
Existe uma longa tradição de publicações de organizações associadas às lutas dos trabalhadores. Essas publicações sempre cumpriram o papel tanto de informar os trabalhadores sobre questões econômicas, políticas e sociais como de servir de instrumento de mobilização da classe. Essa tradição segue vigente, seja na continuidade de publicações impressas, seja no uso de novas formas de publicação, em especial por meio da internet.
Nessa tradição de publicações dos trabalhadores, os jornais mais emblemáticos possivelmente são aqueles produzidos pelos bolcheviques, na Rússia, como o Iskra e o Pravda. No Brasil, nessa tradição se inserem publicações diversas, como os jornais A Plebe, difundido na Primeira República, com um viés sindicalista revolucionário, Spártacus, produzido por militantes operários sob a influência da Revolução Russa e que viria a ser um dos núcleos a convergir na fundação do PCB, e Homem Livre, publicação antifascista da qual participou a primeira geração de trotskistas do Brasil.
Dentre as publicações produzidas nas décadas mais recentes, pode-se destacar o jornal O Trabalho, que foi a principal voz da tradição trotskista nos últimos anos da brutal ditadura derrotada pela luta dos trabalhadores na década de 1980. Cabe destacar ainda outras publicações, como o jornal Opinião socialista, publicado pelo PSTU desde a década de 1990, e o jornal Foice & Martelo, publicado entre 2013 e 2020, sob responsabilidade de uma organização que à época se chamava Esquerda Marxista. Ainda que outros exemplos possam ser mencionados, o central nesta discussão passa por destacar a permanência dessa forma de comunicação, ainda que a partir de diferentes vieses teóricos e políticos.
Essas publicações acabaram ganhando outros formatos nos anos recentes. Embora houvesse formas de comunicação dos trabalhadores por meio da internet desde pelo menos a primeira década do século XXI, a partir da pandemia passou a proliferar um conjunto de páginas de internet que cumprem o papel de difusão de ideias da classe trabalhadora. Em alguns casos, publicações previamente existentes ampliaram seu público a partir de 2020, como o Contrapoder, o Passa- Palavra, o LavraPalavra, dentre outros.
Essa forma de encarar as publicações dos trabalhadores advém do conceito de imprensa operária. Entende-se por imprensa operária “aquela ligada a alguma forma de organização da classe trabalhadora, sejam partidos, sindicatos ou quaisquer outras agremiações”1. Por meio da imprensa operária, desde o começo do século XX, “eram veiculadas as manifestações, denúncias, greves, atividades culturais”.2 Essa imprensa está ligada diretamente ao movimento de trabalhadores, sendo possível afirmar que se constitui no “produto de uma militância que buscava construir uma sociedade oposta à sociedade capitalista”.3
Essa imprensa se diferencia da grande imprensa por sua forma de circulação, caracterizando-se como um meio de informação, organização e mobilização dos trabalhadores aos quais se dirige. Ela também se diferencia pelo fato de seu conteúdo ser resultado do conjunto de informações, reivindicações e propostas da base de trabalhadores que busca atingir, constituindo-se no “resultado de uma participação efetiva do individual e do coletivo no processo histórico”. 4
Um desdobramento da imprensa operária é a produzida pelos partidos e organizações de esquerda, especialmente as que reivindicam a tradição marxista. O PCB, fundado em 1922, logo iniciou a publicação de seus materiais, como os jornais A Classe Operária (1925) e A Nação (1926) e revistas, como o periódico Movimento Comunista (1922). Os trotskistas publicaram jornais como A Luta de Classes, principal ferramenta política da corrente ao longo da década de 1930.
Para além da prática de publicação desses materiais, a imprensa operária também passou pela reflexão teórica de alguns de seus principais dirigentes. Lenin, no período de consolidação do partido operário russo, fez uma árdua batalha para demonstrar a importância do jornal como forma de síntese política, organização e propaganda das posições revolucionárias.
“Antes de mais nada, precisamos de um jornal; sem ele não será possível realizar de maneira sistemática um trabalho de propaganda e agitação múltiplo, baseado em princípios sólidos, que em geral constitui a tarefa principal e permanente da socialdemocracia e que é particularmente vital no momento atual, quando o interesse pela política, pelos problemas do socialismo, vem crescendo nas mais amplas camadas da população”.5
Trotsky também se debruçou sobre a questão da imprensa operária. Em um período posterior à vitória da revolução russa de 1917, Trotsky procurou demonstrar a importância do jornal no próprio processo de construção da nova sociedade.
“Um jornal, como já dissemos, deve antes de tudo informar corretamente. Não poderá ser um instrumento de educação se a informação não for correta, interessante e exposta judiciosamente. Um dado acontecimento deve primeiro ser apresentado de forma clara e inteligível: deve precisar onde o fato se passa e como se passa”.6
O tema foi também debatido no processo de organização dos partidos que faziam parte da Internacional Comunista (IC), fundada em 1919. Em suas resoluções, a IC apontava que nenhum jornal poderia ser reconhecido como “órgão comunista” se não se submetesse às diretrizes do partido. Essa compreensão da propaganda das organizações comunistas engloba também publicações como livros, revistas e livretos, ainda que o jornal seja sua ferramenta de comunicação central. O jornal, para os comunistas,
“[…] deve tentar tornar-se uma empresa comunista, isto é, uma organização proletária de combate, uma associação de operários revolucionários, de todos os que escrevem regularmente para o jornal, que o compõem, imprimem, administram, distribuem, reúnem o material informativo, discutem e elaboram nas células, enfim, que trabalham cotidianamente para distribuí-lo”.7
Portanto, o jornal é encarado como uma construção coletiva dos membros do partido, sendo parte orgânica da classe e tendo como principal tarefa difundir análises políticas e orientações para as lutas dos trabalhadores. Os temas passam pela difusão de discussões sobre a conjuntura nacional e internacional, as ações políticas das classes sociais, a situação e a condição de vida dos trabalhadores, as diversas lutas sociais, bem como análises e notícias sobre a luta de classes em outros países. O que acontece de relevante no partido, no país e no mundo deve ser noticiado e analisado criticamente nas páginas do jornal da organização revolucionária.
Esses são alguns dos elementos históricos e teóricos que embasam a imprensa operária, que procura ser parte das lutas dos trabalhadores. Essa imprensa deve se constituir no principal instrumento na organização dos militantes revolucionários, contra todo ativismo e espontaneísmo. Lenin afirmava que “todo culto da espontaneidade do movimento de massa, todo rebaixamento da política socialdemocrata ao nível da política trade-unionista se resume justamente em preparar o terreno para transformar o movimento operário em um instrumento da democracia burguesa”.8
Nas últimas décadas, as mudanças tecnológicas transformaram o trabalho do jornalista, inclusive na imprensa operária. Esse processo provocou “profundas alterações nas funções do jornalista, que viu cargos e postos serem extintos. A mudança foi ainda mais radical com a chegada da internet e da informação eletrônica e interativa. Houve valorização da imagem e maior velocidade da informação”. 9Contudo, esse processo não foi o primeiro pelo qual passou a imprensa dos trabalhadores. Entre outros exemplos, pode-se mencionar que, a partir da década de 1980, a comunicação sindical extrapolou os materiais impressos, começando a apostar também na realização de vídeos ou mesmo no uso do rádio.
Na década de 1990, percebe-se também a profissionalização da comunicação sindical. Observam-se, nesse processo, mudanças na forma de produzir essa imprensa voltada aos trabalhadores, que cada vez mais deixa de ser função dos diretores sindicais ou de militantes, ganhando contornos mais profissionais. A comunicação das organizações de trabalhadores passou a ter formatos mais diversificados, extrapolando o jornal impresso, em particular pelo uso de vídeos e de mídias sociais.
O central dessas produções ligadas de forma orgânica às lutas dos trabalhadores passa por sua dupla função, sem importar o formato da publicação, seja impressa, virtual ou mesmo em vídeo: por um lado, contribuir para a formação teórica e política dos trabalhadores, auxiliando na interpretação da realidade; por outro, difundir a análise dos problemas enfrentados e apontar possíveis caminhos a serem seguidos pela classe trabalhadora.
- SILVA, Michel Goulart da. Entre a foice e o compasso: imprensa, socialismo e maçonaria na trajetória de Everardo Dias na primeira república. 2016. 211 p. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação em História, Florianópolis, 2016, p. 27. ↩︎
- VALLADARES, Eduardo. Anarquismo e anticlericalismo. São Paulo: Imaginário, 2000, p. 46. ↩︎
- LOBATO, Mirta Zaida. La prensa obrera. Buenos Aires: Edhasa, 2009, p. 16. ↩︎
- FERREIRA, Maria Nazareth. Imprensa operária no Brasil. São Paulo: Ática, 1988, p. 13. ↩︎
- Vladimir Lenin. Que fazer? São Paulo: Martins, 2006, p. 100. ↩︎
- Leon Trotsky. O jornal e seu leitor. In: Questões do modo de vida. A moral deles e a nossa. São Paulo: Sunderman, 2009, p. 21. ↩︎
- Internacional Comunista. Tesis sobre la estructura, los métodos y la acción de los Partidos Comunistas. In: Los Cuatro Primeros Congresos de la Internacional Comunista. 2. ed. México: Pasado y Presente, 1977, v. 2, p. 90. ↩︎
- Vladimir Lenin. Que fazer? São Paulo: Martins, 2006, p. 211. ↩︎
- Nonato, Cláudia. O perfil diferenciado dos jornalistas associados ao sindicato de São Paulo. In: Figaro, Roseli; Nonato, Cláudia; Grohmann, Rafael. As mudanças no mundo do trabalho do jornalista. São Paulo: Salta/Atlas, 2013, p. 156. ↩︎
