
Carla Clemente*
“Toda a sua vida você está atravessando, você está tentando evitar as minas terrestres do racismo. E há um limite para o que você pode fazer antes de ser cortado pela metade. Você não pode fazer isso sempre. Não é sustentável.”1 Jason Arday
O sociólogo e escritor Jason Arday era o professor titular negro mais jovem da história de Cambridge, no Reino Unido, que remonta a mais de 800 anos de existência e cujo nome é uma referência de excelência até mesmo para aquelas/es que desconhecem detalhes do meio acadêmico.
O professor nasceu e cresceu na periferia de Londres, filho dos imigrantes ganenses Joseph Arday e Gifty Arday. Sua mãe, feminista e ativista na luta antirracista, foi uma referência fundamental em sua formação.
Jason era uma pessoa com deficiência, diagnosticado com autismo aos 3 anos de idade e surdez unilateral. Começou a ler e escrever aos 18 anos. Seus principais apoios foram sua mãe, que através da música tentava formular sua linguagem, a professora Debbie-Ann Mckenzie, com quem foi casado e que o introduziu à fonética, e seu amigo e professor universitário, Sandro Sandri.
Mesmo com todas as adversidades, formou-se em Educação Física e Estudos da Educação em 2008, tornando-se professor nessa disciplina. Sua formação em Sociologia deu-se enquanto lecionava no Ensino Superior; nesse período, dedicou-se também à escrita de artigos acadêmicos. Obteve o título de Doutor (PhD) em Filosofia pela Liverpool John Moores University.
Suas pesquisas e práticas acadêmicas eram focadas na democratização do ensino superior, na necessária inclusão da história negra nos currículos escolares, nas relações raciais, no antirracismo e na inserção da comunidade nos espaços acadêmicos. Para Jason, somente através da comunidade teríamos “um punho coletivo para penetrar em algo como o racismo”.2
Não é necessário ser um pesquisador ou especialista em colonização para saber que um intelectual negro em Cambridge incomoda, ainda mais um intelectual com posicionamento crítico e questionador das estruturas de poder.
Em seu livro (sem tradução para o português) “The Black Curriculum Black British History in the National Curriculum Report”, publicado em 2020, Jason faz uma crítica ao currículo nacional britânico, classificando-o como eurocêntrico e branco.
Questionava a existência da monarquia, dizendo que, com seu fim, a faixa de impostos da classe trabalhadora britânica seria beneficamente alterada. E também o patrimônio da universidade, mais de € 7 bilhões, além das posses de terra, “herdadas” desde a Idade Média. Para Jason, esse patrimônio representava laços com o passado que precisavam ser desfeitos e que ele relacionava diretamente com a luta antirracista.
Lembremos, como exemplo, o massacre cometido no Quênia, na década de 50, que deixou mais de 100 mil vítimas, com execuções em massa, torturas e campos de concentração. Hoje, os povos de Talai e Kipsigis exigem US$ 200 bilhões de “reparação” do governo britânico por roubos de terras e crimes coloniais.
São inúmeros os exemplos para a necessária responsabilização do brutal Império britânico pelas atrocidades cometidas a muitos povos. Dívidas que na realidade são impagáveis, pois não há reparação para crimes de genocídio e escravização.
“O colonizador introduziu a violência na casa e na mente do colonizado” — Frantz Fanon3
O Império Britânico colonizou e/ou controlou cerca de 80 territórios. A colonização foi inegavelmente um laboratório para o nazismo. Um dos maiores intelectuais do século XX, Aimé Césarie, em sua obra “Discurso sobre o colonialismo”, discorre perfeitamente sobre o assunto quando analisa o nazismo como a “barbárie suprema, a que coroa, a que resume a cotidianidade das outras barbáries” […] e que “foi apoiado antes de ser sofrido, foi absolvido, foi relevado, foi legitimado, porque ele até então só se aplicava aos povos não europeus”. 4
É uma tarefa impossível caracterizar em poucas linhas a monstruosidade de um império que durou mais de quatro séculos.
E a universidade de Cambridge está integrada a essa história, faz parte da produção intelectual, administrativa e científica do colonialismo Britânico, sendo, portanto estruturalmente elitista, frequentada por homens brancos da classe alta.
As mulheres não eram admitidas na universidade, houve uma luta por esse acesso, com forte resistência institucional. Isso no final da década de 1940, 80 anos atrás. Foi a última universidade do Reino Unido em que foi conquistado o direito de acesso às mulheres. E esse passado excludente não está tão distante – hoje, somente 0,5% dos professores são negros. Jason estava incluído nessa lista. Estamos falando de um corpo docente acadêmico com mais de seis mil pessoas.5
Em abril deste ano Jason proferiu uma palestra intitulada “Procurado Vivo ou Morto: o Manual”, na Conferência da Associação Britânica de Sociologia, ocorrida na University of Manchester pelos “75 anos de Sociologia”, relatando a perseguição racista acadêmica, com “ativistas” conservadores vasculhando as produções de pessoas pretas para tentar encontrar alguma citação, alguma frase, qualquer coisa para associar e denunciar um plágio.
As acusações de plágio não são um fenômeno isolado, mas sim parte de um método político recorrente da extrema direita contemporânea: identificar uma pessoa negra ou associada a políticas de diversidade, transformar essas acusações ou controvérsias específicas em prova de uma suposta falência moral de toda uma política ou instituição e, em seguida, amplificar o caso até produzir sua deslegitimação pública.
Roger J. Kreuz, da University of Memphis, especialista no estudo de temas relacionados a plágio, destaca justamente essa questão em seu artigo recente “Jason Arday and the new politics of plagiarism” (“Jason Arday e a nova política do plágio”), publicado no The Conversation em 21 de agosto de 2026. Kreuz também relembra a ofensiva contra Claudine Gay, primeira mulher negra a se tornar reitora da Universidade de Harvard e que renunciou seis meses após sua nomeação, acusada de não ter condenado adequadamente a ofensiva liderada pelo Hamas a Israel. Após sua participação em um painel no Congresso dos Estados Unidos sobre “antissemitismo nos campi universitários”, foi atacada, dentro outros, pelo ativista do Maga (movimento de extrema direita da base de Trump) Christopher Rufo.
Para Kreuz, as acusações de plágio passaram a funcionar como uma arma particularmente eficaz, por atingirem simultaneamente a reputação individual e a legitimidade das instituições.
Em todos esses casos, portanto, a ofensiva aparece em um contexto mais amplo de reação política às tentativas de ampliar a inclusão, a diversidade e a presença de grupos historicamente sub-representados nas instituições.
Exatamente o que aconteceu com Jason, que se tornou alvo de acusações de suas produções acadêmicas e até mesmo de sua trajetória de vida.
O racista Nathan Cofnas, ex-professor de Cambridge, autodenominado “realista racial”, demitido em 2024 por sua defesa ideológica do racismo científico, em que defende a superioridade biológica do homem branco, chegou a afirmar que “sob uma verdadeira meritocracia, os negros desapareceriam de quase todos os cargos de destaque fora dos esportes e do entretenimento”. Sua demissão se deu como resultado de muitos protestos de estudantes.6
Cofnas, atualmente suspenso da universidade belga em que leciona e sob investigação por discriminação contra Arday, publicou um texto acusando Jason de plágio. Até a data da escrita deste artigo, ele permanece suspenso e sob investigação.
Após a acusação de plágio, Jason passou por uma forte campanha de desinformação e perseguição, desde ameaças até a exposição massiva pela mídia de direita e de políticos conservadores. Houve centenas de matérias, em um curto período de tempo, expondo e questionando sua vida e carreira acadêmica.
Jason afirmou repetidamente que não cometeu plágio e renunciou ao cargo no dia 5 de agosto, quando a universidade anunciou que faria novas investigações sobre suas qualificações e carreira. Cambridge anteriormente havia se posicionado favoravelmente a Jason, afirmando que a Universidade John Moores de Liverpool, onde Jason tinha concluído o doutorado, havia revisado seu trabalho e constatado que não havia plágio.
“Rest in Power” Descanse no Poder
Milhares de pessoas se reuniram na Praça Trafalgar, no centro de Londres, para prestar homenagem a Jason, encontrado morto em sua casa no dia 14 de agosto de 2026, dias após os ataques sistemáticos que vinha sofrendo. Em sua carta pública de demissão, Jason afirmou “que chegou ao limite do que se pode razoavelmente esperar que uma pessoa suporte”. 7
Após seu suicídio, muitos debates e posicionamentos políticos foram suscitados. A universidade de Cambridge se viu obrigada a abrir uma investigação independente. A pergunta que fazemos é se chegarão à conclusão óbvia.
Não há dúvida de que a morte de Jason Arday não pode ser compreendida sem que se considere o racismo estrutural e a ofensiva política da extrema direita neste processo, que busca aprofundar as desigualdades e preservar, e até intensificar, estruturas historicamente herdadas do colonialismo na sociedade britânica, com efeitos que vão muito além da Europa.
Produzir conhecimento é também uma forma de resistência quando esse conhecimento questiona as estruturas de poder, denuncia desigualdades e dá visibilidade àqueles que historicamente foram silenciados. A trajetória de Jason expressa exatamente essa dimensão da produção intelectual: o conhecimento como instrumento de emancipação, de enfrentamento ao racismo e de construção de novas possibilidades sociais, e que a universidade e o conhecimento devem estar a serviço da construção de uma sociedade verdadeiramente igualitária.
*. Carla Clemente é graduada e especializada em Filosofia.
- Revista História Hoje, v. 13, n. 29. p.260. Acesso em: https://rhhj.anpuh.org/RHHJ/article/view/1268 ↩︎
- Id., p. 258. ↩︎
- FANON, Franz. Os condenados da terra. Juiz de Fora: UFJF, 2015. p.55. ↩︎
- CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Rio de Janeiro: Cobogó, 2022. p.165. ↩︎
- Disponível em: https://www.equality.admin.cam.ac.uk/files/ed_information_report_2021-2022.pdf ↩︎
- Disponível em:https://ncofnas.com/p/a-guide-for-the-hereditarian-revolution ↩︎
- Disponível em: https://www.independent.co.uk/news/uk/home-news/jason-arday-cambridge-professor-resignation-letter-b3028355.html ↩︎
