Woods e Plaza, descreverei o possível acordo do governo Trump com alguma licença poética, como outros fizeram, como os futuros “acordos” de Mar-a-Lago.

No referido guia, o autor salienta que pretende analisar: 1) As causas dos desequilíbrios econômicos dos Estados Unidos; 2) como a elevação das tarifas podem remediar esses desequilíbrios; 3) Analisa as abordagens baseadas na moeda; 4) As consequências das tarifas para o mercado.

O assessor de Trump salienta algumas “ferramentas” que poderiam ajudar a reformar o sistema na perspectiva de superar os desequilíbrios internacionais que promovem a sobrevalorização do dólar como moeda de reserva internacional desde a década de 1980 e que tornam “oneroso para os Estados Unidos financiar tanto a oferta desses ativos quanto o guarda-chuva de defesa, sendo os setores manufatureiro e de bens comercializáveis os mais afetados pelos custos” (Mirian, 2024, p. 1).

Para alcançar este propósito, Mirian (2024) defende que o ajuste das tarifas serve para gerar receita se for compensada por ajustes cambiais e articulada com a segurança nacional dos Estados Unidos, os ajustes cambiais podem representar excelente capacidade para corrigir os

fluxos comerciais internacionais e eles podem ser aplicados de forma multilateral ou unilateralmente.

É fundamental operacionalizar uma reforma expressiva nos sistemas financeiros e comerciais internacionais para reverter o movimento descendente da economia norte-americana e transferir grande parte de seu déficit especialmente para economias que têm obtidos superávits comerciais nas relações com Estados Unidos. Desse modo, a elevação das tarifas deve estar articulada à segurança nacional e ao comércio internacional. Essa elevação aconteceu entre 2018 e 2019, em que o dólar se valorizou tanto quanto as taxas tarifárias gerando receita expressiva para os Estados Unidos que passou de 21% para 25% do PIB mundial. A aplicação da política de elevação das tarifas deve ser concomitante à desvalorização do dólar.

O controle do dólar permite que os Estados Unidos exerçam um poderio incontestável no mercado internacional; no entanto, isso deve ser preservado sem obstaculizar seu desenvolvimento industrial e suas cadeias produtivas. O problema é como os Estados Unidos podem continuar mantendo a predominância do dólar no mercado mundial e reativar seu complexo industrial.

A impossibilidade de estabelecer qualquer espécie de restrição e controle ao capital fictício e especulativo impõe a necessidade de deslocar as contradições internas para a esfera internacional. E o imperialismo do dólar permite que os Estados Unidos possam transferir grande parte de sua crise para o mercado exterior; especialmente para as economias dependentes que não têm tanto poder de negociação ou resistências aos enclaves unilaterais estadunidenses. Stephan Mirian (2024) defende a divisão dos encargos com os parceiros norte-americanos nas questões comerciais e de segurança, ou seja, os Estados Unidos podem oferecer alguns benefícios aqueles países que aceitarem as políticas propostas do possível “Acordo de Mar-a-Lago”.

Os Estados Unidos não podem abrir mão do dólar como moeda de reserva e meio de transação internacional porque isso se constitui com uma enorme vantagem, pois permite financiar gastos no mercado endógeno e exógeno. A sua sobrevalorização permite que os dólares usados nas negociações internacionais retornem para o Banco Federal de Estados Unidos (FED) na forma de dívida pública, que representa 124% do PIB.

Na verdade, aquilo que aparece como negatividade no ensaio de Stephan Mirian não passa de uma positividade, pois a única coisa que os países superavitários recebem dos Estados Unidos não passam de dólares que são transformados em papéis. Se isso não acontecesse não teriam as mercadorias que precisam para assegurar a preservação da economia mais consumidora do mundo e que não pode servir de modelo para a economia mundial. Enquanto os países como a China produzem mercadorias mediante a exploração do trabalho no contexto de uma acirrada competição pela elevação da composição orgânica do capital, os Estados Unidos simplesmente se locupletam no consumo da produção internacional fundamentada na proporcionalidade exacerbada de moeda fiduciária, de papéis e títulos que estão impossibilitados de dinamizar a produção.

O próprio Stephan Mirian reconhece que as tarifas como forma de constituição de uma nova política cambial podem representar o aprofundamento da crise financeira, pois não existe garantias de que o caminho adotado funcione, que a elevação das tarifas obrigue a maioria dos países no estabelecimento do referido Acordo de Mar-a-Lago. É provável que isso aconteça de maneira mais expressiva com aquelas economias que transita no círculo mais íntimo de influência norte-americana como México e Canadá.

O desenvolvimento manufatureiro da China preocupa os Estados Unidos pelo nível de autonomia que está assumindo em termos de desenvolvimento tecnológico aplicado à produção. Desse modo, os Estados Unidos devem estabelecer barreiras comerciais que interceptem as economias superavitárias de adquirir seus ativos. Além das tarifas seriam necessários controlar as compras de ativos em dólares pelos chineses.

A resposta para o superávit promovido pela manufatura chinesa seria o calote mediante o enfraquecimento do dólar e eliminação dos ativos chineses aplicados em títulos do tesouro norte-americanos. E o calote se generalizaria, pois se estenderia aos países que aceitarem o Acordo, pois teriam que aplicar seu excedente em dólares em ativos de 100 anos, ou seja, em títulos que transcendem os fundos de pensão (60 anos).

É provável que os países detentores de dólares como China, Japão e Europa buscarão ativos numa outra moeda. A corrida pelo ouro indica que as moedas alternativas não parecem uma aposta segura, uma vez que todas as economias preferem manter suas moedas desvalorizadas para competir melhor no mercado internacional (Roberts, 2025). Michael Roberts (2025, p. 9) entende quem vai acabar com “o déficit comercial dos EUA não são as tarifas sobre as importações dos EUA ou o controle do investimento estrangeiro nos EUA, mas uma recessão”.

Concluindo

A guerra tarifária criada por Trump, a política intervencionista dos Estados Unidos sobre a América Latina com o Escudo das Américas e a ofensiva EUA/Israel contra o Irã agravam o quadro de instabilidade da economia mundial. Ao invés de conter a expansão da dívida (atualmente representa 120% do PIB, ou seja, mais de 30 trilhões de dólares. As medidas adotadas pelo governo Trump implicam numa ampliação da escalada com gastos militares que pode agravar ainda mais a situação. Observa-se uma tendência dos países (Polônia, China, República Checa etc.) de compor suas reservas em ouro ao invés do dólar. Em 1999, ano do lançamento do euro, o dólar representava 71% das reservas, contra apenas 56% em 2025. Os investidores privados (fundos de pensão e de investimento) têm buscado ativos alternativos, como títulos e ações de países emergentes. No primeiro semestre de 2026, houve um boom nas bolsas de valores mundo afora e uma desvalorização do dólar no mercado mundial. É provável que haja uma elevação da taxa de juros de forma análoga aos anos que sucederam a crise financeira de 2008. (Abnee, 2026).

Na perspectiva de conciliar com o governo Trump e alcançar tarifas mais comedidas, o governo Lula 3 colaborou na política norte-americana de isolamento e bloqueio da Venezuela – posição que acabou contribuindo para o sequestro de Nicolas Maduro e estabelecimento de uma política de espoliação de petróleo venezuelano, em que já foram sequestrados 13 bilhões de dólares nos últimos seis meses.

A crise econômica vai derrubando as máscaras das políticas de conciliação de classe e demostrando que os governos da burguesia (direita, extrema direita e esquerda) têm que avançar ainda mais sobre os direitos dos trabalhadores em todas as partes do mundo. Apesar de adotar discursos diferenciados, os governos Trump e Lula estão articulados na perspectiva de assegurar os interesses do grande capital. No caso norte-americano, tenta-se socializar sua crise especialmente com as economias dependentes. No caso brasileiro, busca-se continuar avançando sobre a Amazônia e sobre a superexploração da força de trabalho.

Nesse ciclo temporal, merece destaque as manifestações contra a guerra do Irã e contra a política de imigração do governo Trump nos Estados Unidos, em que mais de 10 milhões de

pessoas foram as ruas para protestar. Enquanto o governo Trump despenca em popularidade, mas mantém total controle do Partido Republicano, o Partido Democrata está preocupado em obstruir o avanço da esquerda em suas bases através do grupo Socialistas Democráticos da América (DAS), que alcançou vitória nas primárias realizadas no Colorado e Washington. O crescimento dessas forças de esquerda nos Estados Unidos estão longe de representar uma alternativa revolucionária no coração da maior economia mundial. Mesmo assim, não deixa de preocupar o governo Trump a possibilidade de crescimento da extrema esquerda em escala mundial; por isso, a necessidade de constituição de uma organização de extrema direita internacional para caçar comunistas.

O crescimento da extrema direita na América Latina e Caribe (Argentina, Chile, Equador, Bolívia, Peru, Colômbia, Paraguai, El Salvador, República Dominicana etc.) é expressão da crise estrutural do capital e tem como imperativo fundamental deslocar momentaneamente as contradições do sistema mediante o aprofundamento da apropriação do mais-valor e das espoliações. Trata-se de um fenômeno que os revolucionários precisam enfrentar com determinação, pois essas modalidades de representação política servem para revelar sem meia frases a ditadura do capital contra o trabalho. Não existe possibilidade de conciliação do capital com o trabalho, o tempo de concessões não são mais possíveis.

O cenário nacional e internacional de crise aponta para a urgência da intervenção consciente e organizada dos revolucionários na perspectiva de forjar formas organizativas que apontem para a superação do capital e suas distintas formas políticas (ditadura, democracia etc.). Nesse processo, é essencial articular as necessidades imediatas ao projeto estratégico de constituição do socialismo. As táticas de atuação no interior da luta de classes devem estar articuladas à estratégia de superação do capital e da forma do trabalho que lhe oferecer sustentação.

Nesse cenário, torna-se fundamental colocar para os trabalhadores que a superação da crise passa por um processo revolucionário, que somente pela mediação da revolução é possível superar a crise e estabelecer uma forma de organização socioeconômica fundada no trabalho associado (livre, universal, consciente e coletivo). É necessário superar as ilusões acerca da possibilidade de reformar o capital e que subsiste um capitalismo menos ruim. O capital é ditadura e controle absoluto do trabalho e da classe trabalhadora. Liberdade de organização não passa de uma veleidade formal, de uma abstração fetichista. O controle estatal dos sindicatos e dos partidos políticos em contextos democráticos comprova isso.

Por fim, a análise da conjuntura nacional e internacional se inscreve como essencial para delinear nossas táticas e estratégias de atuação revolucionária junto à classe trabalhadora. É preciso superar as desorientações impostas pelas estruturas e estratégias defensivas herdadas e sair da inércia do academicismo, organizando nossas forças na perspectiva de uma ofensiva de massa socialista em nossos espaços de atuação onde quer que sejam. Isso implica que a estrutura prático-institucional da estratégia socialista precisa ser reconstruída com um pé na cotidianidade perpassada por contradiçõe e o outro na teoria da transição forjada por Karl Marx e István Mészáros.

Maceió, 30 de julho de 2026

Referências

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ABNEE -Carta de conjuntura – maio/2026. Abinee/Decon – 07/07/2026.

ANUÁRIO ESTATÍSTICO DO ILAESE. Trabalho & exploração: o mapa da exploração dos trabalhadores no Brasil. Vol. 1. No. 3, 2021. São Paulo: ILAESE, 2021.

BASTOS, Pedro P. Zahluth. O enigma de Lula 3. 26 de junho de 2026. Outras Palavras. https://outraspalavras.net/estadoemdisputa/o-enigma-de-lula-3/. Acesso em: 26 de julho de 2026.

BOITO, Armando. Lula 3 não é um governo liberal. 16/04/2026. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/lula-3-nao-e-um-governo-neoliberal/

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SAMPAIO Jr., Plinio Sampaio. Crônica de uma crise anunciada: crítica à economia política de Lula e Dilma. São Paulo: SG Amarante Editorial, 2017.


1. Artur Bispo é professor Associado III na Universidade Federal de Alagoas, nos cursos de Filosofia e Serviço Social. É Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Alagoas


Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.


  1. Com os aportes teóricos de Nicos Poulantzas, Armando Boito (2026, p. 1) estabelece distinção entre política econômica e modelo econômico, entre política de governo e modelo de Estado. O governo Lula 3 é interpretado como continuidade dos governos 1 e 2, pois trata-se de um governo neodesenvolvimentista que intervém na economia na perspectiva de estimular o crescimento econômico e reduzir a pobreza. Ele estabeleceu uma política intermediária entre neoliberalismo e desenvolvimentismo (ruptura com o imperialismo), ou seja, colocou em curso o neodesenvolvimentismo: que se configura como o desenvolvimentismo possível dentro do modelo capitalista neoliberal (Boito, 2026, p. 4). É um governo que se distingue dos governos Temer e Bolsonaro, porque impõe restrições à abertura comercial, à desindustrialização e à desnacionalização. O neodesenvolvimentismo está “contramão da política social neoliberal cuja dinâmica consiste na permanente, e cada vez mais radical, supressão de direitos trabalhistas e sociais” (Boito, 2026, p. 3). Boito esquece que os maiores aplicadores das políticas neoliberais (Margareth Thatcher e Ronaldo Regan), foram criticados por F. Hayek pela prática de políticas econômicas intervencionistas. Logo, não dá para qualificar o neoliberalismo como ausência de intervenção estatal na economia, pois subsiste um hibridismo entre monetaristas (Milton Friedmann) e neokeynesianos. ↩︎
  2. Para Bastos (2026, p. 3): “Gabriel Galípolo executa uma política de juros mais austera que a de Roberto Campos Neto, e admite uma volatilidade cambial muito superior à de Henrique Meirelles no primeiro mandato de Lula, embora tenha um colchão de reservas cambiais muitas vezes maior. A partir de 2003, Pallocci e equipe aumentaram ano a ano as metas de superavit primário muito depois de superado o risco de uma fuga de capitais catastrófica até serem derrotados por Dilma Rousseff, a líder do campo socialdesenvolvimentista, quando pretenderam fazer o que nenhum governo liderado pela direita tentou no Brasil: assegurar o déficit nominal zero, ou seja, gerar um superávit primário no tamanho necessário para compensar todo o gasto com juros da dívida pública!”. Sem contar a nomeação do ministro “mão de tesoura”, Joaquim Levy, no segundo governo Dilma. ↩︎
  3. “Conforme cálculos dos pesquisadores da USP, sintetizando e somando a legalização jurídica e nacional da grilagem entre 2009 e 2020 chega-se a 190 milhões de hectares. São 67 milhões do Programa Terra Legal, implementado por Lula em 2009 e que autoriza a transferência sem licitação a particulares de terrenos da União na Amazônia Legal, mais 60 milhões de ‘regularização fundiária’ de Temer em 2017 e mais 65 milhões de hectares do governo Bolsonaro” (Ramos, 2022, p. 2). ↩︎

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