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Observem uma partida de futebol: é um modelo da sociedade individualista. Nela se toma a iniciativa, mas essa é definida pela lei. As personalidades distinguem-se hierarquicamente, mas as distinções não ocorrem segundo o status, mas segundo as específicas capacidades de cada um. Há movimento, competição, luta, mas esses são regulados por uma lei não escrita que se chama “lealdade”, continuamente recordada pela presença do árbitro. Paisagem aberta, livre circulação de ar, pulmões sadios, músculos fortes, sempre voltados para a ação (GRAMSCI, 1918).
Introdução:
Ao longo dos anos o futebol se tornou um esporte de massas, que não só passou a ser praticado por contingentes cada vez maiores de pessoas, mas a mobilizar recursos crescentes em infraestrutura e envolver as massas populares como “espectadoras” e torcedoras. Neste sentido, o futebol pôde tornar-se um grande “negócio”, na medida em passou a exigir investimentos de maior vulto que, por sua vez, passaram a gerar expectativas de “retorno” cada vez maiores, com venda de ingressos, jogadores, patrocínio e mais tarde, a comercialização de produtos licenciados, direitos de imagem e transmissão dos jogos. Isto exigiu que o futebol deixasse de se organizar de modo amadorístico, como nos primeiros clubes formados e dirigidos por jogadores, torcedores ou por “patronos” (industriais, políticos, “bicheiros”) e passasse a se “profissionalizar” crescentemente. A direção passou a ser entregue a gestores imbuídos dos métodos empresariais de organização e gerenciamento e da racionalidade capitalista e os próprios clubes tornaram-se empresas, muitas vezes de um único dono. Em outras palavras, o futebol virou “mercadoria”!
A transformação do futebol em mercadoria, uma imensa coleção de mercadorias, trouxe uma série de transformações não apenas à sua gestão, mas à própria prática futebolística em si, com consequências diretas na formação e preparação dos atletas, no estilo de jogo e na própria condição social do jogador de futebol. Se no princípio os jogos eram comercializados como espetáculo, como entretenimento, pelo qual se cobrava ingresso, como em qualquer outro evento artístico-cultural, devido a seu apelo de massas o futebol passou a “vender” uma gama enorme de bens, por meio do patrocínio de empresas interessadas em divulgar seus produtos ou por meio do marketing feito por jogadores e técnicos de mercadorias tão variadas quanto chocolates, cervejas, automóveis, serviços bancários, produtos de beleza e outros. Com o tempo os próprios jogadores passaram a se profissionalizar, sendo remunerados pelo seu trabalho e negociados entre os clubes, o que exigiu deles um processo de adaptação à procedimentos físicos e técnicos cada vez mais rigorosos e padronizados.
Isto porque a mercadorização do futebol exigiu a sua submissão à lógica do valor de troca, ou seja, ao imperativo de sua realização por meio da venda, não apenas como evento de massa, a quem se pode associar o consumo de uma variedade enorme de produtos, mas enquanto “atividade social” devidamente definida, quantificada e mensurada como um “quantum” de tempo de trabalho social e abstrato. Isto exigiu um processo de “padronização” da prática futebolística que tendeu a submeter a sua marca distintiva como esporte – a criatividade individual- ao meio termo, ao tempo médio, à um processo de nivelamento físico e técnico. Sob o capitalismo a lógica do valor de troca é submetida às leis de movimento do mercado baseadas na concorrência, na maximização do lucro e na acumulação. Daí que a disputa extrapola o campo de jogo e a finalidade última do futebol, o gol, e passa a determinar esquemas táticos, estratégicas de marketing e mídia, programas de preparação física, valorização de jogadores, formação da base, transformação de clubes em empresas de propriedade individual ou sociedades anônimas, desencadeando uma tendência à estandardização que o tornou um jogo previsível e monótono, onde prevalece a força e a velocidade em lugar da criatividade e do talento. O processo de mercadorização do futebol, ou de penetração do capitalismo no seu processo de reprodução, tem origem ainda no período entreguerras (décadas de 20 e 30), alterando gradativamente seus aspectos “externos” (bilheteria, marketing, profissionalização, gestão), mas se intensificou aceleradamente nas últimas três décadas, afetando sua dinâmica “interna” como prática esportiva e como jogo coletivo (formação e preparação de jogadores, esquemas táticos, ética de jogo, etc.). Adiantamos que neste trabalho optamos por privilegiar o processo de mercadorização do futebol e de seus efeitos, deixando de lado temas tão importantes quanto este para a análise das relações entre capitalismo e futebol, como futebol e política, futebol e identidade nacional ou futebol e cultura popular.
1-“Invertendo a pirâmide”: da época do “todos correndo atrás da bola” ao auge do “futebol-arte”.
A história registra a existência de jogos com a bola nos pés há séculos, como na América Pré-Colombiana ou na Itália Seiscentista. No entanto, o futebol propriamente dito nasce na Inglaterra em 1863 quando 11 times decidem criar uma liga e estabelecer regras proibindo o uso das mãos, distinguindo esta prática esportiva do também nascente rúgbi. Não havia goleiro, mas já havia se estabelecido a formação atual com 11 atletas. Os times jogavam com todos os jogadores “na linha”: 1 defensor, dois meias e 8 atacantes (esquema 1-1-1-8) ou variações mais “defensivas” como o esquema 1-1-2-7 ou 1-2-2-6. De todo modo, os times se comportavam em campo sem muita organização tática, com os jogadores correndo atrás da bola ao mesmo tempo, sem se distribuir pelo campo e ocupar posições mais definidas, buscando o gol a qualquer custo. Na década de 1870 surgiu o goleiro, o único jogador autorizado a jogar com as mãos, no começo por todo o campo, depois apenas na grande área. A partir de então surge o esquema tático que vai predominar no futebol até a década de 1930, o esquema 2-3-5, chamado “Pirâmide” por conta do “desenho” formado pela disposição dos jogadores em campo a partir do goleiro; com dois zagueiros, três meias e cinco atacantes, sendo um centroavante, dois pontas e dois atacantes “internos”, jogando mais pela meia. Com o 2-3-5 a organização tática ganha importância, tornando-se decisiva no desempenho dos times. A partir daí surgem as primeiras “escolas de futebol”, com os ingleses privilegiando as jogadas rápidas pelas laterais; os escoceses, austríacos e húngaros valorizando os passes curtos e rápidos e os uruguaios e argentinos preferindo o drible e a posse de bola (SILVA E OUTROS, 2015; CECCONI, 2009a, 2009b, 2009c).
O futebol nasce como um esporte de elite, jogado fundamentalmente por aristocratas e estudantes de classe média (burgueses) visando não apenas o desenvolvimento de uma atividade física, considerada crucial na formação de um jovem membro da classe dominante inglesa, mas também a disseminação de valores cavalheirescos como a lealdade e o respeito; sendo os times vinculados à clubes aristocráticos, universidades e escolas (STEIN, 2013). No entanto, já ao final do século tendeu a se popularizar, na verdade, a se proletarizar, com a criação de times de fábrica e o início da profissionalização dos jogadores, inserindo um componente classista ao se diferenciar dos esportes elitistas (tênis, golfe, hipismo) e a se internacionalizar, acompanhando a migração de engenheiros, gerentes e demais profissionais vinculados à expansão imperialista do capital britânico pelo mundo (HOBSBAWM, 1988, p. 256-258). Assim, cria-se uma verdadeira “afinidade eletiva” entre futebol e proletariado, transformando-lhe no esporte mais popular do mundo em função de alguns fatores. Em primeiro lugar, o fato de ser um esporte “barato”, cuja prática não demandava recursos vultosos, nem equipamentos sofisticados, mas basicamente uma bola (que pode ser de couro ou de meia), duas balizas (que podem ser de metal, com redes ou duas pedras dispostas no chão) e um campo de jogo (que pode ser um gramado em um estádio ou um terreno baldio ou ainda a própria rua). Em segundo lugar, por ser um esporte coletivo, que demanda trabalho em equipe, divisão de tarefas, cooperação, como numa fábrica ou em qualquer outra empresa capitalista. Em terceiro lugar, por ser uma prática esportiva de fácil aprendizado e execução, que dispensava regras e equipamentos complexos, grandes elaborações táticas e preparo físico. Por fim, por que os próprios industriais estimulavam a prática futebolística entre os trabalhadores de suas fábricas como uma forma de recreação e entretenimento que escamoteasse a dureza das condições de trabalho e os desviasse da luta social. No início do século XX o futebol já era um esporte popular e universal (HOBSBAWM, 1994, p. 196-197; STEIN, 2013).
A fase “tradicional”2 na história futebol perdurou até 1925, quando a FIFA mudou a lei do impedimento, anulando a jogada quando o atacante tivesse menos de dois jogadores adversários entre ele e o gol, dando origem à fase “moderna” do futebol, ou à sua “era de ouro”. A criação do impedimento levou à necessidade dos times se organizarem em campo de acordo com esquemas táticos mais definidos, organizando melhor a defesa e o meio de campo, reduzindo o número de atacantes e distribuindo mais os jogadores entre os três setores. Diversos esquemas táticos desenvolveram-se neste período, demonstrando um processo evolutivo cujo auge se deu nos anos 60/70. Em 1930 é criado o esquema “WM”, ou 3-4-3, iniciando a “inversão” da Pirâmide e dando importância maior ao técnico, na medida em que a montagem da equipe e a definição do esquema tático passaram a depender cada vez mais de sua intervenção do que da simples habilidade dos jogadores. O WM inovou ao recuar um dos meias para a zaga e dois atacantes para o meio campo, criar duas linhas de meias e dar maior liberdade de movimentação para os pontas. Mesmo aumentando o número de defensores e meias o novo esquema deu maior ofensividade ao jogo de futebol, levando ao surgimento de variações táticas conforme o time atacava ou se defendia e à criação de novos esquemas. Do esquema WM surgiram o 4-2-4, celebrizado pela seleção brasileira campeã do mundo entre 1958 e 1970 e mais tarde o 4-3-3, bastante utilizado pelos times brasileiros a partir dos anos 70 (SILVA E OUTROS, 2015; CECCONI, 2009d, PARREIRA, 2005).
A novidade do 4-2-4 consistia em avançar um dos meias para o ataque, geralmente o jogador mais habilidoso do time, tornando-se um quarto atacante que vinha de trás carregando a bola ou armando a jogada e aparecia como um elemento surpresa para a defesa adversária, pois os três zagueiros marcavam os três atacantes originais. Daí a necessidade de recuar mais um dos meias, que se torna, então, um quarto zagueiro, encarregado de marcar o meia-atacante. Assim, o 4-2-4, criado nos anos 50 pelos húngaros, tornou-se o esquema tático mais ofensivo na “era de ouro” do futebol, fazendo as glórias de grandes seleções como a Hungria vice-campeã da Copa de 1954 e o Brasil campeão das copas de 1958, 1962 e 1970, pois além dos dois pontas e do centroavante, o ataque era reforçado pelo meia-atacante, o camisa 10. No esquema 4-3-3 este meia atacante fica mais fixo no centro do campo, ampliando suas funções como marcador e armador e descendo ao ataque menos frequentemente. Nos anos 70 este esquema se tornou predominante, antecipando, em certa medida, o que viria a seguir, na fase pós-moderna do futebol (CECCONI, 2010c, 2010d, 2010f, GRANDO E MARCELINO, 2014).
De todo modo, nos anos 70 o esquema tático do 4-3-3 também deu origem ao chamado “Carrossel Holandês”, que desenvolveu sistema de troca de posições entre os jogadores, originalmente criado na antiga URSS, ainda nos anos 40. No esquema soviético, apesar da distribuição dos jogadores seguir o esquema WM (3-4-3) os meio-atacantes e os atacantes de revezavam em suas funções no sentido horizontal (lateralmente), embaralhando a defesa adversária e criando novas opções de ataque. Com os holandeses essa movimentação se intensificou ainda mais, envolvendo não apenas os jogadores de frente, mas todo o time, pois este se dividia em três linhas verticais que ligavam o ataque ao meio e à defesa, com os jogadores se revezando nas posições. Além disso, havia ainda o líbero, que atuava atrás da linha de defesa ficando na “sobra” da marcação, com liberdade para subir ao ataque em velocidade, surpreendendo assim a defesa adversária. Com este esquema, que dependia de jogadores extremamente habilidosos e preparados fisicamente, a Holanda assombrou o mundo com um futebol dinâmico e extremamente ofensivo, conquistando o vice-campeonato mundial nas copas de 1974 e 1978 (CECCONI, 2010b, 2010f).
Apesar do predomínio da perspectiva ofensiva e do “futebol-arte”, é importante ressaltar que nesta fase o esquema WM também originou variações defensivas, dando origem ao “futebol-força” e à chamada “retranca”. A perspectiva defensiva foi valorizada primeiramente com o esquema WW, ou 2-5-3. Criado primeiramente na Suíça nos anos 30, onde ganhou o nome de “ferrolho suíço”, foi desenvolvido na Itália Fascista e tornou-se o esquema predominante do futebol italiano até os anos 80, privilegiando o “futebol-força” em lugar do “futebol-arte”, com jogadores velozes e atleticamente vigorosos. O esquema WW é uma fusão dos esquemas 2-3-5 e WM, pois à frente dos dois zagueiros se posicionava um médio-volante encarregado de proteger a defesa, com mais dois meias defensivos à frente, seguidos de mais dois meio-atacantes, também encarregados de marcar, e dos três atacantes propriamente ditos. Na Itália este esquema evoluiu nos anos 60 para o chamado “catenaccio”, que criou a figura do “líbero” quando mais um zagueiro passou a jogar na “sobra”, como um “elemento surpresa” com liberdade de movimentação. Assim, com o “catenaccio” o 2-5-3 do WW evoluiu para uma espécie de 4-3-3, com o “líbero” com liberdade para atuar na defesa, no meio e no ataque conforme a situação de jogo. Com o WW e depois o “catenaccio” a Itália ganhou os mundiais de 1934, 1938 e o de 1982, último suspiro desta forma de jogar (CECCONI, 2010a, 2010g; PARREIRA, 2005).
Ainda nos anos 60 é criado outro esquema de caráter defensivo derivado do 4-2-4, o chamado 4-4-2. Este esquema surgiu na Inglaterra e consistia no recuo dos pontas para o meio de campo, ficando o ataque com apenas dois jogadores, sendo um mais fixo e o outro se movimentando de um lado a outro. O papel dos pontas passou a ser efetuado por quem “caísse por ali” e o meio campo passou a contar com uma formação “em diamante” ou losangular, dividindo os meias em três linhas: um volante posicionado especificamente para proteger a defesa, dois meio-atacantes que jogavam pelas laterais e um armador mais à frente abastecendo o ataque. Na defesa, além dos dois zagueiros, ainda atuavam os dois laterais, com pouca liberdade para “descer” por conta da centralidade da marcação. Com este esquema a Inglaterra foi campeã do mundo em 1966, legitimando uma forma de jogar que mais tarde pontificaria no futebol mundial, originando combinações ainda mais defensivas, apesar da seleção brasileira de 1982 (PARREIRA, 2005). O Brasil da Copa de 1982 é uma exceção a esta tendência, porque mesmo jogando no 4-4-2 o time brasileiro era bastante ofensivo, por conta da grande qualidade técnica de seus jogadores, da variação de jogadas e posições dos jogadores e da própria orientação de seu técnico, entusiasta do “futebol-arte”.
O desenvolvimento dos esquemas defensivos na “era de ouro” do futebol já refletiam o avanço paulatino da perspectiva mercantil em seu interior e a preocupação crescente com a previsibilidade e a rotinização, próprias da lógica do valor de troca, contraditando a perspectiva da criatividade e do improviso, que fundaram o futebol como esporte popular. Segundo Parreira (2005, pg. 14),
Foi e é ainda, com efeito, o drama do “catenaccio” e de uma época em que o futebol, encontrando-se de repente mergulhado em uma civilização industrial, começava a se comercializar e a se endurecer. Quantias fabulosas modificam completamente o espírito e, consequentemente, a tática e a estratégia desse porte. A isca do ganho e a busca exclusiva da Vitória condenam qualquer audácia e tentativa nova. Na fase moderna o futebol consolidou sua condição de esporte de massas, capaz de mobilizar o interesse e mesmo as paixões de milhões, o que abriu caminho para sua mercantilização enquanto evento esportivo e para a profissionalização de jogadores, técnicos, preparadores físicos, massagistas, etc., a partir dos anos 50, embora ainda não com os salários milionários que viriam depois (HOBSBAWM, 1994, p. 196-197). No final dos anos 70 este era um processo plenamente consolidado nos países capitalistas em que o futebol tinha adquirido status de “esporte das multidões”, principalmente na Europa e na América Latina, mas avançando rapidamente no Oriente Médio e na África. Apesar de ter este status também no Leste Europeu, nestes países tais processos de mercantilização vão se dar efetivamente nos anos 90, após a queda do chamado “Socialismo Real”. A força da mercantilização do futebol chegou a afetar a própria forma de jogar, mas ainda prevalecia a perspectiva original da habilidade individual, da criatividade e do improviso, que fez o futebol aproximar-se da arte, conforme definição do historiador Eric Hobsbawm sobre o futebol brasileiro3 No entanto, esta situação não perduraria nas décadas seguintes, como veremos a seguir.
2-Futebol e novas configurações do capitalismo: lógica da mercadoria e vitória do “futebol-força”.
No atual estágio do capitalismo, vigorante desde os anos 70/80 e que combina em um novo bloco histórico (GRAMSCI, 2004, p. 250-251) reestruturação produtiva (3ª e 4ª revolução industrial, pós-fordismo), acumulação flexível, financeirização econômica, neoimperialismo (chamado de “globalização”), neoliberalismo, e pós-modernismo, as tendências capitalistas presentes desde há muito no futebol foram radicalizadas a ponto de determinar com força cada vez maior a lógica do futebol, não apenas enquanto evento cultural-esportivo, mas como jogo em si. O neoimperialismo permite a mundialização do mercado do futebol com a exportação/importação e a alta rotatividade dos jogadores, a transnacionalização da propriedade dos clubes, as transmissões em tempo real, a difusão mundial das informações e das paixões pelos “superclubes”. Enquanto a acumulação flexível e a financeirização econômica favorecem a especulação com a venda de jogadores, com as ações dos clubes, as bolsas de apostas, a lavagem de dinheiro e a corrupção; a reestruturação produtiva estimula a polivalência dos jogadores, a incorporação definitiva da ciência e da tecnologia na preparação física, na formação de jogadores, na coleta e processamento de dados. O neoliberalismo institui o pragmatismo do “futebol de resultados” e a lógica da eficácia acima da habilidade, da qualidade e da beleza, valoriza a privatização dos espaços e do acesso à prática esportiva, reproduz o mito do individualismo presente no fetiche da gestão empresarial e da infalibilidade técnica, ao mesmo tempo em que o pós-modernismo “glamouriza” e mitifica times e jogadores, vistos como ídolos sagrados a serviço do merchandising e da representação do homem burguês contemporâneo.
No movimento de afirmação deste novo bloco histórico, em que se dá o processo de consolidação da mercantilização do futebol e da profissionalização dos jogadores e demais trabalhadores diretamente envolvidos em sua produção como um bem cultural mercadorizável e lucrativo, abre-se caminho para a terceira fase do futebol, a “pós-moderna”. Ou seja, aquela em que a lógica da mercadoria determina a lógica do futebol como espetáculo de massas que movimenta rios de dinheiro, mas principalmente enquanto prática esportiva. Isto quer dizer que a lógica da mercadoria invadiu o futebol não apenas em seus elementos “externos” (bilheteria, transmissão dos jogos, marketing esportivo, especulação com a compra e venda de jogadores, transformação dos clubes em empresas, etc.), mas também em seus elementos “internos” (formação dos atletas, preparação física, assistência médica, tabulação e análise “científica” de dados, esquemas táticos, etc.).
No plano “externo” os jogos de futebol tornaram-se grandes espetáculos cultural-esportivos, movimentando grandes volumes de recursos em direitos de transmissão, TV paga, ingressos, patrocinadores, marketing, a transformação dos estádios (agora chamados de “arenas”) em centros comerciais e mesmo grandes obras de infraestrutura e mobilidade urbana (demolição/construção de estádios, novas vias urbanas, transporte público, etc.), com grande impacto na divisão espacial das cidades, contribuindo para a especulação imobiliária e afetando diretamente populações inteiras, removidas de suas casas e deslocadas para regiões mais distantes (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2017). Esta nova situação forçou a transformação dos clubes em empresas de propriedade de bancos, holdings ou magnatas, empresas capitalistas, muitas delas de caráter imperialista, que exploram o futebol como qualquer outro negócio como a Sunning Commerce (Inter de Milão), Sílvio Berlusconi (Milan), Roman Abramovich (Chelsea), Nasser Al-Khelaifi (Paris Saint Germain) (TEIXEIRA, 2016; HOBSBAWM, 2007, p. 93). Além disso, a administração dos clubes passou a ser entregue a gestores profissionais e habilitados nas práticas empresariais mais agressivas, não mais à torcedores ou mesmo “padrinhos” que atuavam de maneira amadora e em paralelo às suas atividades profissionais específicas (SALOMÃO, 2016). A relação dos clubes e atletas com a mídia em geral e a imprensa em particular passou a ser mediada pelo peso dos seus patrocinadores e empresários, não mais propriamente por sua qualidade futebolística ou respaldo popular, criando o “jogador outdoor” (FORBES, 2016; SUCATA, 2016; CAMARGO, s/d). O mesmo se dá com as torcidas organizadas, financiadas pelos próprios clubes ou por dirigentes como instrumentos de pressão sobre jogadores e técnicos e que também passaram a funcionar de maneira empresarial e enriquecer, vendendo uma miríade de artigos, de mensalidades e ingressos para os jogos a camisas, bandeiras (SPORTV, 2016).
A transformação dos clubes em empresas estimulou a chamada “gentrificação” no futebol, ou seja, um processo de elitização do espetáculo e dos estádios semelhante ao que ocorre nas grandes cidades, com a apropriação das áreas urbanas degradadas ou pouco valorizadas por grandes empreendimentos imobiliários e comerciais, que expulsam os pobres, reurbanizam o local com o apoio de investimentos públicos instalando infraestrutura e serviços antes inexistentes ou precários, constroem moradias de alto padrão e depois as revendem para os endinheirados. Muitas vezes este processo está diretamente vinculado à grandes eventos esportivos, deslocando populações inteiras e criando novos bairros de luxo. No futebol o processo de gentrificação é fortemente impulsionado pela FIFA, tendo os “superclubes” europeus como exemplo maior, e se dá de diversas formas, com a elitização dos estádios, o encarecimento dos ingressos, o privilegiamento das transmissões de TV e tudo que está relacionado ao marketing. Os antigos estádios foram remodelados e se transformaram em “arenas multiuso”. Além de terem sua capacidade de público reduzida, com as áreas antes dedicadas aos torcedores menos aquinhoados, a famosa “geral”, transformadas em cadeiras numeradas e camarotes; na parte interna passaram a funcionar lojas, escritórios, academias de ginástica, etc., permitindo o aproveitamento do espaço do estádio durante toda a semana, não apenas em dias de jogo. Além disso, o estacionamento passou a ser cobrado, enquanto proibiu-se o torcedor de entrar com qualquer bebida ou alimento para forçá-lo a comprar nas lanchonetes do próprio estádio, em alguns deles até mesmo bandeiras são proibidas. Os jogos de meio de semana tiveram o seu início atrasado em função dos interesses das redes de TV, terminando tarde da noite e dificultando ainda mais a presença dos que acordam cedo para trabalhar. Por fim, os ingressos encareceram absurdamente, tornando o ato de frequentar um estádio para assistir um jogo de futebol um divertimento para poucos. Em contrapartida, as transmissões televisivas dos jogos passaram a atrair públicos cada vez maiores, tanto na TV aberta, quanto na TV paga. Assim, ganham não apenas os clubes, que faturam com bilheterias milionárias, venda de espaço nos estádios e venda dos direitos de transmissão e marketing; ganham também as redes de TV, que vendem cotas de patrocínio, e próprios patrocinadores, que divulgam seus produtos não apenas anunciando na camisa dos jogadores e nas placas dispostas ao longo do campo, mas nos intervalos comerciais e nas chamadas dos locutores, atingindo um público infinitas vezes superior aos presentes num estádio. Segundo Abreu (2013), no Brasil entre os anos de 2003 e 2013 os ingressos aumentaram mais de 300%, enquanto a inflação acumulada não chegou a 50%. Nesse sentido, a “gentrificação” está diretamente relacionada ao avanço da mercantilização do futebol própria de sua fase pós-moderna.
Outra mudança importante ocorrida nas últimas décadas foi a internacionalização do “mercado da bola”, com a transferência intercontinental dos jogadores, “pulando” de clube em clube em alta rotatividade, numa tendência crescente de valorização e especulação que acompanha tanto o neoimperialismo, quanto a financeirização da acumulação capitalista. Não que a transferência de jogadores (e técnicos) para clubes de outros países não ocorresse antes; craques de primeira grandeza como Leônidas, Di Stéfano, Domingos da Guia, Puskas, Didi, Pelé, Beckenbauer e Cruyff jogaram no exterior. Mas nada se compara ao que acontece desde os anos 80, envolvendo todos os países onde o futebol tem alguma importância cultural e/ou econômica. Não à toa, criou-se uma espécie de “divisão internacional do trabalho futebolístico” que em certa medida reproduz a dinâmica da economia capitalista mundial. Com exceção de alguns países do Oriente Médio, grandes exportadores de petróleo e onde o futebol é financiado por monarquias absolutistas que o vêm como um “assunto de Estado”, os principais mercados “importadores” localizam-se nos países de maior importância econômica internacional (Europa, China, Japão e EUA no futebol feminino). Enquanto isso, os principais países “exportadores” localizam-se na periferia do sistema (América Latina e África). Uma consequência disto é a “globalização” de determinados clubes, ou seja, criando “superclubes” que extrapolaram sua identificação com suas cidades e/ou países e passaram a conquistar torcedores (e consumidores!) no mundo todo e que levam ao ápice o princípio do clube-empresa. Esta situação se dá principalmente com os clubes dos países “importadores”, os mais poderosos economicamente e capazes de contratar craques de outros países (HOBSBAWM, 2007, p. 92-95).
Outra consequência é a existência de seleções nacionais em que predominam numericamente jogadores que atuam em países estrangeiros, especialmente as seleções latino-americanas e africanas, mas isto é cada vez mais comum mesmo em seleções de países “importadores”, como as europeias. Estas em especial também tem adquirido um caráter cada vez mais multiétnico, tanto por conta da internacionalização do mercado da bola, aumentando a presença de jogadores “nacionalizados”, quanto pela forte presença de imigrantes e descendentes oriundos de suas ex-colônias. Para a Copa do Mundo de 2018 nada menos que 23 das 32 seleções classificadas tinham mais de 50% de seu elenco jogando no exterior, e dentre estas as maiores porcentagens ocorriam entre as seleções latino-americanas e africanas. Em novembro de 2017 metade dos jogadores das seleções classificadas jogava em apenas seis ligas nacionais, todas elas na Europa (Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália, França e Rússia) (CHUTEIRAFC, 2018).
Em diversos casos, os jogadores sequer chegam a se profissionalizar e fazer carreira em seus países de origem, migrando para outros países ainda quando estão nas categorias de base, recrutados por empresários e “olheiros” dos clubes importadores. O argentino Lionel Messi é o exemplo mais conhecido de uma trajetória profissional cada vez mais comum: revelado no clube argentino Newell’s Old Boys, transferiu-se para o clube espanhol Barcelona, onde joga até hoje, com apenas treze anos de idade. Em outros, os jogadores trocam sucessivamente de emprego, transferindo-se de um clube para outro ao sabor da valorização do seu passe e/ou da especulação em torno do mesmo. O brasileiro Daniel Alves é exemplo de alta rotatividade entre as “estrelas” do futebol mundial: em 20 anos de carreira atuou em nada menos do que sete clubes, sendo quatro no exterior. Como “commodities” cuja valorização depende de sua imagem pública e capacidade de marketing, mais até do que de sua habilidade técnica, os jogadores de futebol são cada vez mais “glamourizados”, tendo suas vidas pessoais devassadas e expostas em redes sociais ao mesmo tempo em que suas opiniões e atitudes são incensadas como exemplares, numa manifestação típica do fetiche da mercadoria, própria do valor de troca (SUCATA, 2016). Os novos “deuses do futebol” são incensados em conformidade com sua postura pública, que nem sempre condiz com vida privada.
Como vimos, o processo de profissionalização dos jogadores se inicia ainda no século XIX na Inglaterra, e a valorização do “passe” é antiga e remonta aos anos 30. Leônidas, craque que jogou nos anos 30 e 40 em vários clubes e que se tornou garoto-propaganda de uma marca de chocolate, e Didi, nos anos 40, 50 e 60, evidenciam a antiguidade deste processo no Brasil (RIBEIRO, 2014). Porém, é a partir dos anos 60 que este processo se intensifica, apesar da permanência da informalidade nas relações de trabalho perdurar até o final dos anos 70. No Brasil, Pelé e Garrincha simbolizam os dois extremos desta situação. De um lado um jogador que soube aproveitar a profissionalização dos atletas para negociar bons contratos, impor condições de trabalho mais favoráveis e tornar-se um garoto-propaganda valioso, o que lhe permitiu enriquecimento e ascensão social ao ponto de tornar-se empresário. De outro, um jogador que sempre ficou à mercê da boa vontade e dos favores dos dirigentes, submetendo-se a contratos e rendimentos não condizentes com sua magnitude como craque reconhecido internacionalmente como um dos maiores da história do futebol, a condições de trabalho tão precárias que lhe causaram danos físicos irreversíveis e que terminou a carreira dependendo de apresentações “caça-níqueis” para sobreviver (CASTRO, 1995).
No entanto, é a partir dos anos 90 que este processo de “glamourização” e “commoditização” dos jogadores se consolida e expande a níveis jamais vistos. Os jogadores, em especial os “diferenciados”, são apresentados pela mídia, pelos clubes e por seus empresários como portadores de qualidades muito superiores à suas capacidades reais, valorizando ilusoriamente seu talento com finalidades especulativas e de marketing. Para que se constitua como um bom “garoto propaganda”, como “jogador outdoor”, sua imagem pública deve corresponder ao ideário de “bom mocismo” do homem burguês contemporâneo que domina o senso comum: competitivo, vencedor, implacável, calculista, mas ao mesmo tempo “de bem”, “apolítico” ou politicamente conformista, quando não de direita; socialmente “responsável”, apoiador ou mesmo financiador de “projetos sociais” e culturalmente conservador, “de família”, religioso, moralista, etc. Os jogadores que fogem a este estereótipo em sua vida pública podem até ser altamente valorizados no mercado da bola por conta de sua qualidade, mas são menos requisitados para campanhas publicitárias e menos “incensados” pela mídia (MORAES, BASTOS E CARVALHO, 2016; SUCATA, 2016; CAMARGO, s/d).
O mesmo processo de especulação se dá com o “mercado da bola”, ou seja, a valorização dos jogadores e a disputa entre os times pelo seu “passe”. Novamente Leônidas da Silva é simbólico no caso do Brasil, por exemplo, sua ida para o São Paulo em 1942 foi paga a peso de ouro (foi a contratação mais cara do futebol sul-americano até então), mas o processo se intensificou mesmo nos anos 90. Enquanto Pelé, considerado o maior jogador de todos os tempos, recebeu aos 21 anos uma proposta milionária de transferência para a Inter de Milão, recusada pelo Santos; em 1997 o mediano atacante Denílson, com 20 anos, foi vendido pelo São Paulo ao Bétis da Espanha por quase cinco vezes mais, no que foi a maior transação da história do futebol até então. De lá para cá a valorização atingiu níveis ainda mais estratosféricos. A maior transação de futebol de todos os tempos envolveu a transferência do atacante Neymar do Barcelona para o Paris Saint Germain por aproximadamente 200 milhões de dólares em 2017. Entre as 100 contratações mais caras da história do futebol nenhuma é anterior a 2001. Segundo estimativas entre o início dos anos 60 e meados dos anos 2010 o valor dos jogadores mais caros subiu nada menos do que 1947% (REIS, 2017; PELETHEBEST, 2016; GOAL, 2018). Isto se deve não apenas à mitificação e superexposição dos jogadores pela mídia, esportiva ou não, mas ao fato de que o “passe” dos atletas virou objeto de especulação financeira, sujeito à criação artificial de “bolhas” por dirigentes, técnicos, empresários e mídia, e mesmo de lavagem de dinheiro.
A compra e venda de jogadores cria um mercado especialmente propício para a especulação financeira devido ao caráter específico da mercadoria “jogador de futebol”, quando comparada a outras mercadorias. Isto porque, apesar de todo o processo de padronização na formação dos jogadores e de homogeneização das habilidades, com o uso intensivo de tecnologia e equipamentos sofisticados, trata-se ainda de uma mercadoria que não pode ser completamente “estandardizada” por conta de suas próprias características “artístico-esportivas”. Afinal, a maquinaria não pode entrar em campo e o esforço físico e cerebral individual é determinante no desempenho do atleta na partida e na definição de características decisivas para a qualificação de seu valor de uso, como a destreza com a bola, a velocidade, a rapidez de raciocínio, a beleza do drible, do passe ou do chute a gol. Isto faz com que a mercadoria “jogador de futebol” seja diferenciada das demais, pois a qualificação do valor de uso de cada atleta pode fazer com que o seu preço se “descole” relativamente de seu valor de troca, favorecendo a especulação. Neste ponto, não faz diferença se a “necessidade de consumo” em torno de cada atleta é real ou “fabricada”, como diria Marx na introdução do capítulo sobre a mercadoria n’O Capital, mas se por conta disto ele será comprado por aquele preço ou não (MARX, 1985, p. 45). Assim, cria-se uma contradição entre a tendência geral à padronização e “estandardização” dos jogadores e a valorização das qualidades individuais dos mais habilidosos, amplificando ainda mais a especulação com seu preço e a “glamourização” de sua imagem pública. Portanto, se de um lado isto cria um óbice à plena submissão da prática futebolista à lógica do valor de troca, de outro estimula ainda mais a fabricação midiática em torno do talento e das qualidades dos jogadores, fetichizando ainda mais o processo.
No plano “interno”, ou seja, da prática do futebol como jogo em si, se acirraram as tendências de privilegiamento da preparação física, da polivalência funcional e do rigor tático na formação e no desempenho dos jogadores (além da imagem “comportada”, conforme assinalamos anteriormente). Estas tendências já estavam presentes na etapa anterior em um ou outro aspecto, como evidenciam o “futebol cientifico” na URSS e no Leste Europeu, o 4-4-2 inglês, o catenaccio italiano e o “Carrossel Holandês” de 1974; mas tornaram-se predominantes e articuladas nesta fase pós-moderna. No Brasil a preocupação com a formação dos jogadores se generaliza a partir dos anos 60, quando os clubes passaram a criar suas escolinhas de base, mais tarde chamadas de Centro de Treinamento, com vistas à formação de seus próprios atletas, substituindo paulatinamente as ruas e várzeas como espaço de formação de jogadores. Em lugar do aprendizado baseado na própria prática do jogo (a famosa “pelada”), no improviso, na liberdade de movimentação e na criatividade, que formava o jogador “peladeiro”, entrou a valorização da preparação física, dotando-a de maior rigor científico e privilegiando o lado atlético dos jogadores; a orientação técnica adequada a posição do jogador no time e os treinamentos táticos exaustivos, que forma o “jogador-máquina”, geralmente sob a coordenação de um ex-jogador ou mesmo de um professor de educação física. Em lugar do talento “nato” e do empirismo, entraram o aprendizado orientado e o treinamento físico e técnico. Este processo reverberou não apenas as modificações econômico-sociais ocorridas no período, como o aumento da jornada de trabalho e a redução do tempo livre disponível; o desenvolvimento de outras formas de passatempo e diversão (TV principalmente); o avanço da especulação imobiliária nas cidades, eliminando terrenos baldios e áreas desabitadas utilizadas para a prática futebolística; mas a própria tendência à mercantilização no futebol e a vitória do “futebol-força”. Apesar de ser considerada a expressão maior do “futebol-arte” na história do futebol, a seleção brasileira de 1970 já incorporou estes elementos físicos e táticos em sua preparação para a Copa, em grande parte sob influência dos treinamentos militares e dos preparadores físicos que compunham a comissão técnica (Cláudio Coutinho, oficial do Exército, e Carlos Alberto Parreira) (MÁXIMO, 2005, p. 87-115; FUTEPOCA, 2010; MORAES, BASTOS E CARVALHO, 2016).
Ao longo dos anos esta tendência se impôs na medida em que o “futebol-força” passou a predominar sobre o “futebol-arte”; que não só os clubes, mas empresas e empresários passaram a enxergar na formação de jogadores um investimento lucrativo com a lógica da mercadoria passando a reger o futebol como um todo. Alguns fatores marcaram este processo. Em primeiro lugar, o avanço da mercantilização da prática esportiva levou ao desenvolvimento da chamada “ciência do esporte”, que combina conhecimentos de várias áreas como educação física, anatomia, fisiologia, psicologia e até mesmo gestão, marketing e informática. A preparação física torna-se uma prática cada vez mais planejada, sofisticada e detalhada, buscando atender objetivos específicos no condicionamento atlético dos jogadores e fazendo uso de um conjunto variado e oneroso de equipamentos, de aparelhos de musculação à programas de computação. O desempenho dos jogadores em campo e nos exercícios é escrutinado em diversos aspectos, dando origem a um grande volume de dados, utilizados para definir procedimentos técnicos e físicos (VIVEIROS E OUTROS, 2015). Surge então o curso de “ciências do esporte”, que expressa a perspectiva hoje predominante do esporte como mercadoria ao relacionar os conteúdos próprios da educação física (anatomia, fisiologia, nutrição, biologia celular) com psicologia, administração e gestão e o marketing (BATISTA, s/d).
Este processo também ocorre na formação e no comportamento dos técnicos, criando um novo tipo de profissional. Antigamente o técnico de futebol era geralmente um ex-jogador, “o treinador-boleiro”, que vivenciou o futebol praticando-o dentro das quatro linhas e cuja autoridade se baseava fundamentalmente nesta experiência e numa relação paternalista com seus comandados. Porém, na fase pós-moderna são cada vez mais frequentes os técnicos graduados em educação física ou ciência do esporte, que adotam os métodos e procedimentos descritos acima, misturando preparação física, gestão empresarial e psicologismo de autoajuda, e cuja autoridade advém do fetiche da eficácia e da infalibilidade científica, reconfigurando o despotismo tradicional dos treinadores. Por isto, são cada vez mais comuns técnicos que sequer pegaram na bola como jogadores uma única vez, mas são chamados de “professores”, revelando a perspectiva autocrática própria do neoliberalismo e do fetiche do mercado onde prevalece o “plano” sobre a “prática”, ou melhor, o esquema tático sobre a criação. Além disso, em consonância com a perspectiva da polivalência os técnicos não mais se limitam às funções de organização tática dos times e de orientação técnica dos jogadores, mas passam a assumir funções próprias da gestão do negócio, planejamento de infraestrutura, contratação de jogadores, contratos de marketing, estratégias motivacionais, etc.; além de serem secundados por uma equipe técnica que reúne profissionais de diversas áreas (DARIO, 2008). Não é à toa que eles passaram a ganhar salários astronômicos e a usar terno e gravata, como se fossem executivos trabalhando diante de uma mesa em escritórios refrigerados e não à beira do gramado, sob o risco de levar uma bolada ou mesmo uma cusparada.
Dos jogadores passou-se a exigir habilidades polivalentes, que lhes permitam atuar em diversas funções e posições conforme as circunstâncias do jogo. Desde a base os jovens jogadores são formados para dominar diversas técnicas e exercer funções variadas, que permitam o uso ampliado de sua capacidade de trabalho. Os laterais passam a ter que aprender a atuar também como zagueiros ou volantes e vice-versa e a descerem para o ataque; os meias devem saber atacar e defender, armar e desarmar; os atacantes devem saber atuar no meio e nas laterais, quando não são obrigados também a marcar. A velocidade, a movimentação em campo, o toque rápido na bola e a marcação predominam sobre a cadência, o drible, a finta de corpo, o lançamento de longa distância, o chute “colocado”, o domínio de bola. Surge, então, o “jogador-máquina”, que executa em campo o que foi ensaiado repetidamente nos treinos, sem fugir do “script”, sem improvisar, mas também sem perder o fôlego (MORAES, BASTOS E CARVALHO, 2016). Atualmente, um jogador corre entre 10 e 14 km por jogo em média no futebol europeu; enquanto no Brasil esta média é um pouco menor, entre sete e 11. Nos anos 80, quando o “futebol-arte” ainda predominava no país, os jogadores corriam entre quatro e sete kms por jogo (MAIA, 2013).
Nas palavras de um estudioso do assunto:
O futebol atual exige dos jogadores polivalência funcional enorme, uma vez que se obriga durante todo o tempo do jogo alta intensidade de movimento, com e sem a bola. Com isso todo jogador deve ser explorado ao máximo em sua capacidade física, porém respeitando-se a sua individualidade biológica.
(…) Alguns aspectos do futebol atual que permitem analisar a grandeza do esforço físico, com os quais podemos nos orientar com relação ao planejamento:
Equipe deve jogar em bloco e de forma dinâmica e para isso deve haver empenho permanente dos jogadores.
De posse da bola, todos atacam. Sem a posse de bola, todos defendem. Grande sentido de ajuda mútua.
Procura ativa da posse de bola no campo todo.
Mudanças constantes de ritmo e acelerações súbitas.
Ganhar espaço para ter tempo de agir através de demarcações rápidas e eficazes.
Reduzir o espaço para que o adversário não tenha tempo de agir, através de grande pressão sobre quem está de posse da bola.
Criar superioridade numérica sobre o adversário e ter a posse da bola o maior tempo possível para controlar o jogo.
Todos esses e outros aspectos do jogo exigem multiplicação dos esforços individuais e coletivos dos atletas.
Portanto, faz-se necessário ter uma equipe com jogadores resistentes para suportar o tempo todo de jogo, fortes para disputar com vigor as jogadas, velozes para antecipar, decidir e surpreender o adversário (BROLLO, 2007).
Ora, se de um lado este tipo de formação permite o desenvolvimento de diversas habilidades, por outro lado, impede a especialização e o aperfeiçoamento em torno de uma função e dificulta a emergência da maestria, do talento diferencial, daquilo que faz o craque, privilegiando o “termo médio”, a “estandardização”, a homogeneização e o nivelamento “por baixo”.
Em consonância com esta tendência ao “futebol-força” e ao termo médio, a partir dos anos 90 há o predomínio de esquemas táticos que privilegiam a marcação em detrimento da ofensividade, onde o objetivo principal é não tomar gols, ao invés de fazê-los. É fato que as “escolas nacionais de futebol” não perderam completamente sua força, mas a rotatividade de técnicos e jogadores por diversos países, as transmissões ao vivo de campeonatos nacionais e internacionais (principalmente europeus) e a facilitação da troca de informações pelas redes sociais e mídias alternativas favoreceram o intercâmbio e a padronização dos esquemas de jogo. Hoje, predominam esquemas táticos onde o meio campo é “congestionado”, com a maioria dos jogadores ocupando este setor do campo, tentando manter a posse de bola e proteger a defesa. A descida ao ataque passa a depender cada vez mais de iniciativas específicas, em grande medida dependentes de erros do adversário, com os times buscando atrair o outro time para seu campo, atacando fundamentalmente em situações de contra-ataque, quando então fazem prevalecer a velocidade, a objetividade e o toque rápido. Quando ambos os times jogam nesta perspectiva, não abrindo espaços em sua linha de defesa e nem cometendo erros de marcação os jogos costumam ser modorrentos, sem criatividade e, principalmente, sem gols. O leitor atento deve estar se perguntando onde os times europeus se encaixam nesta definição, com campeonatos nacionais e continentais onde os jogos são eletrizantes, marcados por muitos gols e os times jogam ofensivamente, destoando assim da tendência mundial. Na verdade, os times europeus são a exceção que confirma a regra, pois apesar da Europa ser o berço e o laboratório das principais inovações que marcam a fase pós-moderna do futebol, justamente por terem em seus elencos os principais craques do mundo inteiro, conseguem superar estes limites táticos com o talento dos seus jogadores, principalmente daqueles oriundos dos países “exportadores” da América do Sul e da África. Por outro lado, sem a presença dos jogadores estrangeiros que jogam em seus clubes as seleções europeias reproduzem os esquemas defensivos do “futebol-força”, justamente o que tem garantido sua superioridade nas últimas décadas em relação às seleções da América do Sul. Das oito copas do mundo realizadas desde 1990 as seleções europeias ganharam seis, enquanto as sul-americanas, tradicionalmente identificadas com o “futebol-arte”, ganharam apenas duas e ainda assim aderindo total ou parcialmente ao estilo europeu, como as seleções brasileiras vitoriosas em 1994 e 2002.
O famoso 4-4-2, criado pelos ingleses para a Copa de 1966, mas cujos antecedentes remontam ao “ferrolho suíço” e ao esquema WW dos italianos, tornou-se a matriz dos esquemas táticos da fase pós-moderna do futebol por conta do seu foco na marcação e no controle do meio de campo. Se como dissemos antes, este esquema foi usado com ousadia em alguns momentos, dando origem a times ofensivos e criativos, como a seleção brasileira na Copa de 1982, na atual fase do futebol isto ficou para trás. Por conta das características gerais do futebol na sua fase pós-moderna, foi restaurada a perspectiva do “futebol-força” e da retranca que originou o 4-4-2. Assim, exige-se que não apenas os dois volantes protejam a zaga, mas que um dos laterais e um dos meio-atacantes mantenha-se recuados para ajudar na marcação. Sob ataque adversário praticamente todo o time recua, ficando apenas um dos atacantes na sobra. Em variações ainda mais defensivas, os times jogam com quatro defensores, cinco meias e apenas um atacante (esquema 4-5-1); três zagueiros (um líbero, atuando como zagueiro ou volante), cinco homens no meio campo (dois volantes e dois laterais e um meio avançado) e dois atacantes (3-5-2) ou três zagueiros, quatro meio campistas, sendo dois volantes, dois atacantes recuados que voltam para marcar e um centroavante (3-4-2-1). Apesar de pouco utilizado, ainda há o esquema 3-6-1, sobre o qual não é preciso muitos comentários, pois os números falam por si (PARREIRA, 2005, p. 61-64; GRANDO E MARCELINO, 2014). Os dados a seguir, que em certa medida sintetizam a trajetória do futebol mundial, podem nos dar uma ideia desta verdadeira inversão de valores, desta “nova ética” do futebol, onde o objetivo supremo é não tomar gols. Desde a Copa de 1930 até a Copa de 1970, período de vigência da fase moderna do futebol, a média de gols por jogo foi de 3.8 gols; da Copa de 1974, quando o “futebol-força” ganha cada vez mais espaço em relação ao “futebol-arte”, até a Copa de 2018, a média foi de 2,77 gols por jogo. Decompondo estes números um pouco mais, podemos ver uma tendência de queda do número de gols por jogo conforme o futebol foi se mercantilizando. De 1930 até 1962 a média foi de 4,06 gols por jogo, de 1966, copa em que a Inglaterra foi campeã com seu “futebol-força”, até a Copa de 1986 a média foi de 2,72; enquanto da Copa de 1990, quando o “futebol-força” claramente se impôs, até a última Copa, a média de gols por partida foi de 2,49 (FUTDADOS.COM, s/d). É fato que cada esquema deste varia conforme a situação do jogo, podendo ficar mais ofensivo ou defensivo com o deslocamento de alguns jogadores, principalmente os meias e os laterais. Porém, são esquemas predominantemente defensivos, que sintetizam a formas predominantes de organização dos times em campo hoje.
Conclusão:
A epígrafe que abre este trabalho é de um artigo publicado por Gramsci em 1918 no famoso jornal Avanti!, do PSI, em sua coluna Sotto la Mole. Neste artigo Gramsci recorre à preferência dos povos por determinadas formas de diversão para comparar a sociedade italiana com as sociedades capitalistas desenvolvidas. A preferência italiana pelo jogo do baralho revela uma sociedade atrasada, onde ainda predominam a violência política, a arbitrariedade legal, as distinções por status, o patrimonialismo, a dependência pessoal; enquanto nas sociedades onde predomina o futebol prevalecem a liberdade individual nos planos econômico, político e espiritual, a meritocracia, onde a lei reconhece os direitos civis e políticos e garante a resolução “civilizada” dos conflitos. Em termos propriamente esportivos Gramsci associa o futebol à liberdade de movimento e criação, à lealdade à regra, ao reconhecimento e valorização da qualidade técnica. Características que poderíamos associar ao “futebol-arte”, que tiveram seu pleno desenvolvimento na fase moderna do futebol, e que Gramsci associa ao capitalismo, mais especificamente ao capitalismo liberal, e à democracia burguesa. Porém, são características que ao longo dos anos o próprio capitalismo tratou de esvaziar, submetendo-as à lógica do valor de troca na exata medida em que avançaram a mercadorização do futebol, a monopolização do mercado, o congelamento plutocrático da democracia e a expropriação de bens e direitos. Neste sentido, o futebol tem uma relação contraditória com o capitalismo, na medida em que este criou as condições para o seu desenvolvimento como atividade física e prática lúdica, mas também o seu embotamento como mercadoria.
Não é possível imaginar que o “renascimento” do futebol como esporte de massas se dará por meio da volta à um estágio idílico de amadorismo, predomínio do talento e da participação popular nos marcos da ordem do capital. Mesmo imaginando a prática do futebol numa sociedade socialista, não é possível descartar os avanços em termos de preparação física, coleta e análise científica de dados ou mesmo a polivalência dos jogadores. No entanto, é possível esperar que sua prática pelos milhões e milhões de apaixonados pelo futebol não precise passar pela mediação do valor de troca no acesso à campinhos e escolas de futebol, que sua apreciação não precise passar pela compra de ingressos cada vez mais caros ou do patrocínio de empresas e que o desempenho de seus “profissionais” não seja regido pela lógica da mercadoria. Desde que o valor de troca seja superado é possível imaginar que a criatividade, a ousadia e a liberdade de movimento possam prevalecer e tornar os jogos de futebol empolgantes e dotados de sentido e não enfadonhos, medíocres e completamente dispensáveis como atividade social dotada de significado integrador e emancipatório, como na atualidade.
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[1] –
[2] –
- Este artigo foi escrito em 2019, mas manteve-se inédito. Por sugestão de amigos e camaradas que o leram anteriormente e ficaram impressionados com o grau de mercadorização e politização do futebol evidenciados na Copa do Mundo de 2026, resolvemos publicá-lo. Apesar de já terem se passado sete anos de sua elaboração, acreditamos que as tendências gerais aqui descritas continuam vigorando, de modo que o artigo preserva sua atualidade mesmo sem uma atualização. ↩︎
- Aqui acompanhamos a proposta de apresentada por Silva e Outros (2015), que divide a história do futebol em fase tradicional, fase moderna e fase pós-moderna. ↩︎
- Segundo ele: “e quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?” (HOBSBAWM, 1994, p. 197). ↩︎
