
Poemas
Stone song
Caio Fernando Abreu
Eu gosto de olhar as pedras
que nunca saem dali.
Não desejam nem almejam
ser jamais o que não são.
O ser das pedras que vejo
é só ser, completamente.
Eu quero ser como as pedras
que nunca saem dali.
Mesmo que a pedra não voe,
quem saberá de seus sonhos?
Os sonhos não são desejos,
os sonhos sabem ser sonhos.
Eu quero ser como as pedras
e nunca sair daqui.
Sempre estar, completamente,
onde estiver o meu ser.
Mulher
Audre Lorde
Eu sonho com um lugar entre seus seios
pra construir minha casa como um abrigo
onde planto safras
em seu corpo
uma vasta colheita
onde a rocha mais comum
é pedra da lua e ébano opala
amamentando todas as minhas fomes
e sua noite se derrama sobre mim
como uma chuva nutriz
Cinema
Bixa Travesti (Claudia Priscilla, Kiko Goifman)

O documentário adentra o processo criativo de Linn da Quebrada, cantora transexual negra, como forma de resistência e desconstrução de estereótipos de gênero, classe e raça.
Rafiki (Wanuri Kahiu)

Rafiki é protagonizado por Kena e Ziki, duas mulheres jovens que compartilham o amor e seus sonhos em Nairobi, capital do Quênia. O afeto entre elas enfrenta a pressão familiar, a igreja, a polícia, enfim toda a realidade conservadora do país, onde é criminalizada a homoafetividade. Apesar do contexto duro, a diretora Wanuri Kahiu, faz questão de apresentar uma relação permeada de delicadeza, alegria e cores vibrantes. O filme foi exibido no país de origem por apenas sete dias, depois foi banido com a justificativa de conter a “intenção em promover o lesbianismo”.
Tomboy (Céline Sciamma)

Diante da dificuldade em escolher um filme da diretora francesa Céline Sciamma, selecionamos dois: Tomboy, é a história de uma criança de dez anos. Sua família a conhece pelo gênero feminino, mas sua nova vizinha deduz, pelas roupas e cabelo, que é um menino. Uma ótima oportunidade para refletir sobre infância e sexualidade.
Retrato de uma jovem em chamas (Céline Sciamma)

Retrato de uma jovem em chamas, se passa na França do século XVIII, onde a artista Marianne é contratada pela mãe de Héloïse para pintar seu retrato, que deverá ser enviado ao futuro marido. Além de mostrar a relação afetiva das duas jovens, a trama revela a solidariedade entre mulheres que se deparam com temas como aborto e casamento arranjado.
Tatuagem (Hilton Lacerda)

Tatuagem, dirigido por Hilton Lacerda, é protagonizado por Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa. Um romance entre o líder do grupo teatral Chão de Estrelas, Clécio Wanderley, e o recruta Arlindo Araújo recém–chegado no Recife. O enredo se passa em plena ditadura civil-militar e debate temas como liberdade, democracia, cultura, soberania e repressão, além da homoafetividade e do poliamor.
Livros:
Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu

O livro Morangos Mofados de Caio F. Abreu é uma coletânea de pequenos contos. Os personagens apresentados estão quase sempre em situações de extrema angústia e crise, e a atmosfera construída pelo autor nos leva aos anos 1980, quando o regime militar estava em voga no Brasil e a comunidade lgbt, acuada. Através de uma poesia visceral, Caio traça uma sutil relação entre a ditadura e o que há de mais íntimo nos relacionamentos e, inclusive, no âmago de cada um. Cada conto lido é um soco no estômago, mas ainda assim há muita beleza e delicadeza nas palavras do autor.
O Boletim Chanacomchana

O Boletim Chanacomchana, editado pelo Grupo de Ação Lésbica Feminista, foi um importante nome da imprensa alternativa na resistência à Ditadura Militar. O levante do Grupo pela liberdade de distribuição das publicações no Ferro’s Bar é conhecido como o Stonewall Brasileiro. Aqui um trecho do Boletim de 4 anos do GALF: “nos autodenominarmos lésbicas representa não só uma forma de afirmação de nossa sexualidade especifica, mas muito mais que isso, significa uma postura política de recusa ao papel submisso e dependente atribuído às mulheres e uma proposta de desobediência e autonomia na busca de novas formas de ver o mundo”
