
No dia 28 de julho de 1914 teve início a Primeira Guerra Mundial. Essa era uma conjuntura em que o movimento operário europeu tinha ainda como principal referência política o Partido Social-Democrata Alemão (SPD) e outros partidos que formavam a Segunda Internacional. O SPD, em 4 de agosto de 1914, traiu os interesses dos trabalhadores, votando a favor dos créditos de guerra e, dessa forma, apoiando o governo burguês e o discurso chauvinista germânico. Os revolucionários alemães da Liga Spartacus afirmavam que a guerra então em curso era uma expressão da dominação burguesa, denunciando em dezembro de 1918:
“A burguesia com sua dominação de classe, essa é a verdadeira culpada pela guerra mundial – tanto na Alemanha quanto na França, tanto na Rússia quanto na Inglaterra, tanto na Europa quanto na América. Os capitalistas de todos os países são os verdadeiros instigadores da matança dos povos”.1
Segundo os revolucionários alemães, a guerra seria responsável pela destruição de meios de produção e da força produtiva e pela morte dos próprios trabalhadores. Estes não apenas foram levados ao campo de batalha, como sofreram com a miséria e o desemprego, colocando, segundo o folheto da Liga Spartacus, a sociedade diante da escolha entre a “manutenção do capitalismo, novas guerras e rápida queda no caos e na anarquia, ou abolição da exploração capitalista”.2
O cenário depois da guerra era de crise econômica e política na Alemanha. Uma verdadeira revolução tomou conta do país no final de 1918. Naquele contexto,
“[…] com a derrota alemã na guerra, a revolução operária tomara contra do país, a monarquia fora abolida. As reivindicações econômicas tinham jogado um papel secundário durante a revolução de novembro. Uma segunda fase combinaria as reivindicações econômicas e políticas; a contrarrevolução, entretanto, não estava de braços cruzados, mas ocupada em preparar o esmagamento da revolução através de provocações”.3
Em sua maioria, os principais dirigentes das organizações operárias europeias colaboraram com seus governos, por meio do parlamento ou utilizando os sindicatos, apoiando medidas a favor da guerra. Em função dessa política, na Alemanha, o SPD conheceu cisões internas, dando origem ao Partido Social-Democrata Independente (USPD), que reunia setores bastante heterogêneos que se opunham à guerra. O partido
“[…] abarcava todo o espectro de opiniões da social-democracia anterior à guerra, do líder revisionista Eduard Bernstein, passando pelo ideólogo-chefe do ‘centro marxista’, Karl Kautsky, até os revolucionários internacionalistas da Liga Espartaquista, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo. Não se tratava, de maneira alguma, de um partido de esquerda rígido e unitário como o partido bolchevista russo de Lenin. A unidade se mostrava apenas na oposição à guerra, na medida em que eles não viam, já há muito tempo, uma guerra defensiva, mas uma guerra imperialista de conquista; e, também, se mostrava na aversão amarga contra os socialistas majoritários que eram leais à guerra – que, por sua vez, retribuíam essa aversão de coração”.4
Em 9 de novembro de 1918, Friedrich Ebert, líder do SPD, assumiu o comando do governo. O USPD aceitou entrar em um governo de coalização com o SPD, dificultando ainda mais o processo de mobilização contra a guerra e o capitalismo. No governo, os dois partidos, apesar de sua origem operária, procuraram controlar a mobilizações dos trabalhadores, de tal forma a garantir a ordem burguesa. Essa coalização dos dois partidos impactou também nos conselhos de trabalhadores:
“Na medida em que eram dominados por uma maioria de social-democratas moderados e de sindicalistas, os conselhos não se viam como adversários, mas como administradores do governo de coalizão SPD/USPD, lutando por uma genérica política socialista e para destruir o Estado autoritário”.5
O SPD e USPD não pretendiam dirigir uma revolução contra o capitalismo, mas apenas reformar a ordem burguesa. Quanto à Liga Spartacus, criado em meio ao processo revolucionário, era um pequeno grupo que não teve condições de encabeçar um processo como o que havia ocorrido na Rússia. O contexto pode ser assim analisado:
“A Alemanha não foi ameaçada por uma ditadura bolchevique em nenhum momento de 1918 e isso se deve à simples razão de que seu instrumento indispensável de poder, um partido bolchevique capaz de implementar a ditadura, não existia. Até 30 de dezembro de 1918, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo não integravam nenhuma organização e, depois dessa data, passaram a integrar uma organização muito fraca; nada que pudesse ser comparado ao corpo de revolucionários profissionais de que dispunha Lenin, com treinamento ao longo de catorze anos”.6
Na Rússia e na Alemanha foram constituídos conselhos de trabalhadores e, em ambos os casos, os principais partidos operários reformistas tomaram parte em governos de unidade com a burguesia. Na Rússia, a legalidade das organizações operárias era ínfima ou mesmo inexistente. Na Alemanha, durante décadas, os operários tiveram no SPD sua principal direção política, inclusive como espaço de socialização de suas vidas e de sua família. Suas lutas, sindicais ou em outros espaços, foram travadas sob a direção de um partido que, na maior parte de sua existência, esteve legalizado e com uma significativa bancada no parlamento. Os números do SPD são bastante impressionantes:
“Em 1913, a social-democracia era o principal partido do Reich: possuía 110 de um total de 397 deputados no Reichstag, 220 nos parlamentos locais e 12 mil vereadores. Em 2014, tinha cerca de 1 milhão de filiados, trinta mil militantes profissionais e dez mil funcionários, 203 jornais com 1,5 milhão de assinantes, dezenas de associações desportivas e culturais, movimentos de juventude e a central sindical mais poderosa – com 2,5 milhões de filiados, era dirigida pelos socialdemocratas”.7
Outro aspecto que diferencia os dois países tem a ver com a questão do partido. Na Alemanha, o SPD, principal direção do proletariado, era um partido organizado como uma frente de diferentes setores que reivindicavam o socialismo. Uma organização que pretendia se constituir como vanguarda consciente da classe, a Liga Spartacus, foi formada apenas no calor da luta revolucionária, e, mesmo assim, em um primeiro momento, como tendência de esquerda do USPD, um partido cujo programa passava pelo pacifismo abstrato e não pelo socialismo revolucionário. No meio do processo revolucionário essa pequena organização, construída de forma improvisada, deveria cumprir a tarefa de dirigir um processo extremamente complexo. O historiador Pierre Broué comentou:
“O contraste é chocante na Alemanha entre a mobilização, o ardor, a massa das manifestações de operários e soldados, a generalização dos conselhos, o papel pessoal dos militantes revolucionários e a fraqueza destes últimos sobre o plano organizativo”.8
Na Rússia, durante duas décadas, construiu-se um consistente e disciplinado núcleo de revolucionários, que, diante da revolução em 1917, era um grupo de dezenas de milhares de militantes centralizados e organizados. No processo de lutas e embates políticos, os bolcheviques não apenas cresceram numericamente como se tornaram a principal referência para os trabalhadores russos. Trotsky afirmava, em 1919:
“Quando a revolução estourou em 1917, o partido bolchevique representava uma organização centralizada forte, que havia absorvido os melhores elementos entre os operários progressistas e a intelectualidade revolucionária, que em sua tática se orientava – depois de uma breve luta interna – em completo acordo sobre a situação internacional e sobre as relações de classe na Rússia, rumo a uma ditadura socialista da classe operária”.9
Em 1917, na Rússia, diante da revolução, tendo passado pela experiência dos sovietes em 1905, construíram-se conselhos de trabalhadores que eram não apenas grandes organismos de poder, mas também formavam uma rede que unia o proletariado das várias regiões da Rússia. Embora os partidos reformistas procurassem atrelar os sovietes ao governo provisório, tentando controlar o ímpeto dos trabalhadores, a agitação e a propaganda dos bolcheviques reverteram um quadro em que inicialmente as posições revolucionárias eram minoritárias. Os bolcheviques, tendo a política e a postura corretas, ampliaram sua influência nos sovietes e assumiram a direção da Revolução de Outubro.
Na Alemanha, os revolucionários não podiam contar nem com a experiência dos trabalhadores na luta por fora da legalidade burguesa nem tinham construído nos anos anteriores um partido revolucionário com condições de encabeçar um processo de luta pelo socialismo. Embora houvesse um núcleo de revolucionários experiente e bastante consciente da situação objetiva por que passava o país, não havia condições subjetivas que propiciassem travar uma luta que, na mobilização contra a guerra e pelas principais demandas dos trabalhadores, superasse as direções traidoras do proletariado e preparasse o terreno para a revolução socialista. Sobre a dinâmica da revolução, afirmava Trotsky:
“As massas entram na revolução não com um plano preparado de reconstrução social, mas com um agudo sentimento de não poderem mais suportar o velho regime. Apenas as camadas dirigentes de uma classe têm um programa político, e mesmo este ainda exige o teste dos eventos, e a aprovação das massas. O processo político fundamental da revolução consiste, portanto, na compreensão gradual por uma classe dos problemas que surgem da crise social – a orientação ativa das massas por um método de aproximação sucessiva”.10
A comparação entre os processos revolucionários ocorridos na Alemanha e na Rússia permite algumas conclusões. Uma primeira, que mostra a necessidade da luta revolucionária no processo de mobilização dos trabalhadores, apontando para a superação da exploração capitalista. Outra, passa pela necessidade de construir uma direção revolucionária, disciplinada, coesa, que combata tanto o voluntarismo como o espontaneísmo de setores da esquerda. Esses são elementos que, embora tenham se mostrado na Rússia, faltaram na Alemanha e contribuíram para a derrota dos trabalhadores.
Este texto não passou pela revisão ortográfica da equipe do Contrapoder.
- Rosa Luxemburgo. O que quer a Liga Spartakus? In: Obras escolhidas. São Paulo: UNESP, 2011, Vol. II, p. 288. ↩︎
- Rosa Luxemburgo. O que quer a Liga Spartakus? In: Obras escolhidas. São Paulo: UNESP, 2011, Vol. II, p. 288. ↩︎
- Osvaldo Coggiola. Alemanha 1918-1924: hiperinflação e revolução. São Paulo: LCTE, 2010, p. 34. ↩︎
- Sebastian Haffner. A Revolução Alemã (1918-1919). São Paulo: Expressão Popular, 2018, p, 39-40. ↩︎
- Isabel Loureiro. A revolução alemã. São Paulo: UNESP, 2005, p. 64 ↩︎
- Sebastian Haffner. A Revolução Alemã (1918-1919). São Paulo: Expressão Popular, 2018, p. 153. ↩︎
- Isabel Loureiro. A revolução alemã. São Paulo: UNESP, 2005, p. 36. ↩︎
- Pierre Broué. História da internacional comunista. São Paulo: Sundermann, 2007, t. I, p. 72. ↩︎
- Leon Trotsky. A teoria da revolução permanente. São Paulo: Sundermann, 2010, p. 30-1. ↩︎
- Leon Trotsky. História da revolução russa. São Paulo: Sundermann, 2007, p. 10. ↩︎
