
Héric Moura1
Andrea Almeida Torres, ou simplesmente Andrea Torres (1969 – 31 de agosto de 2019), foi uma assistente social, professora universitária e militante brasileira. Foi docente da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pesquisadora nos campos da criminologia crítica, do sistema prisional, dos direitos humanos e do abolicionismo penal. Atuou na Pastoral Carcerária e tornou-se referência nacional no campo sociojurídico do Serviço Social.

Andrea em Seminário do Tribunal Popular. Fonte: TORRES, Andrea Almeida. A institucionalização e suas consequências. YouTube, 2010.
Juventude e anos iniciais
Andrea iniciou sua trajetória política ainda na juventude. Aos 14 anos, já integrava um movimento de juventude da Igreja Católica voltado à organização social e comunitária. Aos 18 anos, teve contato com o sistema prisional por meio de um amigo cuja mãe estava presa. Esse amigo convidou o grupo de esportes do colégio para visitar uma penitenciária feminina em São Paulo. Ali, Andrea passou a desenvolver práticas de lazer com as detentas, como partidas de vôlei.
Ingressou na graduação em Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), período em que aprofundou seu envolvimento com ações voltadas à população carcerária. Participou de iniciativas culturais dirigidas às pessoas presas e a seus familiares, incluindo peças de teatro no Tuca (Teatro da Universidade Católica) e atividades comemorativas em datas festivas, como Dia das Mães e Dia dos Pais, realizadas no extinto Complexo do Carandiru. Engajou-se também em projetos musicais com os presos, como o grupo Raiz da Liberdade, formado por internos do Carandiru, aos quais se somava levando instrumentos e participando das rodas de samba dentro do presídio. Em paralelo, manteve vínculo com grupos de inspiração cristã ligados à Teologia da Libertação, integrando o coletivo Fé e Política, que promovia reflexões religiosas e sociais dentro da prisão.

Andrea em apresentação do grupo Raiz da Liberdade no Complexo do Carandiru, no Dia das Mães, 1989. Fonte: perfil pessoal de Andrea Almeida Torres no Facebook.
Formação, trabalho e pesquisa
Ao longo de sua trajetória acadêmica, Andrea conciliou pesquisa e trabalho junto ao sistema prisional. Graduou-se em Serviço Social pela PUC-SP em 1995. Após aprovação em concurso público, trabalhou por dois anos e meio como assistente social em presídios, mantendo simultaneamente intensa atividade voluntária na Pastoral Carcerária e em projetos de acompanhamento de egressos do sistema penal, denunciando violações de direitos humanos.
Desde a graduação, participou do NEPEDH (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética e Direitos Humanos), ainda em sua fase inicial, contribuindo para sua consolidação e para as primeiras investigações do grupo. Em 2001, participou do Fórum Social Mundial, integrou uma equipe de pesquisa em Sevilha, na Espanha, dedicada ao aprofundamento dos estudos em direitos humanos, e concluiu a especialização em Derechos Humanos y Desarrollo pela Universidad Pablo de Olavide.

Andrea Torres durante atividades no antigo Complexo do Carandiru. Fonte: Wikimedia Commons (2025).
Em 2005, defendeu na PUC-SP a tese de doutorado intitulada Para além da prisão: experiências significativas do Serviço Social na Penitenciária Feminina da Capital/SP (1978-1983), orientada pela professora Maria Lúcia Silva Barroco. No estudo, analisou a atuação de assistentes sociais no sistema prisional feminino durante a ditadura, questionando a função punitiva das prisões e propondo intervenções éticas e técnicas voltadas às detentas. O trabalho abordou o encarceramento como expressão das desigualdades sociais e contribuiu para a reflexão sobre o papel do Serviço Social nas prisões, fundamentando pesquisas posteriores em criminologia crítica e abolicionismo penal.

Andrea Torres durante atividades no antigo Complexo do Carandiru. Fonte: Wikimedia Commons (2025).
Docência e o GEPEX-DH
Em 2003, coordenou a implantação do Projeto Clareou, iniciativa conjunta do Ministério da Justiça e da FUNAP voltada ao atendimento de egressos do sistema prisional. Lecionou em diversas instituições de ensino superior, como a Universidade de Santo Amaro (UNISA), as Faculdades Santa Marcelina (FASM), as Faculdades Mauá (FAMA) e o Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), destacando-se na formação de assistentes sociais.
Participou ativamente da consolidação do curso de Serviço Social na Unifesp – Baixada Santista, contribuindo para a formação de novas gerações de profissionais. Em 2011, fundou na UNIFESP o GEPEX-DH, grupo de estudo, pesquisa e extensão em sociedade punitiva, justiça criminal e direitos humanos. Sob sua coordenação, o grupo desenvolveu atividades como o Projeto Cinema e Direitos Humanos e o programa de rádio Direitos Humanos em Debate, transmitido semanalmente via internet e na Rádio Silva. Após seu falecimento, o grupo passou a ser coordenado por suas orientandas e hoje leva seu nome, GEPEX-DH – Prof. AAT.
Estado penal, racismo e abolicionismo penal
Em sua produção, aulas e debates, Andrea deu destaque ao encarceramento em massa e à criminalização da questão social. Ela lia o sistema penal como instrumento do Estado penal acionado para administrar as expressões da desigualdade produzida pelo capitalismo. Criminalizar a questão social é tratar a pobreza como caso de polícia, e não como problema de política pública. Andrea chamou a ressocialização de falácia: não se educa para a liberdade em condições de não liberdade (TORRES, 2007). A ideia supõe que o preso esteja fora da sociedade e precise voltar a ela. Mas a prisão faz parte da sociedade, e é essa mesma sociedade que produz o crime.
Andrea criticou também o papel dos técnicos, entre eles assistentes sociais, no exame criminológico e no tratamento imposto ao preso.A dimensão racial ocupou lugar central nessa reflexão, sintetizada na denúncia do corpo negro criminalizado nos cárceres brasileiros. Para Andrea, não se combate o encarceramento sem enfrentar o racismo. A maioria negra nas prisões de hoje revela a continuidade do passado colonial e escravista. Para ela, pensar a prisão era também lutar: pelos direitos humanos e pelo fim do racismo e das desigualdades.
Andrea posicionou-se de maneira consistente a favor do abolicionismo penal. Essa corrente propõe superar a prisão como resposta aos conflitos sociais. Por isso, para ela, a luta contra a prisão era também parte da luta contra o capitalismo. Ela defendia que, enquanto persistir o capitalismo, as prisões continuarão a existir – e que, enquanto existirem, será fundamental garantir os direitos humanos das pessoas encarceradas.
Legado
Andrea foi reconhecida por sua militância e por sua contribuição acadêmica ao Serviço Social e aos direitos humanos. Atuou como Conselheira Estadual do CRESS-SP entre 2011 e 2014, tendo recebido homenagens da instituição após seu falecimento (CRESS-SP, 2019). Seu percurso destacou-se pelo compromisso com a formação de profissionais críticos, engajados e sensíveis às desigualdades sociais e raciais presentes no sistema penal brasileiro. Além da trajetória profissional e política, participou de inúmeras iniciativas culturais, envolvendo música e arte, e fomentou atividades de integração e lazer para pessoas presas e egressas, deixando um legado de resistência, afeto e compromisso com a transformação social. Sua trajetória é lembrada como referência para assistentes sociais, pesquisadores e movimentos sociais voltados à promoção da justiça social e dos
Referências
TORRES, Andrea Almeida. Pra que(m) o Brasil prende? [Debate]. Sorocaba: Coletivo Enfrente, 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=CNTc7Olk4Ck. Acesso em: 10 jul. 2026.
TORRES, Andrea Almeida. Críticas ao tratamento penitenciário e a falácia da ressocialização. Revista de Estudos Criminais, Porto Alegre, n. 26, p. 107-124, jul./set. 2007.
- Héric Moura – Assistente social e membro do Grupo de Estudo em Marxismo e Ecologia (GEEM). ↩︎
