Os intelectuais e as lutas dos trabalhadores

Os trabalhadores das universidades acabam assumindo as mais variadas posições políticas diante dos ataques promovidos pelos diferentes governos. O fato de terem uma formação acadêmica que os destaca da maior parte da sociedade faz com que muitos deles não se enxerguem como trabalhadores, mas sim como intelectuais, ou seja, compõem um segmento social que normalmente não se reconhece como parte orgânica de uma classe e, por isso, seria capaz de analisar de forma mais precisa, e até mesmo pretensamente neutra, os problemas sociais e as disputas políticas que permeiam a sociedade.

Embora sejam assalariados que, como qualquer trabalhador, precisam cumprir horários e produzir algum tipo de mercadoria, esses intelectuais se consideram uma espécie de elite privilegiada em meio à exploração capitalista. Essa postura se explica pelo fato de estarem em um ambiente onde as contradições de classe não se mostram de forma evidente, aparecendo como processo de privatização ou de ataque a liberdades democráticas, portanto, mediadas pelo Estado. Sua prática se mostra diluída, entorpecida, marcando a realidade material dessa intelectualidade e influindo em suas ideias, crenças e até mesmo perspectivas de futuro. Cabe lembrar que “a produção de ideias, de representações, da consciência, está, em princípio, imediatamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, com a linguagem da vida real”1 .

Essa constatação sobre o caráter de classe e postura assumida pela intelectualidade não é necessariamente uma novidade. Em 1939, Trotsky criticava o que chamava de “pequena-burguesia educada academicamente”, apontando que

“[…] seus preconceitos teóricos já tomaram uma forma acabada, desde os bancos da escola. Por conseguirem aprender uma grande quantidade de conhecimentos, tanto úteis como inúteis, sem ajuda da dialética, acreditam que podem continuar, sem problemas, a viver sem ela. Na verdade, prescindem da dialética somente à medida que não conseguem afiar, polir ou agudizar teoricamente seus instrumentos de pensamento, e na medida em que não conseguem romper com o estreito círculo de suas relações diárias. Quando se vêm confrontados com grandes acontecimentos, perdem-se facilmente e reincidem em seus hábitos pequeno-burgueses de pensamento”.2

Certamente há uma parcela de trabalhadores da educação superior, entre professores e técnico-administrativos, que, embora também sejam vistos como intelectuais, encaram a universidade para além da atual institucionalidade. Esses trabalhadores, além de manterem uma ativa prática política, entendem que somente a unidade dos trabalhadores na luta pelo socialismo poderá transformar efetivamente as instituições de ensino. Eles entendem que não são o centro da transformação revolucionária, ainda que se dediquem a cumprir algum papel auxiliando na mobilização do conjunto da classe. Contudo, esse setor, além de ser pouco numeroso, é marginalizado dentro do meio acadêmico. Seus representantes são acusados de “doutrinadores” e “ideológicos” não apenas pela extrema direita, mas também por parcelas da intelectualidade de esquerda que se coloca como “crítica” e que tem em comum com os conservadores o fato de combaterem o marxismo e a revolução.

Os “intelectuais conservadores”, defensores da manutenção da ordem ou mesmo de ideologias abertamente reacionárias, vêm se posicionando de forma completamente covarde diante dos ataques vindos dos últimos governos, em especial a partir do segundo mandato da presidenta Dilma. Como resposta aos ataques, buscam se adaptar às políticas implantadas, propondo medidas que sirvam de paliativo ante a destruição da educação pública e gratuita. Esses setores não se importam com a ampliação do funcionamento de fundações privadas ou de empresas terceirizadas nas instituições de ensino públicas. O princípio básico de suas ações passa centralmente por não enfrentar as políticas governamentais, recuando a cada ataque, não se importando com a corrosão do caráter público e gratuito das universidades e institutos federais.

Convivendo nos mesmos espaços que os “intelectuais conservadores”, há outro grande grupo que poderíamos chamar de “intelectuais críticos”. Esse setor, diante dos ataques que vêm sendo perpetrados, rapidamente se posiciona contra as medidas do governo e se lança em suas redes sociais a manifestar sua indignação. Parte deles, inclusive, auxilia na análise da conjuntura política e do impacto que os ataques podem ter sobre as instituições de ensino. Contudo, esse setor apresenta pelo menos dois limites. Um deles tem a ver com a ausência de prática política, sem qualquer dedicação ao cotidiano da construção de seus sindicatos, participando de assembleias apenas de forma esporádica, normalmente quando se discute algo que lhe interessa diretamente. Sua atuação se dá muito mais em espaços paralelos, como fóruns de debate em que participam inclusive os gestores das universidades e institutos, que basicamente visam discutir a manutenção das instituições no formato atual, limitando-se a mobilizações contra os ataques imediatos.

Um segundo limite dos “críticos” tem a ver justamente com a perspectiva que possuem sobre as instituições, ou seja, não enxergam a necessidade das mobilizações para além da resistência aos ataques conjunturais. Entendem que os ataques sofridos pelas instituições de ensino são nocivos unicamente na medida em que afetam seus próprios interesses, ao ameaçá-los enquanto elite produtora de conhecimento institucionalizado. Esses setores “críticos” pensam estrategicamente na melhoria da educação superior dentro dos marcos do Estado capitalista, atuando politicamente de forma a se tornarem gestores das instituições e, com isso, passarem a aplicar uma política de limitadas reformas nos marcos da sociedade burguesa.

Embora os “críticos” sejam aliados no combate aos ataques conjunturais promovidos pelo governo, limitam-se a lutar por uma melhoria superficial do espaço universitário. Sua luta se limita à disputa por dentro das instituições, o que leva, comumente, à cooptação de muitos desses profissionais. Em 2010, Trotsky alertava para o processo de absorção da intelectualidade pelo capitalismo, que recruta “as forças intelectuais mais talentosas, aquelas com poder de iniciativa e força de raciocínio”3. Trotsky apontava que a intelectualidade “depende para sua sobrevivência dos pagamentos provenientes do lucro industrial, da renda da terra ou do orçamento estatal, e, portanto, se configura como direta ou indiretamente dependente das classes capitalistas ou do Estado capitalista”4.

Essas reflexões de Trotsky, aplicadas ao contexto atual das universidades, permite-nos entender que tanto o intelectual “conservador” que se esconde atrás de suas mesas quanto aqueles intelectuais que criticam superficialmente os problemas da universidade não estão fazendo outra coisa senão defender seus próprios interesses materiais. Diferentemente dos trabalhadores da educação que se reconhecem como parte da classe trabalhadora, esses intelectuais querem se distanciar da rebelião que vem sendo gestada entre os demais trabalhadores. Trotsky apontava que “tais pessoas não querem e não podem ver que seus uniformes de trabalho só se distinguem dos macacões dos operários pelo corte mais caprichado”5.

A postura de parte dos intelectuais “críticos” de combater o marxismo e a revolução está relacionada à incapacidade deste setor de se ligar ao movimento concreto da classe trabalhadora, suas lutas e suas organizações, acreditando que a mera exposição retórica de suas opiniões pode ter algum impacto na realidade, sem que seja necessário somar-se à mobilização da classe. Trotsky apontava que a intensificação da luta entre o trabalho e o capital impede que os intelectuais cruzem “o campo em direção ao partido dos que defendem os trabalhadores. As pontes entre as classes estão quebradas e, para atravessar de um lado a outro, seria necessário saltar sobre um abismo que se torna a cada dia mais profundo”6.

Mesmo diante do avanço no desmantelamento do caráter público de universidades e institutos federais e da situação de calamidade em que se encontram essas instituições, é pouco provável que a intelectualidade lute para transformar radicalmente o espaço acadêmico. Uma parcela da intelectualidade deve completar seu processo de absorção pelo capital, cada vez mais buscando financiamento privado para seus projetos. Os intelectuais “críticos”, quando muito, organizarão palestras e atividades dentro dos muros das universidades, falando para eles próprios, enquanto pensam em formas de minimizar o impacto dos ataques sobre seus projetos, nem que para isso seja preciso legitimar o corte de bolsas para seus orientandos ou ser conivente com a demissão e os ataques a outras categorias, em especial os trabalhadores terceirizados. Os intelectuais marxistas, mesmo quando poucos, devem encarar esse processo de uma forma diferenciada, apontando para a superação da sociabilidade burguesa. Diante dos limites dos “críticos” e do imobilismo dos “conservadores”, cabe à intelectualidade marxista a tarefa de abrir “uma outra via, não só definindo as palavras de ordem e os meios de defesa eficaz da pesquisa científica ameaçada, de seu direito ao trabalho e à qualificação, mas também abrindo-lhes as mais largas perspectivas”7. Pela prática e pela teoria, devem mostrar que, sem a transformação da sociedade e superação do capitalismo, não será possível pensar em constr



  1. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007. p. 93. ↩︎
  2. TROTSKY, Leon. Em defesa do marxismo. São Paulo: Sundermann, 2011. p. 78. ↩︎
  3. TROTSKY, Leon. Intelligentsia y socialismo. In: Literatura y revolución. Paris: Ruedo Ibérico, 1969. t. 1, p. 182. ↩︎
  4. TROTSKY, Leon. Intelligentsia y socialismo. In: Literatura y revolución. Paris: Ruedo Ibérico, 1969. t. 1, p. 184. ↩︎
  5. TROTSKY, Leon. Intelligentsia y socialismo. In: Literatura y revolución. Paris: Ruedo Ibérico, 1969. t. 1, p. 185. ↩︎
  6. TROTSKY, Leon. Intelligentsia y socialismo. In: Literatura y revolución. Paris: Ruedo Ibérico, 1969. t. 1, p. 188. ↩︎
  7. BLOCH, Gerárd. Ciência, luta de classes e revolução. São Paulo: Palavra, 1980. p. 70. ↩︎

Michel Goulart da Silva

Historiador pela UDESC. Doutor em História pela UFSC. Servidor público, atuando na reitoria do IFC, em Blumenau.

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