Cultura, dominação e universalidade: reflexões sobre capitalismo, cultura e resistência


“O dia se renova todo dia
Eu envelheço cada dia e cada mês
O mundo passa por mim todos os dias
Enquanto eu passo pelo mundo uma vez”
Alvaiade, sambista da Portela

Recentemente, o camarada e intelectual Vijay Prashad, coordenador do Instituto Tricontinental, no qual trabalho, colocou duas questões para provocar a equipe. As questões, para ele, são centrais e atravessam o debate contemporâneo sobre cultura e política: como culturas esmagadas podem recuperar seu senso de si? E o que exigiria uma abordagem marxista diante desse problema? 

Essas perguntas não são apenas teóricas. Elas tocam um dos nós mais profundos de nosso tempo: a relação entre cultura, dominação e universalidade sob o capitalismo. Não se trata apenas de identidade, nem apenas de produção simbólica, mas da própria forma como a humanidade se reconhece — ou deixa de se reconhecer — em um mundo organizado por relações sociais que lhe são estranhas.

A unificação do mundo sob o capital

Para responder a essas questões, é necessário partir das determinações materiais que estruturam a cultura no mundo contemporâneo. A história recente da humanidade é marcada por um fenômeno de proporções inéditas: a unificação global sob um único modo de produção da vida — o capitalismo. 

Essa unificação não ocorreu de forma pacífica ou espontânea. Ela se deu por meio de processos violentos e estruturais que constituem a própria lógica de funcionamento do capital:

  • a expropriação, que separa os trabalhadores dos meios de produção e destrói formas de subsistência; 
  • a espoliação, que implica o saque sistemático de recursos e patrimônios; 
  • a exploração do trabalho, baseada na extração de mais-valia; 
  • a produção de uma superpopulação relativa, marcada pela pobreza estrutural; 
  • e a colonização e o imperialismo, que organizam a dominação global. 

Esses movimentos não pertencem apenas ao passado. Eles são continuamente produzidos e reproduzidos como condição de sobrevivência do próprio sistema. Não se trata de um “erro” do capitalismo, mas de seu funcionamento normal.

Como já apontavam Marx e Engels, a burguesia cria um mundo à sua imagem e semelhança. Isso significa algo muito concreto: ela universaliza não apenas mercadorias, mas também formas de pensar, sentir e narrar a vida. O romance moderno, por exemplo, nasce junto com essa forma de sociedade — centrado no indivíduo, em sua interioridade, em sua trajetória singular num mundo de relações mediadas pelo mercado. Esse indivíduo, porém, é uma construção histórica específica, e não um dado natural da humanidade.

A falsa universalidade burguesa

Aqui reside uma contradição fundamental: a burguesia se apresenta como portadora do universal, mas sua universalidade é, na verdade, uma particularidade elevada à condição de universal. 

A figura do indivíduo livre, proprietário e empreendedor — tal como Robinson Crusoé — é tomada como expressão da natureza humana, quando na verdade é produto de condições históricas muito específicas. Esse tipo de universalização apaga as formas concretas de vida de outras sociedades e impõe um padrão único de humanidade.

A chamada “cultura universal” é, portanto, a cultura dos dominadores universalizando sua dominação. E isso se dá não apenas pela força bruta, mas também pela sedução, pela educação, pela indústria cultural, pelas formas consagradas de arte — e, sobretudo, pela própria base material cotidiana das relações sociais.

Mas essa universalidade é falha. E é justamente nas fissuras dessa universalidade que emergem as produções culturais mais potentes.

Machado de Assis é um exemplo clássico disso. Um escritor negro, vivendo em uma sociedade escravocrata periférica do capitalismo, escreve romances que dialogam diretamente com a tradição europeia — o romance psicológico, o narrador irônico, a forma moderna —, mas ao mesmo tempo desorganizam essa tradição por dentro. Machado não rejeita a forma universal do romance; ele a apropria e a vira contra a própria universalidade burguesa. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, o narrador encarna o sujeito burguês “universal”, mas revela sua mediocridade, sua violência e sua indiferença diante da escravidão. É exatamente esse duplo movimento que está em jogo.

O dilema das culturas esmagadas

As culturas submetidas ao processo de expansão capitalista tendem a se mover entre dois caminhos possíveis.

O primeiro é o conservadorismo, que busca um retorno a formas passadas de organização cultural. Esse caminho, embora compreensível como reação, é ilusório. Não há retorno possível a uma condição histórica anterior ao capitalismo. O que aparece como retorno é, muitas vezes, uma reconstrução simbólica mediada pelo próprio capital — uma tradição reinventada para caber no mercado, no turismo ou na política contemporânea. E não raro esse movimento desliza para posições reacionárias, quando tenta resolver uma contradição histórica com soluções imaginárias.

O segundo caminho é o da reinvenção radical. Aqui, a cultura não busca restaurar o passado, mas se reposicionar no interior da universalidade já constituída, confrontando-a.

Esse movimento implica algo mais profundo: transformar uma experiência particular — marcada pela exploração e pela colonização — em uma forma de expressão que dialogue com a humanidade como um todo. 

O samba é um exemplo poderoso desse processo. Nascido da experiência da população negra urbana, perseguido pela polícia, criminalizado como prática de marginalidade, o samba se desenvolve como forma cultural profundamente enraizada em uma experiência histórica de opressão. Ao mesmo tempo, ele se apropria de instrumentos, formas musicais e espaços sociais que já estavam atravessados pela lógica do capital. Com o tempo, torna-se símbolo nacional, mercadoria cultural e identidade brasileira. Mas mesmo quando incorporado à indústria cultural, o samba carrega em suas letras, ritmos e práticas sociais marcas de sua origem — a denúncia, a ironia, a memória da violência e a afirmação da vida coletiva. Ele é, ao mesmo tempo, capturado e resistente.

Podemos pensar também na música negra norte-americana — do blues ao hip-hop — ou na literatura latino-americana do século XX, que, ao invés de imitar a Europa, tensiona suas formas e produz algo novo. Em todos esses casos, a cultura nasce de uma particularidade histórica, mas aponta para além dela.

Produção cultural e luta de classes

Nesse contexto, a produção intelectual assume um papel estratégico. Um escritor ou artista oriundo das classes trabalhadoras ou de regiões colonizadas enfrenta um desafio duplo:

  • apropriar-se da cultura dita universal, que é produto da expansão e dominação burguesas; 
  • revelar, a partir de sua experiência histórica concreta, os limites dessa universalidade, apontando para outra possibilidade de organização social. 

Esse duplo movimento é central para a produção cultural crítica. Ele permite que a particularidade deixe de ser mera expressão local e se converta em instrumento de transformação universal — da luta internacional pela emancipação. 

Machado de Assis, novamente, é exemplar: ele escreve com a linguagem da elite letrada, mas revela a estrutura escravocrata que sustenta essa mesma elite. O universal aparece, mas como crítica corrosiva da universalidade falha.

O samba, por sua vez, mostra isso em outra chave: não como crítica literária direta, mas sim como prática coletiva que reorganiza a experiência do tempo, do corpo e da sociabilidade — em contraste com a lógica individualizante e mercantil do capital. A roda de samba, nesse sentido, é também uma forma de resistência.

É nesse ponto que a cultura se torna terreno de luta: não apenas como espaço de representação, mas como campo de disputa sobre o que significa, afinal, o humano.

Para além da dominação

Uma abordagem marxista do problema cultural exige, portanto, ir além da defesa de identidades isoladas ou de nostalgias reacionárias. Exige compreender que a superação da cultura de dominação passa pela superação das próprias relações sociais que a produzem — em última instância, do modo de produção capitalista.

A tarefa não é restaurar culturas perdidas, mas criar as condições para uma nova universalidade — uma universalidade diretamente humana, que não seja a imposição de uma classe sobre as demais.

Literatura, memória e acerto de contas

Essas reflexões encontram ressonância em obras contemporâneas, como A mais recôndita memória dos homens, de Mohamed Mbougar Sarr. Escritor senegalês marcado pela experiência da colonização, Sarr realiza um poderoso acerto de contas com a história, a literatura e a própria ideia de universalidade.

Sua obra demonstra que nenhuma tradição cultural sai ilesa do confronto com o capitalismo — mas também que é possível transformar esse confronto em criação crítica e luta.

Daniel Lage

Educador popular do NEP-13 de Maio, mestre em ciência política, poeta, sambista e operário da tecnologia da informação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *